A Secretaria da Saúde pagou R$ 395,2 milhões a dez empresas de sistemas e plataformas digitais desde 2023. Em 2025, seis delas receberam ao mesmo tempo. A linha de cuidado do AVC e do infarto foi contratada de duas empresas diferentes em menos de um ano, a primeira sem licitação, sob a justificativa de serviço “exclusivo”.
Jornalista Trabulo Neto
A Secretaria da Saúde do Piauí (SESAPI) pagou R$ 395.204.894,61 a dez empresas de plataformas digitais, softwares e serviços de tecnologia entre 2023 e setembro de 2026. Os dados são da base de empenhos do Portal da Transparência do Piauí, com extração de 28/09/2026.
O que cada empresa faz, segundo o Portal
| Empresa | Pago pela SESAPI | Descrição do contrato no Portal |
|---|---|---|
| Integra Saúde Digital | R$ 242,9 mi | Plataforma de saúde digital com pronto atendimento virtual 24 horas, teleconsultas ilimitadas, laudos ilimitados de eletrocardiograma e integração com hospitais e UBS |
| Medsafe Soluções em Saúde | R$ 75,9 mi | Três plataformas: linhas de cuidado do AVC e do infarto; educação continuada em saúde; linha de cuidado ao trauma |
| Big Data Health | R$ 36,7 mi | Software de gestão de saúde para a SESAPI |
| MV Sistemas | R$ 10,3 mi | Manutenção e atualização do sistema de gestão hospitalar MV |
| S M Informação e Tecnologia | R$ 9,4 mi | Serviços de TI e gestão de documentos |
| LGPDNow | R$ 8,6 mi | Licenciamento e assinatura de soluções tecnológicas |
| ALLM S.A. | R$ 7,5 mi | Integração da rede de urgência para as linhas de cuidado do AVC e do infarto |
| Maida Infoway | R$ 2,2 mi | Serviço de informática e instalação das centrais de regulação |
| Alltech | R$ 1,6 mi | Softwares de segurança |
A tabela lista nove empresas porque a MV Sistemas aparece com duas razões sociais. A segunda, MV Sistemas de Medicina Diagnóstica, tem contrato de 2026 ainda sem pagamento.
Em 2025, seis ao mesmo tempo
Em 2025, a SESAPI pagou ao mesmo tempo seis dessas empresas, somando R$ 153,3 milhões:
- Integra: R$ 101,0 milhões;
- Medsafe: R$ 25,8 milhões;
- Big Data Health: R$ 19,6 milhões;
- LGPDNow: R$ 3,3 milhões;
- MV Sistemas: R$ 2,4 milhões;
- S M: R$ 1,3 milhão.
Por ano, os pagamentos às empresas da lista foram de R$ 22,5 milhões em 2023, R$ 99,9 milhões em 2024, R$ 153,3 milhões em 2025 e R$ 119,6 milhões em 2026, até setembro.
A mesma linha de cuidado, duas empresas
Linha de cuidado é o caminho que o paciente percorre na rede de saúde, do posto ao hospital, para uma doença específica. No caso do AVC e do infarto, depende de rapidez: a plataforma liga o atendimento inicial aos especialistas.
ALLM (contrato 153/2022). Em outubro de 2022, a SESAPI publicou o contrato com a ALLM S.A., por inexigibilidade de licitação. O Portal descreve a contratação como “prestação de serviços de natureza singular e exclusiva” para garantir a integração em rede e implantar as linhas de cuidado do AVC e do infarto em todo o Estado. O valor inicial era de R$ 10.137.324,00. A empresa recebeu R$ 7.481.345,10 em quatro notas, de março a junho de 2023.
Medsafe (contrato 320/2023). Em setembro de 2023, a SESAPI publicou o contrato com a Medsafe, desta vez por pregão. O objeto registrado é a implantação de uma plataforma digital que integre os serviços das linhas de cuidado do AVC e do infarto, com interação em tempo real entre especialistas e profissionais das UBS, UPAs, SAMU, hospitais e central de regulação. O valor inicial era de R$ 8.616.000,00. A empresa recebeu R$ 26,8 milhões por esse contrato e pelo registro seguinte (código 23004343), de outubro de 2023 a setembro de 2026.
A justificativa de exclusividade usada em 2022 para dispensar a disputa não impediu que, 11 meses depois, outra empresa vencesse um pregão para a mesma função.
Medsafe (contrato 49/2025). Em março de 2025, a Medsafe assinou um terceiro contrato, para a linha de cuidado ao trauma. O objeto registrado fala em “serviços de natureza singular e exclusiva”, mas o contrato está registrado como pregão. O valor inicial era de R$ 12.599.999,04, e a empresa recebeu R$ 14,99 milhões até setembro de 2026.
Medsafe (contrato 368/2023). O quarto contrato, de educação continuada em saúde, foi de R$ 24,5 milhões iniciais e pagou R$ 34,1 milhões.
Descrições parecidas
Os objetos registrados no Portal têm funções que se aproximam:
- Integra: integração com “aparelhos e sistemas dos hospitais e UBS”, teleconsultas e laudos de eletrocardiograma, exame usado no diagnóstico de infarto.
- Medsafe: interação em tempo real entre especialistas e as UBS, UPAs, SAMU e hospitais, nas linhas do AVC e do infarto.
- Big Data Health: “software de gestão de saúde” para a secretaria. A última nota em favor da empresa na base é de 29 de julho de 2025. Veículos locais noticiaram que empresários ligados a ela foram presos temporariamente na Operação OMNI, da Polícia Federal, em setembro de 2025, e soltos dias depois.
- MV Sistemas: mantém o sistema de gestão hospitalar MV Soul. Em 2026, a mesma fornecedora teve novo contrato para módulos de diagnóstico por imagem e anatomia patológica integrados a esse sistema.
A Rádio Calçada não afirma que há sobreposição entre os serviços. As descrições do Portal são resumidas, e só os termos de referência completos permitem saber o que cada sistema faz. A redação pede esses documentos à SESAPI.
Contas antigas e pagamentos sem contrato
- MV Sistemas: recebeu R$ 3.659.013,91 por via indenizatória, forma usada quando o serviço é prestado sem contrato válido. O histórico da nota se refere à manutenção do software de gestão hospitalar de setembro de 2021 a agosto de 2022 e cita um termo de reconhecimento de dívida e uma “declaração de nulidade do contrato”.
- Maida Infoway: recebeu R$ 672.747,30 também por via indenizatória, pela instalação das centrais de regulação de internações.
- Integra: recebeu R$ 56,5 milhões como Despesas de Exercícios Anteriores, que são contas de anos passados pagas com o orçamento do ano seguinte.
O contrato 340/2023 da Integra foi julgado regular pelo Tribunal de Contas do Estado no Acórdão 484/2024-SPL. No Ministério Público do Piauí, o procedimento SIMP 003245-426/2025 foi arquivado, com homologação do Conselho Superior do MPPI publicada em 14/07/2026.
É avaliação desta redação que, com R$ 395 milhões pagos a dez empresas de tecnologia, a SESAPI precisa mostrar ao cidadão um mapa simples: qual sistema faz o quê, em quais unidades, e por que cada um é necessário.
Órgãos de controle
A Rádio Calçada solicita ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí (TCE-PI), ao Ministério Público de Contas (MPC-PI), à Controladoria-Geral da União (CGU) e à Controladoria-Geral do Estado (CGE-PI) informações sobre:
- a análise de eventual sobreposição entre as plataformas contratadas pela SESAPI;
- a justificativa de exclusividade do contrato 153/2022 com a ALLM, diante da contratação por pregão de outra empresa para o mesmo fim em 2023;
- a classificação do contrato 49/2025 da Medsafe, descrito como exclusivo e registrado como pregão.
OUTRO LADO
A Rádio Calçada solicita manifestação das partes envolvidas: Secretaria da Saúde do Piauí (SESAPI), Integra Saúde Digital Telemedicina Ltda, Medsafe Soluções em Saúde Ltda, Big Data Health Ltda, MV Sistemas Ltda, S M Informação e Tecnologia Ltda, LGPDNow Tratamento e Hospedagem de Dados Ltda, ALLM S.A., Maida Infoway Tecnologia e Gestão em Saúde Ltda e Alltech Soluções em Tecnologia Ltda.
A redação pergunta, em especial:
- qual é a função de cada plataforma, em quantas unidades está em uso e quantos atendimentos registrou;
- por que o contrato com a ALLM foi encerrado e a linha do AVC e do infarto foi licitada de novo em 2023;
- se as plataformas da Integra e da Medsafe se comunicam entre si;
- o que aconteceu com o software da Big Data Health depois de julho de 2025.
As respostas enviadas serão publicadas na íntegra. Contato: consultor@xconexoes.com.br














