Demonstrativo de maio de 2026 do Hospital João Luiz de Moraes, em Demerval Lobão, soma 10.212 atendimentos de urgência, mas 5.387 são injeções; unidade da Grande Teresina registra dez partos no mês, nenhum cesáreo, e presta contas ao TCE-PI assinada apenas pelo setor de faturamento
Por Trabulo Neto e Trabulo Júnior
No papel, o pronto atendimento do Hospital João Luiz de Moraes (HJLM), em Demerval Lobão, na Grande Teresina, é uma máquina: 10.212 atendimentos de urgência e emergência em um único mês, maio de 2026, para um município de 16.352 habitantes segundo o Censo 2022 do IBGE. É fato, porém, que mais da metade desse número, 5.387 registros, o equivalente a 52,7%, corresponde a uma única rubrica: aplicação de injeção. As consultas de urgência propriamente ditas somam 3.445. A unidade declara, portanto, 1,56 injeção para cada consulta realizada.
É fato que, somadas às injeções, a medicação oral (655) e as glicemias (529) elevam os atos de enfermagem a 6.571 registros, 64,3% de todo o subtotal de urgência e emergência. Expurgados esses atos, a produção assistencial do bloco cai para 3.641 registros, cerca de um terço do número estampado no demonstrativo.
É avaliação desta redação que a pergunta central que esse documento impõe é financeira: qual é o custo mensal do HJLM e o que exatamente esse custo compra, se dois terços da produção declarada são picadas, comprimidos e testes de glicemia que decorrem de atendimentos já contados? O demonstrativo não permite responder. Ele não informa leitos, taxa de ocupação, média de permanência, óbitos nem despesa. E chega ao tribunal sem a assinatura de nenhum gestor: na via física, o campo de responsabilidade identifica apenas o setor “Faturamento-HJLM”, sem nome. No sistema Documentação Web do TCE-PI, a assinatura digital, aposta em 30 de junho de 2026, às 16h06, é de um único signatário, Rodrigo Antonio Rosal Mota, cuja função o documento não declara.
O que a unidade declara sobre si mesma
O Demonstrativo do Número de Pacientes Atendidos do HJLM, unidade da Secretaria de Estado da Saúde do Piauí (SESAPI) instalada na Rua Francisco de Carvalho Melo, 245, Centro, em Demerval Lobão, CNPJ 06.553.564/0045-59, referente a maio de 2026, declara os seguintes números:
| Bloco | Total | O que está dentro |
|---|---|---|
| Ambulatorial | 817 pacientes | 181 serviço social, 164 cirurgia geral, 162 psicologia, 115 fisioterapia básica, 75 ginecologia, 60 cardiologia, 60 ultrassonografista |
| Internação | 123 pacientes | 1.156 exames de laboratório, 10 observações clínicas, 3 ortopédicas; sem discriminação por clínica |
| Urgência e emergência | 10.212 | 3.445 consultas, 5.387 injeções, 655 medicações orais, 529 glicemias, 26 curativos, 26 suturas, 12 pequenas cirurgias |
| Partos | 10 | Todos normais; zero cesáreas |
| Raio-X | 1.013 | Único exame de imagem informado |
É fato que o formulário apresenta falhas de construção: a numeração do bloco ambulatorial salta do item 1.3 para o 1.5, sem o item 1.4; a linha “consultas (fisioterapia)” aparece zerada ao lado de 115 “atendimentos básicos” de fisioterapia, sem que o documento explique a diferença; e o bloco de internação não discrimina se os 123 pacientes internados são casos clínicos, cirúrgicos, pediátricos ou obstétricos.
É fato, ainda, que o contraste interno dos números chama atenção: um pronto atendimento que declara 3.445 consultas de urgência registra apenas 26 curativos no mês inteiro, menos de um por dia, e 4 retiradas de pontos.
Dez partos, nenhuma cesárea, 164 consultas de cirurgia sem cirurgias
É fato que o HJLM declara 10 partos em maio, todos normais, em formulário que possui linha específica para parto cesáreo, preenchida com traço. É avaliação desta redação que o zero levanta duas hipóteses, ambas relevantes para o controle externo: ou a unidade não dispõe de capacidade cirúrgica obstétrica, e nesse caso é preciso saber qual é o fluxo para emergências obstétricas em Demerval Lobão, ou dispõe de centro cirúrgico apto e o mantém sem uso para essa finalidade.
É fato que o ambulatório registra 164 consultas médicas de cirurgia geral, a segunda maior rubrica do bloco, sem que nenhuma linha do demonstrativo informe quantas cirurgias, eletivas ou de urgência, foram de fato realizadas, à exceção de 12 pequenas cirurgias e 26 suturas no pronto atendimento. É avaliação desta redação que um hospital que consulta para cirurgia e não declara operar deve à população a explicação sobre para onde essa fila anda.
O padrão que se repete na rede
Esta é a terceira unidade da SESAPI cujo demonstrativo mensal esta redação analisa, depois do Hospital Regional de Amarante e do Hospital Estadual José Furtado de Mendonça, de São Miguel do Tapuio, e o padrão se confirma: produção inflada por atos de enfermagem, zeros assistenciais sem explicação e formulários que não guardam nenhuma padronização entre si. O demonstrativo de São Miguel do Tapuio, referente ao mesmo maio de 2026, foi protocolado no mesmo sistema nove minutos depois deste, às 16h15 de 30 de junho, em formulário completamente distinto, com categorias que impedem qualquer comparação entre as unidades.
É avaliação desta redação que essa incompatibilidade não é detalhe burocrático. Sem padrão, não há série histórica; sem série histórica, não há comparação de custo por produção dentro da rede estadual; sem essa comparação, a prestação de contas mensal vira formalidade: o papel chega ao tribunal, o controle não chega ao gasto. E um demonstrativo assistencial chancelado apenas pelo setor de faturamento, sem assinatura nominal de direção geral, técnica ou clínica, fragiliza até a cadeia de responsabilidade sobre os números declarados.
Perguntas que permanecem abertas
Qual é o custo mensal do HJLM e quantos leitos a unidade mantém ativos. Qual é a explicação técnica para 5.387 injeções em um mês, proporção de 1,56 por consulta. A unidade dispõe de capacidade para realizar cesáreas e, em caso negativo, qual é o fluxo para emergências obstétricas. Quantas cirurgias decorreram das 164 consultas ambulatoriais de cirurgia geral. Qual é a função de Rodrigo Antonio Rosal Mota na unidade e por que o demonstrativo não traz assinatura nominal de gestor.
Contraditório
O espaço está aberto à Secretaria de Estado da Saúde do Piauí (SESAPI) e à direção do Hospital João Luiz de Moraes para todos os esclarecimentos que entenderem necessários sobre os dados do demonstrativo de maio de 2026. A Rádio Calçada publica na íntegra as respostas que forem encaminhadas.
Aos órgãos de controle
A Rádio Calçada solicita ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí (TCE-PI), ao Ministério Público de Contas (MPC-PI) e ao Ministério Público do Estado do Piauí (MP-PI) manifestação sobre a metodologia de contagem de produção adotada pela unidade, sobre a cadeia de responsabilidade pela assinatura dos demonstrativos e sobre a exigência de padronização dos relatórios mensais das unidades da SESAPI protocolados via Documentação Web.














