O Supremo derrubou em 1º de setembro o sigilo de um relatório de 218 páginas da Polícia Federal sobre o celular de Daniel Vorcaro. O documento reúne dois contratos milionários com o escritório da mulher do ministro Alexandre de Moraes, metadados, cotas de avião e helicóptero e pedidos enviados a um contato salvo como “Alexandre de Moraes BRASILIA”. O escritório nega irregularidade e afirma que o ministro nunca julgou causa do Banco Master.
Jornalista Trabulo Neto
Registro 0002880/PI
Os atos convocados pela direita para o 7 de Setembro deste ano, em Teresina e no resto do país, têm um documento como combustível principal: o relatório da Polícia Federal que analisou o celular apreendido com o banqueiro Daniel Bueno Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
O documento é a Informação de Polícia Judiciária de Análise (IPJ-A) nº 3298613/2026, produzida pela NADIP/DFIN/CGRC/DICOR/PF, datada de 27 de agosto de 2026 e endereçada ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal. Tem 218 páginas. O sigilo foi derrubado por decisão do próprio Mendonça em 1º de setembro de 2026, nos autos da Petição nº 16.662. Foi essa liberação que colocou o material nas mãos da imprensa e, no mesmo dia, no discurso dos convocadores das manifestações.
Esta reportagem lista, ponto a ponto, o que está escrito no relatório e o que a própria Polícia Federal diz que o relatório não prova. A cada item indicamos a página do documento em que a informação aparece, para que o leitor possa conferir na fonte.
Como o material foi parar na mão da PF
O celular é um iPhone 17 Pro, apreendido em 18 de novembro de 2025, durante a Operação Compliance Zero (página 3). A operação apura fraudes na cessão de carteiras de crédito, no valor aproximado de R$ 12 bilhões, do Banco Master para o BRB. A prisão de Vorcaro foi decretada pela 10ª Vara Federal Criminal do Distrito Federal e, na mesma ocasião, foi autorizada a busca pessoal que resultou na apreensão do aparelho.
A extração dos dados está formalizada no Laudo nº 4281/2025 do SETEC/SR/PF/SP, que registra o valor de resumo, chamado hash, dos dados obtidos. Em linguagem simples: é uma espécie de impressão digital do arquivo, que permite verificar depois se o conteúdo foi alterado.
A análise foi feita com dois programas de perícia digital, o IPED, versão 4.2.2, e o Cellebrite Reader (página 1).
Ponto 1: o método dos prints e a janela de poucos segundos
O relatório descreve um padrão de comportamento (páginas 6 a 8). Vorcaro escrevia um texto no aplicativo Notas do iPhone, tirava uma foto da tela, fechava o Notas, abria o WhatsApp, enviava a mensagem e fechava o WhatsApp. Tudo em sequência, em poucos segundos.
A perícia conseguiu reconstruir isso porque o iOS, sistema do iPhone, gera automaticamente um arquivo em PDF do conteúdo exibido na tela quando a captura é feita. Esse arquivo fica guardado numa pasta temporária do sistema, chamada “tmp”, à qual o usuário comum não tem acesso. Ele sobrevive ao apagamento da nota original.
Cruzando três fontes de dados do aparelho, os registros do sistema, o histórico de uso de aplicativos e os arquivos residuais, a PF reconstruiu o horário de cada etapa. Em três notas de 30 de outubro de 2025, o intervalo entre a captura de tela e o envio da mensagem foi de 32, 23 e 13 segundos (páginas 9 a 16).
O destinatário dessas mensagens, segundo o relatório, era o terminal salvo na agenda do banqueiro como “Alexandre de Moraes BRASILIA” (página 16).
Ponto 2: a nota que cita “Andrei e Paulo”
Este é o trecho mais repetido nos discursos da oposição.
Numa nota modificada em 30 de outubro de 2025, Vorcaro escreveu que teve “informações informais e em confidencia de turma do banco central”, segundo as quais o Banco Central estaria sob pressão da Polícia Federal e do Ministério Público para tomar alguma medida contra ele. Em seguida, anotou que era “importante reforçar com Andrei e Paulo pra nao deixar ninguem de baixo fazer uma sacanagem” (página 199).
A Polícia Federal registra, no mesmo documento, que os nomes “podem indicar” Andrei Passos Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, e Paulo Gonet, procurador-geral da República (página 199). O relatório usa o verbo no condicional. Não afirma que são eles.
Trinta e dois segundos depois de capturar a tela dessa nota, houve envio de mensagem para o contato salvo como “Alexandre de Moraes BRASILIA”.
Ponto 3: o contrato de R$ 3 milhões por mês e o usuário “Ministro Alexandre de Moraes”
Em 11 de janeiro de 2024, o contato salvo como “Vivi Moraes” enviou a Vorcaro uma minuta de contrato de prestação de serviços (página 28). Trata-se de Viviane Barci de Moraes, advogada, sócia-diretora do escritório Barci de Moraes e mulher do ministro Alexandre de Moraes.
O ponto que virou manchete está nos metadados do arquivo, ou seja, nas informações que o programa de edição de texto grava automaticamente sobre quem mexeu no documento e quando. Segundo o relatório, o arquivo aponta como autor o usuário Guilherme Benazzi e registra a última modificação feita por um usuário denominado “Ministro Alexandre de Moraes”, às 16h30 de 11 de janeiro de 2024 (página 29).
A versão final da minuta, segundo o mesmo documento, teve a última modificação feita pelo mesmo usuário em 15 de janeiro de 2024, às 23h04 (página 32).
O contrato foi assinado por Vorcaro em 23 de janeiro de 2024 (página 34). O relatório se refere a ele como o contrato de R$ 3 milhões mensais (página 32).
É importante separar duas coisas. O relatório atesta a existência de um perfil de usuário com esse nome nos metadados. Ele não afirma, e não poderia afirmar apenas com base nisso, que o ministro tenha redigido cláusulas do contrato.
Ponto 4: as ordens sobre como pagar
O relatório reúne conversas internas do banco sobre a execução desse contrato (páginas 149 a 156).
Em 8 de fevereiro de 2024, o executivo Angelo Silva envia a Vorcaro o comprovante de uma transferência do Banco Master para o escritório Barci de Moraes, no valor de R$ 3.422.268,14 (página 149).
Em 15 de março de 2024, o ex-ministro Fábio Faria escreve a Vorcaro que “O careca não pode atrasar” (página 150). Logo em seguida, Vorcaro orienta funcionários de que o pagamento ao escritório é o mais importante do banco e que não pode “atrasar um dia”. Na sequência, escreve “Pode pagar sempre, sem nota” e “Do jeito que for” (página 152).
Em 1º de abril de 2025, Vorcaro orienta que ninguém deve ter acesso ao contrato (página 154). Em 1º de outubro de 2025, orienta que os valores destinados ao escritório não sejam pagos por PIX (página 156).
É avaliação desta redação que este é o conjunto de trechos com maior peso político no documento, porque não trata da existência do contrato, que ninguém nega, e sim da forma como ele foi executado.
Ponto 5: o segundo contrato, o jato e o helicóptero
O relatório localiza um segundo contrato, datado de 12 de maio de 2025, firmado entre o escritório Barci de Moraes e a empresa Vikings Participações Ltda (página 157).
O pagamento previsto envolvia a entrega de ativos. Os bens citados são cotas de duas aeronaves: um avião Legacy 650, prefixo PP-NLR, e um helicóptero EC 155 B1, da Airbus (página 161). Segundo a brochura reproduzida no documento, a cota do avião custaria US$ 5.512.951,89 e a do helicóptero, US$ 1.335.014,01 (página 165).
Em 9 de maio de 2025, Vorcaro pediu que essa brochura fosse enviada a Viviane de Moraes (página 164).
Em 16 de julho de 2025, um interlocutor identificado como Marcos da Mata informa a Vorcaro que já teriam usado aviões e helicópteros, e encaminha ao banqueiro um recorte de conversa com Viviane de Moraes, em que ela responde que estavam gostando muito da utilização das cotas (página 168).
Em 24 de julho de 2025, uma funcionária informa a Vorcaro que o advogado Leonardo Palhares pedia o pagamento de uma fatura emitida pelo escritório em nome da Viking, no valor de R$ 22.815.120,95 (página 169).
Na mesma conversa, Palhares relata que os interlocutores do escritório queriam mudar a estrutura de propriedade dos ativos porque haveria “risco reputacional grande” (página 170).
Ponto 6: os encontros e as mensagens da véspera da prisão
O relatório reúne mensagens em que Vorcaro relata a terceiros que estava com “alexandre moraes” ou com “o ministro” em datas espalhadas por 2024 e 2025 (páginas 175 a 181). Entre elas, 15 de novembro de 2024, 19 e 20 de março de 2025, 19 e 29 de abril de 2025, 21 de maio de 2025 e 8 de agosto de 2025.
Em 17 de setembro de 2025, segundo o documento, o contato “Alexandre de Moraes BRASILIA” passou a adotar, na conversa com Vorcaro, a configuração de mensagens temporárias com exclusão automática em 24 horas (página 36).
Nas notas dos dias 15, 16 e 17 de novembro de 2025, véspera e antevéspera da prisão, aparecem mensagens enviadas ao mesmo contato. Entre elas: “As 14 entao. Passo na sua casa ou prefere na minha?”, enviada em 15 de novembro às 21h41 (página 119); “E o Galipolo quem esta pressionando isso pra fazer intervenção?”, enviada em 15 de novembro às 22h28 (páginas 129 e 130), em aparente referência a Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central; e, em 17 de novembro, “Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?” (página 38).
Vorcaro foi preso em 18 de novembro de 2025.
Ponto 7: as menções a Gonet e ao diretor-geral da PF
A seção 6 do relatório trata das pesquisas por termos ligados a Paulo Gonet e a Andrei Passos Rodrigues.
Sobre Gonet, o documento registra que não há contato salvo com esse nome no celular (página 201). As menções aparecem em conversas com o advogado Ciro Soares. Entre elas, o encaminhamento de mensagens atribuídas a “Gonet”, uma foto de Ciro Soares ao lado do procurador-geral em 15 de março de 2025 (página 206), a confirmação de ida ao evento de Londres em 19 de junho de 2025 e o pedido para que o filho do procurador viajasse junto, ao que Vorcaro responde “Obvio” (página 210). Em 11 de abril de 2025, Vorcaro autoriza que as despesas de Pedro Gonet e Ciro Soares em Londres fossem pagas pelo grupo (página 208).
Sobre o diretor-geral da PF, o relatório também registra que não há contato salvo com esse nome (página 211). As menções aparecem em conversas de abril de 2024 sobre o convite para o evento de Londres. Uma assistente do Diretor-Geral da Polícia Federal pergunta se hospedagem e passagem seriam cobertas pelos organizadores, e o interlocutor de Vorcaro responde que todas as despesas seriam bancadas por eles (página 214). Em 10 de julho de 2025, uma funcionária informa que o convite formal era necessário para a aceitação (página 215).
O relatório trata ainda do evento de Londres de 2024, realizado entre 24 e 27 de abril daquele ano, e do segundo, previsto para 2025 e cancelado. Constam mensagens sobre veto a participantes, aprovação de listas de convidados e um pedido, atribuído a “Alexandre”, para incluir informação em matéria jornalística (páginas 182 a 195).
O que o próprio relatório diz que não prova
Este bloco é decisivo para a leitura do documento e costuma ficar de fora dos discursos.
A Polícia Federal declara, no corpo do relatório, que não realizou “quaisquer atos de aprofundamento investigativo direcionados a magistrados ou membros do Ministério Público”, e que se limitou à identificação e exposição objetiva do que já estava no material apreendido (página 5).
Declara também que a análise “não pode ser considerada exaustiva” e que foi produzida no prazo de 72 horas fixado pelo relator (páginas 5 e 216).
E há um limite técnico que o próprio documento explicita: a reconstrução recupera as mensagens enviadas por Vorcaro. As respostas do destinatário não constam do material analisado. Ou seja, o relatório mostra o que o banqueiro pediu. Não mostra se alguém atendeu.
Nas considerações finais, a PF informa que as duas linhas de investigação, sobre suposto pagamento de vantagens a servidores do Banco Central e sobre o grupo chamado “Turma”, estão em estágio avançado, com previsão de conclusão das oitivas em 60 dias (página 216).
Como o documento virou pauta de rua
A liberação do sigilo ocorreu a cinco dias do feriado da Independência, com atos já convocados em dezenas de cidades.
Ainda em 1º de setembro, o pastor Silas Malafaia anunciou que a relação entre Moraes e Vorcaro seria o mote das manifestações do 7 de Setembro na Avenida Paulista e voltou a defender a saída do ministro, por renúncia, afastamento ou impeachment, conforme noticiaram a Revista Oeste, a Gazeta do Povo e o Metrópoles.
No Senado, segundo a Agência Senado, nove parlamentares defenderam da tribuna o afastamento de Moraes no mesmo dia: Alessandro Vieira, Carlos Viana, Cleitinho, Damares Alves, Esperidião Amin, Flávio Bolsonaro, Izalci Lucas, Luis Carlos Heinze e Magno Malta. Carlos Viana protocolou pedido de impeachment. Questionado depois da sessão, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, disse que existem 109 pedidos de impeachment contra os dez ministros do STF e que considera o número fora do normal.
Segundo o jornal O Tempo, a oposição também protocolou notícia-crime contra o procurador-geral da República e enviou apelo ao presidente Lula pela demissão do diretor-geral da Polícia Federal.
O ministro André Mendonça encaminhou o relatório à Procuradoria-Geral da República, com prazo de cinco dias para manifestação, e apontou o envio do caso ao plenário do STF como caminho, conforme noticiou a CartaCapital.
O que isso tem a ver com a Ponte Estaiada
Teresina tem endereço fixo para esse tipo de ato. Em 7 de setembro de 2025, a manifestação da direita na capital ocorreu na altura da Ponte Estaiada, e teve como pautas a anistia aos presos do 8 de janeiro e críticas ao ministro Alexandre de Moraes, conforme noticiou o portal GP1.
O outro lado
Em nota divulgada em 1º de setembro de 2026, o escritório Barci de Moraes afirma que o setor de compliance da banca, diante da abrangência do contrato proposto pelo Banco Master, solicitou informações ao ministro Alexandre de Moraes, na condição de marido da sócia-diretora, sobre a eventual existência de impedimentos legais, como ações sob sua relatoria no STF ou participação em julgamentos de interesse do possível cliente.
A nota afirma que, diante da inexistência de previsão de atuação no STF ou de qualquer impedimento legal, e uma vez que o ministro jamais julgou qualquer causa envolvendo o Banco Master, o contrato foi assinado e os serviços advocatícios foram devidamente prestados.
O escritório informa ainda que prestou consultoria jurídica ao banco entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025, com equipe de advogados, reuniões e pareceres, e que nunca atuou em processos do Banco Master no Supremo Tribunal Federal.
A Rádio Calçada solicita manifestação das partes envolvidas: do ministro Alexandre de Moraes; do escritório Barci de Moraes Sociedade de Advocacia e da advogada Viviane Barci de Moraes; do procurador-geral da República, Paulo Gonet; do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Passos Rodrigues; do ex-ministro Fábio Faria; e da defesa de Daniel Bueno Vorcaro.
As respostas serão publicadas na íntegra. Contato: consultor@xconexoes.com.br














