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outubro 10, 2026 16:48

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EDITORIAL: Quanto custa ao Piauí um governo que contrata sem disputa, paga festa e deixa a conta para depois?

Editorial da Rádio Calçada

Nos últimos  anos, esta redação leu diários oficiais, abriu planilhas de empenho e conferiu contrato por contrato do governo Rafael Fonteles. O que os documentos mostram, somados, é um padrão. E o padrão se repete tantas vezes que já não cabe chamar de exceção.

Festa e propaganda, com pouca disputa

Desde 2023, o governo empenhou R$ 428,9 milhões em shows e eventos festivos, com 78% desse valor contratado sem licitação. No mesmo período, pagou R$ 424,1 milhões em comunicação, e aqui a proporção sem licitação chega a 99,68%. São duas contas diferentes, cada uma na casa dos R$ 400 milhões, e as duas quase inteiramente decididas sem que outras empresas pudessem oferecer preço menor.

Enquanto o palco e a propaganda recebiam, o Piauí continuava em último lugar no Brasil em acesso à rede de esgoto, com cerca de 13% dos domicílios ligados, segundo a PNAD Contínua de 2024.

É avaliação desta redação que um Estado que gasta mais com festa do que consegue explicar sobre saneamento está com as prioridades de cabeça para baixo.

A saúde entregue sem concorrência

Três organizações sociais que administram hospitais estaduais receberam, juntas, R$ 1,46 bilhão entre 2023 e 2026. Todas as notas foram registradas como inexigibilidade, a modalidade em que não há disputa de preço, e todas saíram do Fundo de Saúde. A lei permite esse modelo de gestão. O que a lei não dispensa é a prestação de contas: quantos pacientes, quantas cirurgias, quanto tempo de espera.

O contrato de telemedicina com a Integra Saúde Digital, também sem disputa, já soma R$ 258,4 milhões empenhados. O valor total registrado no Portal da Transparência passou de R$ 180,1 milhões para R$ 522,2 milhões, quase o triplo. O Tribunal de Contas considerou o contrato regular e o Ministério Público arquivou a apuração. Ainda assim, o Portal não informa quantos atendimentos foram feitos. Três dias depois de o Hospital São Marcos suspender a entrada de novos pacientes com câncer pelo SUS, em julho, a Secretaria da Saúde empenhou quase R$ 10 milhões para essa empresa.

A conta que fica para depois

Na Educação, a chamada conta velha, que são despesas de anos anteriores pagas com atraso, saltou oito vezes em 2026 e chegou a R$ 191,4 milhões. A maior parte é dívida do próprio governo atual, não herança de gestões passadas. Na comunicação, R$ 90,3 milhões também foram pagos como conta velha.

O governo acumulou ainda autorizações para operações de crédito que somam cerca de R$ 25 bilhões, das quais aproximadamente R$ 12 bilhões são dinheiro novo. E o piauiense paga ICMS de 22,5%, o segundo maior do país, embutido no preço do arroz, do gás e da conta de luz.

É avaliação desta redação que quem paga o imposto mais alto merece, no mínimo, a transparência mais alta. Não é o que acontece.

Perto do poder

A Mega Comunicação detém 94,3% do que o Estado empenhou em letreiros luminosos. Um dos sócios é irmão do secretário estadual de Comunicação, parentesco registrado em parecer do Ministério Público de Contas. A Promotoria de Justiça recomendou, em março de 2026, a suspensão dos pagamentos da ata do pregão que beneficiou a empresa, apontando propostas idênticas até os centavos. O Estado emitiu depois disso cinco notas de despesa em contratos com a empresa. O Tribunal de Contas havia arquivado denúncia anterior sobre o mesmo pregão. Na prestação de contas da campanha de reeleição, no sistema oficial do TSE, consta doação de R$ 27.628,00 do mesmo secretário de Comunicação.

Perguntar tem custo

Parte das informações deste editorial só existe porque alguém fez a pergunta. Há processos da Secretaria da Educação no sistema SEI fechados ao público. Há órgãos estaduais que não aparecem no Portal da Transparência. E jornalistas desta redação respondem na Justiça a medidas cautelares e a uma ordem de remoção de publicações, em processos ligados à cobertura de um contrato da Saúde.

É avaliação desta redação que um governo confiante no que faz abriria as portas, e não as fecharia.

No domingo

Esta redação não diz a ninguém em quem votar. Diz o que os documentos públicos mostram, com número de contrato, CNPJ e página do diário oficial. No domingo, cada piauiense decide com o que sabe. Nosso trabalho é fazer com que saiba mais.

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