O problema não é apenas o que o Governo do Piauí publica.
É o que ele deixa de informar.
No Diário Oficial de 14 de agosto de 2026, a Secretaria da Cultura publicou sete contratos de apresentações artísticas que somam R$ 1.015.000,00.
Nos sete, a mesma descrição: “contratação direta de artista”.
Mas os nomes dos artistas não aparecem.
Esse é apenas o episódio mais recente de um padrão que esta redação vem encontrando no Diário Oficial e no Portal da Transparência: objetos genéricos, contratos que não aparecem, credores sem nome, dotações incompletas, contratos vencidos que continuam gerando pagamentos e números que mudam depois de publicados.
E isso precisa ser dito com clareza:
publicar não basta. É preciso informar.
O cidadão não deveria precisar investigar o próprio governo
Na apuração da Rádio Calçada sobre os gastos de comunicação, 79,8% do valor de quatro anos estava concentrado em uma rubrica genérica: “Outros Serviços de Terceiros PJ”.
Das 12.195 notas analisadas, 12.059 não traziam número de contrato e 12.176 não traziam código de licitação.
Na relação de despesas liquidadas da Secretaria da Educação referente a maio de 2026, R$ 50,15 milhões, equivalentes a 63,55% do total, apareciam sem contrato informado.
Na extração do Portal referente aos dias 10 a 12 de agosto, dez notas somando R$ 7,59 milhões apresentavam o CNPJ do beneficiário, mas o campo do nome estava vazio.
E há ainda as despesas relacionadas a contratos cuja vigência já havia terminado.
Na mesma extração de agosto, foram identificadas 16 notas somando R$ 5,28 milhões emitidas em contratos cuja vigência, segundo o próprio Portal, já havia encerrado.
Pode haver explicação para cada caso.
Mas a pergunta deste editorial não é sobre um caso.
É sobre o conjunto.
E quando o número muda?
Existe outro problema que merece resposta.
Em 13 de agosto, uma extração realizada pela manhã mostrava 300 notas e R$ 15.951.982,76 lançados naquele dia.
Na extração seguinte, o mesmo 13 de agosto aparecia com 461 notas e R$ 83.187.493,71.
O valor havia aumentado mais de cinco vezes.
O mesmo ocorreu em outros dias.
Correções e atualizações de sistemas podem acontecer. O problema é outro:
onde está o histórico dessas alterações?
Se um dado público muda, o cidadão precisa conseguir saber que mudou.
Precisa saber quando mudou.
E precisa saber por quê.
Sem isso, o Portal deixa de ser um registro verificável e passa a funcionar como uma fotografia que pode ser diferente dependendo do dia em que é consultada.
O contrato depois da festa
Há ainda situações em que a ordem dos acontecimentos chama atenção.
A Rádio Calçada registrou, nas edições recentes do Raio X das Despesas, pagamento de R$ 300 mil a uma banda que havia se apresentado em 25 de junho, com empenho realizado 49 dias depois e sem contrato informado no extrato.
Também foram identificadas despesas de exercícios anteriores liquidadas em contratos assinados em 1999, 2015 e 2017.
Reconhecimento de dívida e procedimento indenizatório podem existir dentro das hipóteses legais.
Mas justamente por isso precisam ser fiscalizados.
Porque o controle público não pode funcionar apenas depois que o dinheiro já foi gasto.
O controle precisa existir antes, durante e depois da despesa.
E aqui chegamos à pergunta principal
Quando a informação está incompleta, quem cobra?
Quando o contrato não aparece, quem verifica?
Quando o credor está sem nome, quem exige a correção?
Quando um contrato vencido continua aparecendo associado a pagamentos, quem investiga?
Quando o número de uma despesa muda depois de publicado, quem verifica o motivo?
Quando uma contratação aparece depois que o serviço já foi prestado, quem pergunta por que o procedimento não aconteceu antes?
Quem fiscaliza?
A sociedade não pode ser obrigada a fazer o trabalho que deveria ser realizado pelos mecanismos oficiais de controle.
A imprensa pode investigar.
O cidadão pode cobrar.
Mas a fiscalização institucional possui instrumentos que nenhum cidadão isoladamente possui.
Por isso, a cobrança deste editorial é direta:
Controladoria-Geral do Estado. Tribunal de Contas. Ministério Público de Contas. Ministério Público do Estado.
Olhem para os casos.
Mas, principalmente, olhem para o padrão.
O dinheiro é público. A obrigação também.
A Rádio Calçada não está pedindo acesso privilegiado.
Não está pedindo favor.
Está cobrando aquilo que deveria ser básico:
quem recebeu, quanto recebeu, por quê, qual contrato autorizou, qual procedimento foi utilizado e de onde saiu o dinheiro.
O cidadão paga impostos.
O cidadão tem o direito de saber.
O governo tem o dever de informar.
E os órgãos de controle têm o dever de fiscalizar.
Não basta existir um Portal da Transparência.
É preciso que ele seja transparente.
Não basta publicar um contrato.
É preciso que o contrato permita entender o que foi contratado.
Não basta divulgar um número.
É preciso que esse número possa ser conferido amanhã.
Porque transparência não é colocar uma informação em algum lugar e dizer que ela está disponível.
Transparência é permitir que qualquer cidadão consiga entender e conferir o caminho do dinheiro público.
E quando isso não acontece, a pergunta deixa de ser apenas jornalística.
Passa a ser uma pergunta de toda a sociedade:














