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julho 16, 2026 16:50

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ESPECIAL : O estado que promete 80 mil empregos é o campeão nacional do desemprego

A promessa mais quantificável do governo Rafael Fonteles será decidida por uma corrida contra o calendário. Os dados federais do Novo Caged mostram cerca de 58,5 mil empregos formais gerados até março de 2026, ritmo que, mantido, deixa a meta por um triz e só permite o veredito final em janeiro de 2027, três meses depois da eleição. Esta redação refez a conta, mês a mês, com os números do Ministério do Trabalho.

Investigação e denúncias: Jornalistas Trabulo Neto 0002880/PI e Trabulo Júnior 0014965/DF

De todas as promessas registradas por Rafael Fonteles (PT) na campanha de 2022, nenhuma é tão fácil de medir quanto a de gerar 80 mil empregos formais no mandato. Não depende de interpretação, de critério elástico nem de balanço oficial: basta consultar o Novo Caged, o cadastro do Ministério do Trabalho e Emprego que registra, mês a mês, cada admissão e cada desligamento com carteira assinada no país. É um dado que o governo do Piauí não produz, não controla e não pode ajustar.

Talvez por isso ela seja também a promessa que o governador mais reafirma. Em fevereiro de 2026, garantiu que a meta seria cumprida ainda este ano. Em abril, disse que 60 mil vagas já haviam sido geradas. Em maio, repetiu: “Vamos chegar até o final do ano a essa meta”.

Esta redação refez a conta com os números federais. O resultado mostra três coisas: que o número reivindicado pelo governador é, no essencial, compatível com os dados oficiais; que o ritmo atual, se simplesmente mantido, deixa a meta abaixo dos 80 mil; e que, seja qual for o desfecho, o eleitor votará em outubro sem conhecê-lo, porque o dado que fecha a conta só será publicado pelo Ministério do Trabalho no início de 2027.

A conta, mês a mês

O ponto de partida é público. O Piauí encerrou 2022, último ano do governo anterior, com um estoque de 328.489 vínculos formais ativos, segundo o Novo Caged. Esse é o marco zero da promessa.

O balanço federal consolidado mais recente, divulgado pela Secretaria de Comunicação da Presidência em janeiro de 2026, registra 56.646 empregos formais gerados no Piauí entre janeiro de 2023 e novembro de 2025, com o estoque chegando a 385.135 vínculos. No próprio mês de novembro de 2025, o saldo foi negativo em 1.048 vagas, um lembrete de que a série tem meses de perda, não apenas de ganho.

Os dados mensais de 2026, também do Caged, permitem atualizar a conta: saldo de 1.510 vagas em fevereiro, 3.308 em março, quando o estoque atingiu 386.990 vínculos, e 1.999 em maio. A diferença entre o estoque de março de 2026 e o de dezembro de 2022 dá a medida exata do mandato até ali: 58.501 empregos formais gerados em três anos e três meses.

Somando os meses seguintes já divulgados, a estimativa desta redação é de que o acumulado do mandato tenha alcançado algo entre 62 mil e 64 mil vagas até maio de 2026, a depender da consolidação de abril.

O tamanho do que falta

Faltando cerca de 17 mil a 18 mil vagas para os 80 mil, restam ao governo sete meses de apuração: junho a dezembro de 2026. Isso exige um saldo médio na casa de 2.500 vagas por mês, todos os meses, até o fim do ano.

O ritmo real de 2026, nos meses já divulgados, é de aproximadamente 2.270 vagas mensais. O ritmo médio do mandato inteiro, de janeiro de 2023 a março de 2026, é de cerca de 1.500 vagas mensais. Ou seja: para cumprir a promessa, o segundo semestre de 2026 precisa ser não apenas melhor que a média do próprio ano, mas substancialmente melhor que a média de todo o mandato.

E há um obstáculo sazonal que nenhum discurso remove: o fim de ano. Novembro e dezembro são historicamente meses de demissões líquidas no mercado formal, com o encerramento de contratos e safras. O novembro mais recente, o de 2025, fechou negativo em 1.048 vagas no Piauí. Qualquer projeção honesta precisa reservar espaço para que os dois últimos meses do ano subtraiam, e não somem.

É fato que a meta é aritmeticamente alcançável. É avaliação desta redação que ela exige um desempenho sem precedente na série do mandato, concentrado exatamente nos meses que antecedem e sucedem a eleição, e que a margem entre cumprir e não cumprir é hoje da ordem de poucas centenas de vagas por mês.

O emprego que existe, mas não chega a todo lugar

Há uma segunda camada na promessa que o número agregado esconde: onde e para quem esses empregos foram criados.

O detalhamento federal do período de janeiro de 2023 a novembro de 2025 mostra que Teresina concentrou 30.467 dos 56.646 empregos gerados, ou seja, 54% do total em um único município. Somando Parnaíba (3.844) e Picos (2.909), três cidades respondem por quase dois terços de toda a geração de emprego formal do estado. Nos outros 221 municípios, distribuiu-se o terço restante.

O perfil dos contratados também é público: a maior parte das vagas foi ocupada por homens (32.970, contra 23.676 por mulheres), por jovens de 18 a 24 anos e por trabalhadores com ensino médio completo.

O paradoxo que a outra régua federal revela

Há, porém, uma segunda régua federal que o discurso dos 80 mil empregos nunca menciona, e ela conta uma história incompatível com a narrativa do salto econômico. É a PNAD Contínua, do IBGE, que mede não o fluxo de carteiras assinadas, como o Caged, mas o mercado de trabalho inteiro: formais, informais, desempregados e desalentados.

Os números de 2025, divulgados pelo IBGE em fevereiro de 2026, são os seguintes. O Piauí encerrou 2025 com a maior taxa anual de desocupação entre todos os estados do país: 9,3%, contra uma média nacional de 5,6%, que foi a menor da série histórica. O estado registrou também a maior taxa de subutilização da força de trabalho do Brasil, 31%, quando a média nacional foi de 14,5%, posição que manteve no primeiro trimestre de 2026, com 30,4%. A taxa de informalidade piauiense ficou na casa dos 52%, entre as maiores do país, e o percentual de empregados do setor privado com carteira assinada no estado, em torno de 52% a 54%, é o segundo menor do Brasil, à frente apenas do Maranhão. No primeiro trimestre de 2026, o desemprego voltou a subir, para 8,9%, e o trabalho por conta própria sem CNPJ se consolidou como a principal forma de ocupação no estado. O Piauí aparece ainda entre os três estados com maior percentual de trabalhadores desalentados, aqueles que desistiram de procurar emprego.

É fato, portanto, que as duas afirmações convivem sem se anular: o Piauí gerou empregos formais, como mostra o Caged, e o Piauí é, simultaneamente, o estado com o maior desemprego e a maior subutilização de trabalhadores do Brasil, como mostra a PNAD. As réguas medem coisas diferentes. O saldo de carteiras assinadas cresce sobre uma base pequena: num mercado de trabalho onde mais da metade dos ocupados é informal, cada mil carteiras novas melhora o Caged sem mover o essencial da vida de quem está fora dele.

É avaliação desta redação que a escolha do governo de aferir sua promessa exclusivamente pela régua que lhe é favorável, silenciando sobre a régua em que o estado é o último do país, não é um detalhe técnico, é uma decisão de comunicação. E que o eleitor tem o direito de conhecer as duas antes de outubro: a promessa dos 80 mil pode vir a ser cumprida no papel do Caged enquanto o Piauí segue campeão nacional de desemprego no retrato do IBGE.

O que a redação encaminha ao Governo do Estado

A reportagem encaminha os seguintes questionamentos ao Governo do Estado do Piauí e solicita resposta:

  1. Qual é o número exato de empregos formais que o governo contabiliza como gerados no mandato até junho de 2026, e qual a fonte e o mês de referência desse número?
  2. O governo adota o Novo Caged como métrica oficial de aferição da promessa dos 80 mil empregos? Em caso negativo, qual métrica adota e por quê?
  3. Considerando que novembro e dezembro registram historicamente saldos negativos, qual é a projeção técnica do governo para o saldo do segundo semestre de 2026, e em que ela se baseia?
  4. Como o governo avalia a concentração de 54% dos empregos gerados no município de Teresina, e quais políticas específicas existem para a geração de emprego formal nos territórios do interior?
  5. Do total de vagas geradas no mandato, quantas correspondem a contratos em tempo parcial, intermitentes ou de aprendizagem, e quantas a vínculos típicos em tempo integral?
  6. Como o governo explica a convivência entre a geração de empregos formais destacada no Caged e a maior taxa de desocupação (9,3% em 2025) e de subutilização (31%) do país, registradas pela PNAD Contínua do IBGE, e quais políticas específicas existem para os mais de 50% de trabalhadores piauienses em ocupações informais?
  7. Caso a meta de 80 mil não seja atingida até 31 de dezembro de 2026, o governo reconhecerá publicamente o descumprimento do compromisso?

Aos órgãos de controle

A reportagem solicita ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí (TCE-PI), ao Ministério Público de Contas (MPC-PI) e ao Ministério Público do Estado do Piauí (MP-PI) que informem se têm conhecimento do uso de metas de geração de emprego em publicidade institucional do governo durante o período eleitoral vigente desde 4 de julho de 2026, nos termos da Lei 9.504/1997, e quais medidas pretendem adotar para assegurar que a comunicação oficial sobre o tema se restrinja aos dados efetivamente consolidados pelo Ministério do Trabalho e Emprego, sem projeções apresentadas como resultados.

A redação permanece à disposição para publicar, na íntegra, as respostas de todos os citados.


Nota metodológica. Os números de emprego formal desta matéria têm como fonte o Novo Caged, do Ministério do Trabalho e Emprego, nas divulgações mensais e no balanço consolidado publicado pela Secretaria de Comunicação da Presidência em janeiro de 2026. Os indicadores de desocupação, subutilização, informalidade e desalento têm como fonte a PNAD Contínua, do IBGE, na retrospectiva anual de 2025 divulgada em fevereiro de 2026 e na divulgação trimestral do primeiro trimestre de 2026. O acumulado do mandato foi calculado pela diferença entre estoques de vínculos ativos (dezembro de 2022 e março de 2026) e pela soma dos saldos mensais divulgados de 2026. O saldo de abril de 2026 não havia sido localizado em divulgação detalhada até o fechamento desta edição, razão pela qual o acumulado até maio é apresentado como intervalo estimado. Todos os números serão atualizados nas edições seguintes desta série à medida que o Ministério do Trabalho divulgar novos dados.


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