Censo oficial da unidade, enviado ao Tribunal de Contas, revela exames de imagem parados, um terço dos internados transferidos para outras cidades e números que não fecham
Por Trabulo Jr e Trabulo Neto
O Hospital Regional de Amarante Dr. Francisco Ayres Cavalcante, no Piauí, não realizou nenhum exame de ultrassonografia durante todo o mês de junho de 2026. A informação está no próprio censo hospitalar da unidade, documento oficial assinado digitalmente e encaminhado ao Tribunal de Contas do Estado (TCE-PI). O relatório aponta ainda serviços de cardiologia parados, um alto índice de transferências de pacientes e inconsistências nos números apresentados.
Segundo o censo, das oito modalidades de ultrassom oferecidas em papel pela unidade — abdominal, gestacional, mamária, de próstata, pélvica, transvaginal, de tireoide e de vias urinárias —, nenhuma teve um único procedimento registrado no mês. O eletrocardiograma (ECG) e o cardiotocógrafo, exame que monitora o batimento do bebê durante a gestação, também aparecem zerados. De todo o setor de imagem, o hospital contabilizou apenas 210 exames, todos de raio-x.
O que uma gestante perde sem o ultrassom
O Ministério da Saúde recomenda que toda gestante realize ao menos uma ultrassonografia no pré-natal, idealmente entre a 11ª e a 14ª semana, justamente porque é esse exame que confirma a idade gestacional com precisão, detecta gravidez de gêmeos, avalia a posição da placenta e identifica malformações e alterações no desenvolvimento do bebê ainda no início da gestação.
Sem acesso ao ultrassom no hospital de referência, a gestante fica dependente de conseguir o exame em outro município ou na rede privada — o que, na prática, significa que mulheres de menor renda podem chegar ao parto sem nunca ter feito uma única imagem do bebê. Problemas que poderiam ser detectados a tempo — como restrição de crescimento, placenta mal posicionada ou uma gravidez de risco — passam despercebidos, transformando situações que seriam contornáveis em emergências no momento do parto. Em uma unidade que, segundo o próprio censo, registrou apenas dois partos e cinco internações obstétricas no mês, a falta do cardiotocógrafo — aparelho que monitora os batimentos do bebê — soma-se ao problema e reduz ainda mais a capacidade de acompanhar uma gestação com segurança.
Especialistas ponderam que o ultrassom não substitui um pré-natal clínico de qualidade e que, em cenários de recursos limitados, os casos de maior risco devem ser priorizados. Ainda assim, oferecer zero exame ao longo de um mês inteiro deixa toda a rede sem essa ferramenta básica de diagnóstico.
Um a cada três internados foi transferido
O documento mostra uma unidade que funciona, sobretudo, como porta de entrada de urgência. Foram 4.045 atendimentos na emergência em junho, incluindo quase 1.800 consultas médicas. Na internação, porém, o quadro chama atenção: das cerca de 44 internações no período, 33 pacientes precisaram ser transferidos para outros hospitais — praticamente um encaminhamento para cada paciente internado. O censo registra ainda três óbitos no mês.
O perfil de gravidade dos atendimentos, medido pela classificação de risco, concentra-se nas faixas de menor urgência: os casos verdes (1.032) e amarelos (584) representam a ampla maioria, enquanto os vermelhos (12) e laranjas (103), de maior gravidade, somam parcela reduzida — comportamento típico de um hospital regional de baixa e média complexidade.
Números que não fecham no documento oficial
Além dos serviços parados, o relatório apresenta divergências internas. O censo informa 1.988 atendimentos de classificação de risco na emergência, mas a soma das cinco cores da triagem resulta em 1.834 — uma diferença de 154 pacientes sem explicação no documento. Vários campos de totais (fisioterapia, ultrassom e internações) aparecem em branco, e o número de pacientes internados surge de duas formas distintas na mesma folha: 44 na tabela de internação e 46 no quadro consolidado.
Chama atenção, ainda, a concentração dos procedimentos de emergência: das mais de 2.100 intervenções registradas, 2.101 foram injeções — praticamente tudo o que a unidade contabilizou como procedimento no setor. No consolidado do mês, o hospital somou 6.761 atendimentos e procedimentos.
O outro lado
A reportagem procurou a Secretaria de Estado da Saúde do Piauí (SESAPI) e a direção do Hospital Regional de Amarante para esclarecer os motivos da paralisação dos exames de ultrassom, ECG e cardiotocógrafo, o volume de transferências e as divergências nos números do censo. O espaço permanece aberto para manifestação.














