O estado que ocupa a última posição do país em rede de esgoto criou a primeira secretaria de inteligência artificial do Brasil e soma R$ 50 milhões declarados e anunciados para o SoberanIA, plataforma vendida como independência tecnológica. As declarações do próprio governo mostram uma soberania terceirizada: a Amazon participou do treinamento do modelo, a operação roda em infraestrutura de terceiros e o braço comercial é a ETIPI, estatal com contratação suspensa cautelarmente pelo Tribunal de Contas
Trabulo Neto e Trabulo Júnior
O Governo do Piauí transformou a inteligência artificial em vitrine. Criou a primeira secretaria exclusiva de IA do país, batizou seu modelo de linguagem de SoberanIA e levou o projeto duas vezes a Brasília como prova de independência tecnológica. O palco escolhido fica a mais de mil quilômetros do problema mais básico do estado: o Piauí é o último do Brasil em acesso à rede de esgoto, com cerca de 13% dos domicílios conectados, segundo a PNAD Contínua de 2024.
O nome do projeto carrega uma promessa: soberania, o caminho para não entregar dados públicos a empresas estrangeiras. As declarações do próprio governo contam outra história. O governador Rafael Fonteles afirmou publicamente que a Amazon, por meio da AWS, atuou diretamente no treinamento do modelo. A operação depende de datacenter da Telebras, de infraestrutura do Serpro e de parcerias em negociação com Claro e Oracle. E o equipamento exibido como supercomputador em Teresina não treina o modelo: apenas o executa. A soberania anunciada é, na arquitetura descrita pelo próprio governador, terceirizada.
Esta é a primeira reportagem de uma série sobre o ecossistema de inteligência artificial do governo estadual: o que ele custa, o que entrega e quem lucra com ele.
Cronologia
Abril de 2024: a Lei estadual nº 8.369 cria a Secretaria de Inteligência Artificial, Economia Digital, Ciência, Tecnologia e Inovação (SIA), primeira do país dedicada exclusivamente ao tema. Junho de 2024: o Decreto nº 23.087 aprova o regimento da pasta. Julho de 2025: lançamento estadual do SoberanIA, apresentado como plataforma construída no Piauí e hospedada em equipamento próprio do estado. Dezembro de 2025: lançamento nacional em Brasília, ao lado do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Maio de 2026: lançamento comercial em Brasília e anúncio de aporte federal de R$ 40 milhões. Julho de 2026: início, no dia 4, do período de restrições da legislação eleitoral.
A soberania que a Amazon treinou
No lançamento comercial do SoberanIA, em 19 de maio de 2026, em Brasília, o governador Rafael Fonteles afirmou que a AWS, braço de computação em nuvem da americana Amazon, atuou diretamente no treinamento do modelo de linguagem do projeto. Na mesma apresentação, o governador citou o Serpro como responsável por garantir infraestrutura computacional para as aplicações da plataforma e mencionou a Claro e a americana Oracle como parceiras nas negociações de infraestrutura e expansão.
Antes disso, na apresentação nacional de dezembro de 2025, a cobertura especializada registrou que o SoberanIA utiliza datacenter da Telebras e busca acordos com Serpro e Dataprev. A articulação anunciada para a chamada nuvem soberana e para a Fábrica de IA brasileira envolve ainda as empresas Modular, Scala e Ceiba Energy.
O quadro que emerge das declarações oficiais é o de um projeto cujo treinamento passou por uma big tech americana e cuja operação depende de infraestrutura de terceiros, públicos e privados, majoritariamente fora do Piauí. Nada disso é ilegal ou tecnicamente incomum. Praticamente nenhum ator no mundo treina modelos de grande porte sem nuvem de terceiros. O problema não é a engenharia, é o marketing: um projeto batizado de SoberanIA, vendido ao público como independência tecnológica piauiense, foi construído exatamente sobre as dependências que diz superar.
A avaliação desta redação é que a distância entre o nome do produto e a arquitetura declarada pelo próprio governador configura, no mínimo, publicidade institucional imprecisa, custeada com recursos públicos.
O supercomputador que muda de tamanho
A peça central da narrativa de infraestrutura própria é um equipamento instalado no datacenter da ETIPI, a Empresa de Tecnologia da Informação do Piauí, descrito pelo governo como um supercomputador de alta performance, com capacidade de processamento 250 vezes superior à de um computador comum.
As especificações divulgadas, porém, variam conforme a ocasião. Na cobertura da TV Assembleia sobre o lançamento estadual, o diretor técnico da ETIPI, José Alves, descreveu uma máquina com 2.000 GB de memória RAM e quatro placas de vídeo Nvidia de alto desempenho. Na apresentação nacional de dezembro de 2025, o material de divulgação do governo e a cobertura especializada passaram a descrever o mesmo equipamento com oito GPUs Nvidia. A diferença pode indicar uma ampliação do equipamento ao longo de 2025 ou imprecisão na comunicação oficial. O extrato do contrato de aquisição, publicado no diário oficial, é o documento capaz de esclarecer o que foi comprado, de quem, por quanto e em que modalidade. Esta redação segue em busca desse extrato e solicita ao governo a indicação precisa do processo.
Cabe também dimensionar o equipamento. Um servidor com 2 terabytes de RAM e oito GPUs é uma máquina respeitável para inferência, ou seja, para rodar um modelo já pronto e responder a consultas. Está muito distante, porém, do que a indústria chama de supercomputador. Clusters usados para treinar modelos de linguagem de fronteira operam com milhares de GPUs interligadas. A comparação oficial com um computador comum, sem métrica, sem benchmark e sem referência técnica verificável, funciona como peça de propaganda, não como especificação. O fato de o treinamento ter contado com a AWS, conforme declarou o próprio governador, é coerente com essa leitura: a máquina instalada na ETIPI serve o modelo pronto aos usuários, o trabalho pesado foi feito fora.
O mesmo vale para a alegação, feita na apresentação de dezembro em Brasília, de que o SoberanIA seria o maior modelo de linguagem em português em uso no país, com 350 bilhões de tokens. Tokens de treinamento medem o volume de texto lido pelo modelo durante o treino, não o tamanho nem a capacidade do modelo. A afirmação mistura conceitos distintos e não veio acompanhada de documentação técnica pública, relatório de avaliação ou comparação auditável com outros modelos.
O balcão comercial é a ETIPI
A comercialização das soluções do SoberanIA, segundo anunciado no lançamento de maio de 2026, deverá ocorrer por meio da estatal de tecnologia do estado, que poderá atuar diretamente junto a órgãos públicos ou em parceria com distribuidores e marketplaces digitais.
A escolha do veículo comercial merece atenção. A ETIPI é a mesma estatal cujo Chamamento Público nº 011/2024 foi suspenso cautelarmente pelo Tribunal de Contas do Estado (processo TC/001410/2025), como esta redação mostrou em reportagens anteriores. É também a estatal cujo contrato com a VALID Soluções é objeto de inquérito no Ministério Público do Estado e a gestora do legado da PPP Piauí Conectado, encerrada por caducidade. Colocar sob essa mesma estrutura a venda de um produto de inteligência artificial do governo a outros órgãos públicos, dentro e fora do Piauí, cria um fluxo de receita e contratação cuja governança precisa nascer transparente. Até o momento, não há regulamento público conhecido sobre precificação das soluções, destinação das receitas ou regras de contratação do SoberanIA por terceiros.
Dados do SEI e de licitações no treinamento
Há ainda a questão dos dados. Em evento no Espírito Santo, em maio de 2025, o presidente da ETIPI, Ellen Gera, explicou a estratégia de especialização do modelo: primeiro um treinamento geral em língua portuguesa com dados públicos, depois a especialização com dados do governo, citando nominalmente as bases de licitações e o SEI, sistema por onde tramitam os processos administrativos do estado.
O SEI do Piauí contém, além de documentos públicos, processos com dados pessoais de servidores e cidadãos, documentos preparatórios e informações eventualmente classificadas. Treinar um modelo de linguagem com essas bases, e depois abrir esse modelo ao público e comercializá-lo, exige salvaguardas documentadas de anonimização, filtragem e governança exigidas pela Lei Geral de Proteção de Dados. Esta redação não localizou, até aqui, relatório de impacto à proteção de dados pessoais, parecer do encarregado de dados do estado ou qualquer documento público descrevendo como essas bases foram tratadas antes do treinamento. A pergunta é simples e o governo pode respondê-la com um documento: quais bases exatamente alimentaram o modelo e quem autorizou.
Os números declarados e os números a confirmar
O secretário de Inteligência Artificial, André Macedo, informou em maio de 2026 que o governo investiu pouco mais de R$ 10 milhões no desenvolvimento do SoberanIA. O número é uma declaração, não um demonstrativo. Não se sabe, por enquanto, o que ele inclui: se abrange a aquisição do equipamento instalado na ETIPI, os eventuais serviços de nuvem e treinamento contratados junto a parceiros privados, as horas de servidores e bolsistas envolvidos ou apenas uma fração disso. A execução orçamentária da SIA no Portal da Transparência e os extratos de contratos no diário oficial são os instrumentos capazes de confrontar a declaração, e esta redação está consolidando esse levantamento para a próxima reportagem da série.
O aporte federal de R$ 40 milhões, anunciado pelo secretário em maio de 2026 como recurso do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação no âmbito do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, destinado à compra de equipamentos, também depende de instrumento formal, com valores, cronograma e contrapartidas. Anúncio não é empenho.
O calendário conta uma história
A sequência de eventos do SoberanIA acompanha o calendário político. O lançamento nacional ocorreu em Brasília em dezembro de 2025, com o governador como protagonista ao lado de ministros. O lançamento comercial e o anúncio do aporte federal vieram em maio de 2026, semanas antes do início do período de restrições da legislação eleitoral, vigente desde 4 de julho. Os eventos projetaram nacionalmente a imagem do governador em ano eleitoral, com estrutura e comunicação custeadas pelo poder público.
Registre-se: não há, nos atos aqui descritos, indício de descumprimento da Lei nº 9.504/1997, já que os anúncios ocorreram antes do marco de 4 de julho. A observação é de outra natureza. Quando a régua de sucesso de uma política pública é o palco, e não o serviço entregue, o contribuinte paga pela vitrine duas vezes: no custo do projeto e na ausência do debate sobre suas prioridades.
A conta das prioridades
Esse debate de prioridades tem números. O Piauí ocupa a última posição entre os estados brasileiros em acesso à rede de esgotamento sanitário, com cerca de 13% dos domicílios conectados, segundo a PNAD Contínua de 2024, como esta redação documentou na série sobre os aeródromos construídos pela atual gestão. Municípios do interior seguem dependentes de carro-pipa. É nesse contexto que o estado mantém uma secretaria exclusiva de inteligência artificial, financia o desenvolvimento de um modelo de linguagem próprio e disputa protagonismo nacional no tema.
A conta declarada até aqui ajuda a dimensionar. Os R$ 10 milhões que o secretário afirma terem sido investidos no desenvolvimento do SoberanIA, somados aos R$ 40 milhões federais anunciados para equipamentos, chegam a R$ 50 milhões. Para efeito de comparação, levantamento desta redação sobre as emendas parlamentares da Assembleia Legislativa mostrou que, de R$ 348,99 milhões pagos entre 2023 e 2026, apenas 1,9% foi destinado à infraestrutura hídrica, cerca de R$ 6,6 milhões. O valor declarado e anunciado para o ecossistema de IA equivale, portanto, a mais de sete vezes tudo o que as emendas de todos os deputados estaduais destinaram à água no mesmo período.
O argumento oficial é conhecido e tem mérito parcial: tecnologia barateia serviço público, e aplicações como o registro de boletim de ocorrência por WhatsApp e a telessaúde alcançam justamente a população distante do estado. A avaliação desta redação é que o mérito de aplicações pontuais não responde à pergunta central, que é de escala e de prioridade: quanto custa, no total, o ecossistema de IA do governo, o que ele entrega de mensurável à população, e o que esse mesmo recurso compraria em abastecimento de água e esgoto num estado que é lanterna nacional no indicador.
Contraditório
A Rádio Calçada solicita posicionamento da Secretaria de Inteligência Artificial, Economia Digital, Ciência, Tecnologia e Inovação, da ETIPI e do Governo do Estado do Piauí sobre os pontos desta reportagem, em especial: o papel exato da AWS, do Serpro, da Telebras, da Claro e da Oracle no treinamento e na operação do SoberanIA e os instrumentos contratuais correspondentes; qual a arquitetura do SoberanIA, se o modelo parte de um modelo de base de terceiros e, em caso positivo, qual e sob qual licença; a documentação técnica que sustenta as alegações públicas de desempenho, incluindo a comparação de “250 vezes” e a caracterização de maior modelo de linguagem em português; o processo de aquisição, o fornecedor, o valor e a configuração do equipamento instalado na ETIPI; a composição do investimento de R$ 10 milhões declarado pelo secretário; o instrumento formal do aporte de R$ 40 milhões anunciado; as bases de dados governamentais utilizadas no treinamento do modelo e as salvaguardas de proteção de dados pessoais adotadas; e as regras de comercialização das soluções pela estatal. O espaço está aberto e as respostas serão publicadas na íntegra.
Aos órgãos de controle
A Rádio Calçada solicita ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí, ao Ministério Público de Contas e ao Ministério Público do Estado do Piauí que examinem os processos de aquisição de equipamentos e serviços vinculados ao SoberanIA e à SIA, a conformidade do uso de bases de dados administrativas no treinamento do modelo com a Lei Geral de Proteção de Dados e a governança da comercialização de soluções de inteligência artificial pela ETIPI, estatal que já responde a apontamentos nos órgãos de controle. Consulta ao Portal da Transparência do Piauí sobre a execução da pasta encontra as limitações de detalhamento já relatadas por esta redação em reportagens anteriores.














