É cinco vezes o valor de 2023 no mesmo intervalo de calendário. A inexigibilidade de licitação, figura em que o gestor afirma que só existe um fornecedor capaz, subiu 405% em quatro anos, enquanto a dispensa recuou 11%. Sete em cada dez reais estão na Secretaria da Saúde
Por Trabulo Neto
O governo do Piauí empenhou R$ 1.312.303.236 em contratos declarados inexigíveis de licitação entre 1º de janeiro e 25 de agosto de 2026. No mesmo intervalo de calendário de 2023, primeiro ano da gestão, o valor foi de R$ 259.622.684.
O crescimento é de 405,47%, ou 5,05 vezes.
No mesmo período, a dispensa de licitação recuou. Saiu de R$ 833.037.089 em 2023 para R$ 741.693.854 em 2026, queda de 10,96%.
Os números foram apurados pela Rádio Calçada sobre a base de notas de empenho publicada pelo Portal da Transparência do Estado.
O que separa uma coisa da outra
A distinção é o centro desta reportagem e precisa ficar clara para o leitor.
Dispensa de licitação é quando a competição seria possível, mas a lei permite ao gestor abrir mão dela. Vale para valores baixos, emergência, calamidade, licitação que ficou deserta e outras situações listadas no artigo 75 da Lei 14.133, de 2021. É uma permissão.
Inexigibilidade de licitação é outra coisa. É quando o gestor afirma que a competição é inviável, porque só existe um fornecedor capaz de entregar aquele bem ou serviço. Está no artigo 74 da mesma lei. Não é uma permissão, é uma afirmação de fato. E a lei exige que ela seja provada documento a documento, com comprovação da exclusividade e justificativa do preço.
O governo do Piauí fez essa afirmação em R$ 1,31 bilhão de despesas nos primeiros 237 dias de 2026. Em média, R$ 5,54 milhões por dia.
A tabela que sustenta a matéria
Recorte comparável, de 1º de janeiro a 25 de agosto de cada ano:
| Ano | Dispensa | Notas | Inexigibilidade | Notas |
|---|---|---|---|---|
| 2023 | R$ 833.037.089 | 19.116 | R$ 259.622.684 | 1.417 |
| 2024 | R$ 1.051.433.275 | 26.137 | R$ 505.900.097 | 2.008 |
| 2025 | R$ 779.442.110 | 21.768 | R$ 961.986.978 | 4.298 |
| 2026 | R$ 741.693.854 | 15.934 | R$ 1.312.303.236 | 3.499 |
Em 2025, pela primeira vez na gestão, o valor empenhado por inexigibilidade superou o empenhado por dispensa. Em 2026, já é 1,77 vez maior.
Considerando os exercícios completos, a inexigibilidade saiu de R$ 454.337.900 em 2023 para R$ 1.502.752.000 em 2025. O exercício de 2026 registra R$ 1.312.303.236 com pouco mais de metade do calendário transcorrido.
O número de notas também cresceu, mas menos que o valor. Foram 2.011 notas em 2023 e 3.499 até agosto de 2026. Isso significa que o valor médio por contrato declarado incompetível subiu: de R$ 225.926 para R$ 375.051.
Onde está o dinheiro
A inexigibilidade de 2026 se concentra em um único órgão.
| Órgão | Notas | Inexigibilidade em 2026 |
|---|---|---|
| Secretaria da Saúde | 2.032 | R$ 959.837.900 (73,1%) |
| Secretaria da Cultura | 349 | R$ 69.806.740 |
| Governadoria do Estado | 298 | R$ 55.092.300 |
| Secretaria da Educação | 57 | R$ 53.811.000 |
| Secretaria do Turismo | 143 | R$ 35.583.340 |
| Secretaria da Administração e Previdência | 61 | R$ 30.623.870 |
| Secretaria da Fazenda | 40 | R$ 19.058.880 |
| Secretaria dos Esportes | 29 | R$ 18.479.460 |
| Secretaria de Comunicação | 43 | R$ 14.367.020 |
| Secretaria da Agricultura Familiar | 116 | R$ 8.376.272 |
Em que rubrica ela aparece
Abrindo a inexigibilidade de 2026 por natureza de despesa, o quadro se explica:
| Elemento de despesa | Notas | Valor |
|---|---|---|
| Contrato de Gestão | 331 | R$ 691.170.200 |
| Outros Serviços de Terceiros, Pessoa Jurídica | 1.442 | R$ 286.653.700 |
| Despesas de Exercícios Anteriores | 880 | R$ 115.036.900 |
| Serviços de Tecnologia da Informação | 65 | R$ 96.314.450 |
| Material de Consumo | 500 | R$ 63.164.150 |
| Contribuições | 36 | R$ 22.307.350 |
Mais da metade da inexigibilidade de 2026 está classificada como contrato de gestão, que é o instrumento pelo qual o Estado entrega a administração de uma unidade pública de saúde a uma entidade privada sem fins lucrativos.
Quem recebeu
Os maiores credores por inexigibilidade em 2026:
| Credor | Notas | Valor |
|---|---|---|
| Instituto Saúde e Cidadania (ISAC) | 68 | R$ 188.669.600 |
| Associação Filantrópica Nova Esperança | 76 | R$ 158.585.200 |
| Sociedade Brasileira Caminho de Damasco (quatro inscrições) | 109 | R$ 291.746.100 |
| Integra Saúde Digital Telemedicina | 11 | R$ 106.438.300 |
| Beneficência Hospitalar de Cesário Lange | 23 | R$ 26.638.660 |
| KSL Limitada | 96 | R$ 18.840.370 |
| Asaphee Show e Eventos | 86 | R$ 17.853.970 |
Em 2023, a lista era outra e os valores eram menores. O primeiro colocado, o mesmo Instituto Saúde e Cidadania, tinha R$ 62.739.735 em oito notas. Em segundo vinha a cooperativa de anestesistas do Piauí, com R$ 40.551.775 em treze notas.
As cinco maiores notas de inexigibilidade de 2026, depois da compra de livros didáticos de R$ 17.048.640,00, são todas repasses mensais à Associação Filantrópica Nova Esperança para o gerenciamento do Hospital Regional Tibério Nunes, entre R$ 12,94 milhões e R$ 13,24 milhões cada.
As perguntas que a base não responde
A base de empenhos registra quanto foi gasto, com quem, sob qual órgão e sob qual rito. Ela não contém o processo administrativo. E é no processo que está a resposta para o que interessa.
Primeira. Se a competição é inviável, como se demonstrou isso? A Lei 14.133 exige comprovação de exclusividade. No caso de contrato de gestão com organização social, o instrumento correto é o chamamento público, com edital e concorrentes. Houve chamamento em cada caso? Quantas entidades se apresentaram?
Segunda. Se a inexigibilidade cresceu cinco vezes em quatro anos, o que mudou no mercado fornecedor do Piauí que tornou a competição inviável onde antes era viável?
Terceira. Por que 2.336 das 15.252 notas de inexigibilidade do período não têm número de contrato vinculado no Portal? Sem esse dado, o cidadão não consegue conferir preço, prazo nem objeto.
Quarta. Por que o valor médio por contrato inexigível quase dobrou entre 2023 e 2026?
Quinta. O que justifica que 73% de toda a inexigibilidade do Estado em 2026 esteja concentrada em uma única secretaria?
É avaliação desta redação que o crescimento de 405% em quatro anos, concentrado em um único órgão e numa única rubrica, torna necessário o exame público das justificativas de exclusividade apresentadas em cada processo, sobretudo nas contratações de maior valor.
O que se pede
A Rádio Calçada solicita ao governo do Estado do Piauí a relação completa dos processos de inexigibilidade celebrados em 2026, com objeto, valor, fornecedor, comprovação da exclusividade, justificativa do preço e parecer da Procuradoria Geral do Estado em cada caso.
Solicita também os editais de chamamento público que antecederam cada contrato de gestão firmado no período, com a relação de entidades proponentes.
OUTRO LADO
A Rádio Calçada solicita manifestação das partes envolvidas: Governo do Estado do Piauí, Secretaria de Estado da Saúde, Secretaria da Cultura, Secretaria da Educação, Secretaria do Turismo, Secretaria da Administração e Previdência, Secretaria de Comunicação, Governadoria do Estado, Procuradoria Geral do Estado, Controladoria Geral do Estado, Instituto Saúde e Cidadania, Associação Filantrópica Nova Esperança, Sociedade Brasileira Caminho de Damasco, Integra Saúde Digital Telemedicina e Beneficência Hospitalar de Cesário Lange. As respostas serão publicadas na íntegra.
A Rádio Calçada solicita ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí, ao Ministério Público de Contas e ao Ministério Público do Estado do Piauí informação sobre eventual acompanhamento do tema.
Contato: consultor@xconexoes.com.br














