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setembro 5, 2026 21:25

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O Gabinete Militar do governo do Piauí gasta R$ 5 mil por dia com comida

Levantamento da Rádio Calçada na base de empenhos do Portal da Transparência mostra R$ 6,56 milhões pagos em alimentação em três anos e meio. É R$ 5.026,69 por dia, todos os dias, incluindo sábados, domingos e feriados. Quase um quarto do valor saiu sem licitação, e R$ 625,5 mil foram para restaurantes que os próprios contratos classificam como de “gastronomia sofisticada”.

Jornalista Trabulo Neto (registro 0002880/PI)

Entre 1º de janeiro de 2023 e 29 de julho de 2026 se passaram 1.306 dias. Nesse intervalo, o Gabinete Militar do governo do Piauí pagou R$ 6.564.862,42 em alimentação. A divisão dá R$ 5.026,69 por dia corrido, ou cerca de R$ 150,8 mil por mês.

O número é resultado de levantamento da Rádio Calçada na base completa de empenhos do Portal da Transparência do Estado, com 600.384 registros de despesa. Foram identificadas 60 notas de empenho da unidade gestora Gabinete Militar classificadas como compra de comida: gêneros alimentícios, alimentação preparada, quentinhas, coffee break e refeições em restaurantes.

O cálculo não inclui o auxílio-alimentação pago aos servidores, que é benefício de pessoal e somou outros R$ 2,45 milhões no período. Só entra na conta comida comprada.

O ritmo diário praticamente não caiu ao longo do governo. Foi de R$ 5.425,46 por dia em 2023, R$ 4.104,65 em 2024, R$ 5.369,11 em 2025 e R$ 5.345,43 nos sete primeiros meses de 2026. O ano eleitoral mantém o patamar de 2025.

O Gabinete Militar é a unidade militar que presta apoio ao governador, cuida da segurança e da logística do Palácio de Karnak e organiza os eventos oficiais do governo. Todas as despesas da unidade somaram R$ 161,3 milhões no período.

Restaurantes de alto padrão contratados sem disputa

Do total gasto com comida, R$ 625.551,91 foram para restaurantes contratados por inexigibilidade de licitação, hipótese em que o poder público contrata sem disputa por considerar inviável a competição.

Os empenhos descrevem o objeto sem rodeios. Os contratos 52/2024, 54/2024-GAMIL, 05/2026-GAMIL e 06/2026-GAMIL tratam da “contratação de empresas/restaurantes de gastronomia sofisticada”. O contrato 53/2024-GAMIL fala em “restaurantes de alto padrão”.

Três empresas dividiram esse valor. A maior recebeu R$ 232.103,73, sendo R$ 210.544,15 em 2025 e R$ 21.559,58 em 2026. A segunda recebeu R$ 200.307,12, sendo R$ 167.960,00 em 2025 e R$ 32.347,12 em 2026. A terceira recebeu R$ 193.141,06, todo em 2025.

Os contratos 05/2026 e 06/2026 mostram que a prática foi renovada neste ano.

A emergência que atravessou o exercício

O contrato 13/2025 aparece nos empenhos como “contratação emergencial de empresa para fornecimento de gêneros alimentícios”. Contratação emergencial é uma forma de dispensa de licitação, cabível quando a urgência impede o processo normal de disputa.

Por esse contrato foram pagos R$ 899.726,76, sendo R$ 148.200,00 em 2025 e R$ 751.526,76 em 2026. A compra emergencial de comida atravessou a virada do exercício e seguiu gerando pagamentos no ano seguinte.

É avaliação desta redação que uma emergência que se estende por dois exercícios deixa de ser emergência e passa a ser rotina, e que o caso merece exame do Tribunal de Contas.

Somando dispensa e inexigibilidade, R$ 1.525.278,67 foram pagos sem licitação. É 23,2% de tudo que o Gabinete Militar gastou com comida. O restante correu por pregão.

Um fornecedor com dois nomes

O maior fornecedor de alimentação do Gabinete Militar recebeu R$ 2.714.033,08, o equivalente a 41% do total. Ele aparece na base sob duas razões sociais diferentes, com o mesmo CNPJ, 04.585.748/0001-54.

Até 2025, os pagamentos estão lançados como Samuel Castelo Branco Torres ME, que recebeu R$ 1.920.702,82. Em 2026, passam a aparecer como Distribuidora Pimentel Ltda, que recebeu R$ 793.330,26 até julho, inclusive pelo contrato emergencial 13/2025.

O segundo maior fornecedor repete o padrão. O CNPJ 07.686.538/0001-40 recebeu R$ 1.029.193,44 e aparece como L Pinheiro Mendes ME até 2024 e como L Pinheiro Mendes de Sousa Ltda a partir de 2025.

O efeito é o mesmo que esta redação já apontou em outras apurações: quem pesquisar o nome de um fornecedor no Portal da Transparência encontra apenas parte do dinheiro, porque o portal registra o mesmo CNPJ sob nomes distintos.

Aparecem ainda a GSR Distribuidora de Alimentos, com R$ 831.169,01, e a G.M. de Moura Barros, com R$ 423.843,35, esta última pelo contrato 34/2023-GAMIL, cujo objeto registrado é apenas “coffee break”. Há também o contrato 022/2023-GAMIL, de R$ 237.812,12, para “fornecimento de quentinhas executivas”.

O que os documentos não dizem

Os empenhos não informam onde a comida foi entregue nem quem a consumiu. Os objetos falam em gêneros alimentícios, alimentação preparada para eventos oficiais do governo, quentinhas e refeições em restaurantes, sem detalhar local de entrega, número de refeições ou lista de eventos atendidos.

Por isso, esta reportagem não afirma que os valores tenham sido destinados à residência oficial do governador. A Rádio Calçada solicita ao Gabinete Militar, por meio da Lei de Acesso à Informação, os locais de entrega previstos nos contratos de gêneros alimentícios, a relação de eventos oficiais atendidos e os quantitativos contratados.

Limites desta apuração

Os valores são pagamentos efetivamente realizados no exercício, e não valores de contrato. O gasto diário é uma média aritmética do período e não significa que tenha havido despesa em todos os dias. A classificação como despesa de alimentação foi feita a partir do subelemento de despesa e do objeto registrado em cada empenho. Ficou fora da conta o contrato 36/2023-GAMIL, de locação de auditórios. Os dados de 2026 vão até 29 de julho.

OUTRO LADO

A Rádio Calçada solicita manifestação do Gabinete Militar do Governo do Estado do Piauí, do Governo do Estado do Piauí, da Distribuidora Pimentel Ltda, de Samuel Castelo Branco Torres ME, de L Pinheiro Mendes de Sousa Ltda, da GSR Distribuidora de Alimentos, da G.M. de Moura Barros, da Favorito Empreendimentos, do Restaurante LMI Alimentos e do Coco Bambu Teresina.

A Rádio Calçada pergunta especificamente qual a justificativa técnica para a inexigibilidade de licitação na contratação de restaurantes de gastronomia sofisticada e qual o fato que fundamentou a contratação emergencial de gêneros alimentícios pelo contrato 13/2025.

A Rádio Calçada solicita ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí e ao Ministério Público de Contas manifestação sobre a inexigibilidade aplicada à contratação de restaurantes e sobre a extensão do contrato emergencial por dois exercícios.

As respostas são publicadas na íntegra.

Contato: consultor@xconexoes.com.br

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