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setembro 20, 2026 09:33

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O Piauí paga R$ 136 milhões de juros por mês, quase o triplo do que pagava em 2023

Levantamento da Rádio Calçada na base de empenhos do Portal da Transparência mostra que os juros da dívida estadual saltaram de R$ 48,9 milhões para R$ 136,8 milhões por mês em três anos. Hoje o Estado paga 42 vezes mais em juros do que gasta em saneamento, e os juros já consomem o equivalente a 40% de tudo que vai para a saúde.

Jornalista Trabulo Neto (registro 0002880/PI)

O governo do Piauí pagou R$ 3,64 bilhões apenas em juros e encargos da dívida entre janeiro de 2023 e julho de 2026. O dado é resultado de levantamento da Rádio Calçada na base completa de empenhos do Portal da Transparência do Estado, com 600.384 registros de despesa.

Juros não abatem a dívida. É o preço cobrado pelo dinheiro emprestado. A parcela que efetivamente reduz o saldo devedor, a amortização, é contabilizada à parte e somou outros R$ 7,94 bilhões no mesmo período.

O que chama atenção no levantamento é a velocidade. Em 2023, o Estado pagava em média R$ 48,9 milhões por mês de juros. Em 2024, passou para R$ 79,4 milhões. Em 2025, para R$ 116,5 milhões. Nos cinco primeiros meses de 2026, chegou a R$ 136,8 milhões por mês. É um crescimento de 180% em três anos.

Dividido pela população piauiense, estimada pelo IBGE em 3.384.547 habitantes, cada morador do Estado paga hoje o equivalente a R$ 40,41 por mês só em juros da dívida estadual. Em 2023 eram R$ 14,43.

O que esse dinheiro representa diante do que chega à população

Para dimensionar o valor, a Rádio Calçada calculou o gasto mensal médio do Estado em cada área de atuação, a partir da função orçamentária registrada em cada empenho. A comparação usa 2025, último ano completo da série.

Área Gasto mensal médio em 2025
Saúde R$ 287,3 milhões
Educação R$ 283,6 milhões
Segurança pública R$ 138,3 milhões
Transporte R$ 133,6 milhões
Juros da dívida R$ 116,5 milhões
Agricultura R$ 41,5 milhões
Urbanismo R$ 40,6 milhões
Assistência social R$ 17,4 milhões
Cultura R$ 8,4 milhões
Saneamento R$ 2,7 milhões

Os juros da dívida já são a quinta maior despesa mensal do Estado, à frente de agricultura, urbanismo, assistência social, cultura e saneamento somados.

O contraste mais duro é com o saneamento. O Piauí paga 42,6 vezes mais em juros do que gasta com saneamento básico. São R$ 116,5 milhões por mês contra R$ 2,7 milhões por mês, em um estado que tem a maior proporção de população rural do país, com mais de 31% dos moradores fora dos centros urbanos, e onde a cobertura de esgoto está entre as piores do Brasil.

Os juros equivalem também a 6,7 vezes tudo que o Estado gasta com assistência social e a 13,9 vezes tudo que gasta com cultura.

Na saúde, os juros consomem hoje o equivalente a 40,5% do gasto mensal da função. Em 2023, essa proporção era de 21,6%. Na educação, os juros equivalem a 41,1% do gasto mensal.

E há uma ultrapassagem a caminho. Em 2023, os juros representavam 64% do que o Estado gastava com segurança pública. Em 2025, já eram 84%. Mantido o ritmo dos dois indicadores, os juros da dívida passam a custar mais do que toda a segurança pública do Piauí ainda dentro deste mandato.

Por que os juros cresceram

O aumento acompanha as operações de crédito contratadas ao longo do governo. Cada empréstimo novo adiciona uma parcela de juros ao orçamento dos anos seguintes, e essa parcela se acumula.

O levantamento mostra ainda a dimensão da movimentação da dívida. Em outubro de 2025, o Estado pagou R$ 4,93 bilhões em uma única rubrica, “principal corrigido da dívida contratual refinanciado”, com recursos de operações de crédito. É uma operação de rolagem: dívida velha quitada com dinheiro novo tomado emprestado. Naquele mês, o desembolso total do Estado foi de R$ 6,35 bilhões, contra uma média mensal em torno de R$ 1,5 bilhão.

O que isso significa e o que não significa

É preciso dizer com clareza o que a comparação não autoriza. Juros são despesa obrigatória. Não existe a possibilidade de o governo decidir, neste mês, deixar de pagar juros e transferir o valor para saneamento ou para a fila da regulação. Deixar de pagar significa inadimplência, execução de garantias e bloqueio de repasses federais.

É avaliação desta redação que o que a comparação revela é o custo de oportunidade da decisão de se endividar. Cada real de juros pago hoje é consequência de um empréstimo contratado antes, e cada empréstimo contratado agora define quanto do orçamento dos próximos anos já estará comprometido antes de qualquer discussão sobre prioridade.

A pergunta que a base de empenhos não responde, e que precisa ser respondida pelo governo, é quanto o Estado ainda vai pagar de juros pelos contratos já assinados. Esse número está no demonstrativo da dívida encaminhado ao Tribunal de Contas.

Limites desta apuração

Os valores são pagamentos efetivamente realizados, e não valores contratados. Foram considerados juros os empenhos classificados nos elementos “juros sobre a dívida por contrato”, “outros encargos sobre a dívida por contrato” e “encargos pela honra de avais, garantias, seguros e similares”.

Os meses de junho e julho de 2026 foram excluídos do cálculo da média mensal do ano. Os valores registrados nesses meses, de R$ 7,1 milhões e R$ 17,9 milhões, destoam de toda a série e indicam registro ainda incompleto na base, e não redução real do pagamento de juros. A média de 2026 considera, portanto, apenas os meses de janeiro a maio.

A comparação entre juros e áreas de atuação usa a função orçamentária registrada em cada empenho. Gasto por função inclui pessoal, custeio e investimento da área.

A base cobre o Poder Executivo estadual e não alcança Assembleia Legislativa, Tribunal de Contas, Ministério Público e Tribunal de Justiça.

OUTRO LADO

A Rádio Calçada solicita manifestação do Governo do Estado do Piauí, da Secretaria da Fazenda do Piauí e da Secretaria do Planejamento do Piauí.

A Rádio Calçada pergunta especificamente qual o valor total de juros já contratado e ainda a pagar nos contratos de operação de crédito vigentes, qual a projeção de comprometimento do orçamento estadual com juros até o fim da década e qual a finalidade e o custo da operação de refinanciamento registrada em outubro de 2025.

A Rádio Calçada solicita ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí e ao Ministério Público de Contas manifestação sobre a trajetória de crescimento do gasto com juros da dívida estadual.

As respostas são publicadas na íntegra.

Contato: consultor@xconexoes.com.br

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