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maio 24, 2026 20:23

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Operação OMNI: empresa investigada pela PF por fraudes na saúde recebeu R$ 47,7 milhões da SESAPI e o governador pediu ao STF para anular a investigação

A Big Data Health Ltda (CNPJ 35.728.442/0001-33) recebeu R$ 47.700.000,00 da Secretaria de Saúde do Piauí em 12 empenhos entre julho de 2024 e julho de 2025 — todos via Pregão eletrônico, todos com valores exatos sem centavo. Em 30 de setembro de 2025, a Polícia Federal deflagrou a Operação OMNI, investigando fraudes em contratos da SESAPI com foco em empresas de tecnologia e OSSs, incluindo a Big Data Health. Os dois sócios-gestores da empresa foram presos temporariamente e depois soltos. A Justiça bloqueou R$ 66 milhões dos investigados. Em outubro, a SESAPI revogou um pregão de R$ 40 milhões que a empresa havia vencido. Em dezembro, o governador Rafael Fonteles ingressou no STF pedindo a suspensão imediata das investigações da PF, da CGU e do MPF. Os R$ 47,7 mi que a empresa já havia recebido antes da operação permanecem nos registros do Portal da Transparência.

Por Rádio Calçada | Investigação e denúncias por Trabulo Neto e Trabulo Júnior.

Quem é a Big Data Health

A Big Data Health Ltda foi fundada em 6 de dezembro de 2019 e tem sede na Rua Angélica, 1.875, bairro Fátima, zona Leste de Teresina. Sua atividade principal declarada na Receita Federal é CNAE 8660-7/00 — Atividades de apoio à gestão de saúde. Capital social registrado: R$ 10 milhões. A empresa desenvolve e comercializa software de gestão de saúde para órgãos públicos.

Um dos sócios-gestores é Bruno Santos Leal Campos — médico ortopedista e traumatologista com consultório em Brasília e São Paulo, natural de Picos (PI). O outro gestor identificado nas investigações é Nemesio Martins de Castro Neto. A empresa firmou parceria com a ETIPI — Empresa de Tecnologia da Informação do Estado do Piauí — em março de 2025, com assinatura de Bruno Santos Leal Campos, para implementação de plataforma de prontuário eletrônico.

Os contratos com o governo do Piauí

Antes da Operação OMNI, a Big Data Health havia recebido R$ 47.700.000,00 da Secretaria de Saúde em 11 empenhos e da Secretaria de Segurança Pública em 1 empenho:

Nº Empenho Data Órgão Valor Situação
2024NE00086 29/07/2024 Seg. Pública R$ 9.100.000,00 Parcialmente liquidado
2024NE23525 02/08/2024 SESAPI R$ 14.050.000,00 Liquidado e pago
2024NE34339 12/11/2024 SESAPI R$ 3.000.000,00 Liquidado e pago
2024NE35639 25/11/2024 SESAPI R$ 1.000.000,00 Liquidado e pago
2025NE00124 27/01/2025 SESAPI R$ 4.512.500,00 ⚠DEA Liquidado e pago
2025NE07732 20/03/2025 SESAPI R$ 4.512.500,00 Liquidado e pago
2025NE12354 30/04/2025 SESAPI R$ 3.000.000,00 Liquidado e pago
2025NE14502 21/05/2025 SESAPI R$ 1.000.000,00 Liquidado e pago
2025NE16072 29/05/2025 SESAPI R$ 2.000.000,00 Liquidado e pago
2025NE19131 30/06/2025 SESAPI R$ 2.512.500,00 Liquidado e pago
2025NE19128 30/06/2025 SESAPI R$ 512.500,00 Liquidado e pago
2025NE21548 29/07/2025 SESAPI R$ 2.500.000,00 Liquidado e pago
TOTAL R$ 47.700.000,00

⚠DEA = Despesa de Exercício Anterior: serviço prestado em 2024 sem empenho contemporâneo, regularizado retroativamente em 2025.

Segundo publicação no Diário Oficial do Estado, a empresa possuía dois contratos formais com a SESAPI: o Contrato nº 523/2024, para implantação de software de gestão em saúde, no valor total de R$ 54,15 milhões; e contrato decorrente do Pregão Eletrônico SEAD nº 09/2024, para atender demandas da SESAPI, no valor de R$ 40,25 milhões. Os R$ 47,7 mi registrados no Portal da Transparência correspondem aos pagamentos realizados até a data de extração dos dados (16/05/2026).

Um detalhe técnico que será relevante para as investigações: o empenho inaugural da SESAPI para a Big Data Health (2024NE23525, de R$ 14.050.000,00, em agosto de 2024) foi o maior empenho individual da empresa no período — e foi emitido dois meses depois do Pregão SEAD nº 09/2024. O empenho de janeiro de 2025 (2025NE00124, R$ 4.512.500,00) é classificado como Despesa de Exercício Anterior — o que indica que serviços foram prestados em 2024 sem empenho contemporâneo, contrariando o art. 60 da Lei nº 4.320/1964.

30 de setembro de 2025: a Operação OMNI

Na manhã de 30 de setembro de 2025, a Polícia Federal, em parceria com a Controladoria-Geral da União (CGU/PI) e o Tribunal de Contas do Estado do Piauí (TCE-PI), deflagrou a Operação OMNI com o objetivo declarado de desarticular esquemas de corrupção e fraudes em contratos da SESAPI.

As investigações apontam conluio e direcionamento em chamamentos públicos para contratação de Organizações Sociais de Saúde e empresas de tecnologia. Os crimes investigados incluem superfaturamento, lavagem de dinheiro, falsidade ideológica e conflito de interesses. Foram cumpridos 22 mandados de busca e apreensão em Teresina, Timon (MA), Araguaína (TO), Brasília (DF), Goiânia (GO), São Paulo (SP) e Curitiba (PR).

Os empresários Bruno Santos Leal Campos e Nemesio Martins de Castro Neto, vinculados à Big Data Health, foram presos na operação. Ambos foram soltos pela Justiça dias depois. A defesa de Bruno Santos Leal Campos informou que ele se apresentou voluntariamente à PF e que nega que os veículos e a grande quantia em dinheiro apreendidos na operação pertençam a ele.

A operação identificou indícios de superfaturamento de cerca de R$ 66 milhões, além de indícios de lavagem de dinheiro, favorecimento pessoal e uso de documentos falsos. Um dos contratos investigados envolve o fornecimento de software de gestão hospitalar.

A resposta do governo: revogação do pregão, STF e liminar de Dino

Outubro de 2025 — revogação do pregão

Na semana seguinte à operação, a SESAPI cancelou o Pregão Eletrônico SEAD nº 09/2024, de R$ 40,25 milhões, vencido pela Big Data Health para implementação de sistema de acompanhamento de doenças crônicas. A revogação foi formalizada no DOE de 3 de outubro, por meio do Ato nº 295, assinada pelo secretário Antônio Luiz.

Dezembro de 2025 — o governo vai ao STF

Em dezembro de 2025, o governo do Piauí protocolou no STF a Ação Cível Originária nº 3.738, com pedido de tutela provisória de urgência, assinada pelo procurador-geral Francisco Gomes Pierot Júnior. A ação pediu a suspensão imediata de investigações, processos e decisões da PF, da CGU, do MPF e da Justiça Federal no âmbito das Operações OMNI e Difusão.

O argumento central: recursos do SUS repassados “fundo a fundo” perderiam a natureza federal após o repasse — logo, a PF não teria competência. Na petição, o governo se queixou literalmente de que “a Polícia Federal parte no encalço de contratos administrativos firmados pelo Estado do Piauí com Organizações Sociais de Saúde”. Na prática, o objetivo era transferir a investigação da PF para a Polícia Civil estadual, o TCE-PI e a Controladoria-Geral do Estado .

Réveillon — Dino na pousada do sogro do governador

Dias após o protocolo da ACO nº 3.738, o ministro do STF Flávio Dino — responsável por julgar a ação — hospedou-se na Pousada Manati, em Barra Grande (PI), propriedade de Francisco da Costa Araújo Filho, sogro do governador Fonteles, juridicamente administrada por Danilo Araújo, cunhado do governador. Segundo apuração do jornalista Tony Rodrigues  a pousada foi fechada ao público para acomodar o ministro. A Rádio Calçada registra os fatos como reportados sem atribuir intenção ou ilegalidade, mas reconhecendo sua relevância no contexto da ação pendente.

Março de 2026 — Dino concede liminar parcial

Em março de 2026, Flávio Dino concedeu liminar na ACO nº 3.738: órgãos federais não podem suspender contratos da saúde do Piauí durante as investigações — mas as apurações da PF, CGU e MPF não foram suspensas. A liminar se baseou no RE 1.529.208 (Segunda Turma, setembro de 2025), sobre competência em crimes com verbas “fundo a fundo”. Os contratos continuam em execução; as investigações continuam em andamento.

Data Fato
30/09/2025 Operação OMNI deflagrada — prisões, 22 buscas, bloqueio de R$ 66 mi
03/10/2025 SESAPI revoga pregão de R$ 40,25 mi com a Big Data Health
03/10/2025 Bruno Santos e Nemesio Neto soltos pela Justiça
Dezembro/2025 Governo protocola ACO nº 3.738 no STF pedindo suspensão das investigações
Réveillon 2025–2026 Ministro Dino hospedado na Pousada Manati — propriedade do sogro do governador
Março/2026 Dino concede liminar: contratos não podem ser suspensos; investigações continuam

O que os dados do Portal da Transparência revelam além da operação

A análise dos 12 empenhos da Big Data Health no Portal da Transparência revela um padrão específico que não havia sido reportado antes da Operação OMNI: todos os 12 empenhos têm valores exatos sem centavo — 100% dos pagamentos. Em serviços de tecnologia mensurados por volume de uso, número de acessos ou procedimentos processados, seria esperada variação centesimal nos valores mensais. A ausência total de centavos em dois anos de contrato sugere pagamento por cota fixa predefinida — e não por mensuração real do serviço prestado.

Esse padrão é relevante no contexto da investigação: o esquema investigado pela PF incluía superfaturamento de contratos após a contratação, com serviços prestados sendo superfaturados em relação ao valor real, resultando em desvios de recursos públicos. Contratos pagos por cota fixa, sem mensuração de resultado, criam o ambiente propício para esse tipo de irregularidade.

Adicionalmente, os contratos da Big Data Health com a Secretaria de Segurança Pública (R$ 9,1 mi, classificados como “Proteção e Benefícios ao Trabalhador”) não constam entre os contratos com a SESAPI investigados na Operação OMNI — sugerindo que o escopo total dos contratos da empresa com o governo do Piauí pode ser mais amplo do que o foco atual das investigações.

Presunção de inocência

As investigações da Polícia Federal, CGU e TCE-PI estão em andamento e não resultaram até a data desta publicação em condenação judicial de qualquer pessoa. Bruno Santos Leal Campos e Nemesio Martins de Castro Neto negam as acusações e foram soltos pela Justiça. A Big Data Health nega irregularidades. A presunção de inocência é garantia constitucional. Os dados orçamentários citados nesta reportagem são extraídos de fontes públicas e documentam transações realizadas — não imputam crime a qualquer pessoa.

Rádio Calçada solicitou posicionamento

A SESAPI, a Big Data Health Ltda e a Governadoria do Estado foram contatadas com os seguintes questionamentos:

  1. Qual o estado atual dos Contratos nº 523/2024 e SEAD nº 09/2024 com a Big Data Health após a Operação OMNI?
  2. Os R$ 47.700.000,00 já pagos à empresa estão incluídos no escopo da investigação da PF?
  3. Por que todos os 12 empenhos têm valores exatos sem centavo — qual é o indicador de mensuração do serviço?
  4. A Ação Cível Originária nº 3.738 no STF ainda está ativa? Qual foi a decisão?
  5. Qual é o desfecho atual da Operação OMNI e das medidas de bloqueio determinadas pela Justiça?

As manifestações recebidas serão publicadas integralmente.

Respostas devem ser encaminhadas para: redacao@radiocalcada.com.br

Fontes: Portal da Transparência do Estado do Piauí — exportação 16/05/2026. Polícia Federal (gov.br/pf) — “PF, CGU e TCE deflagram Operações OMNI e Difusão” (30/09/2025). Piauí Hoje — “Identificados empresários presos” (30/09/2025). Lupa1 — “Sesapi cancela licitação de R$ 40 mi” (06/10/2025). Portal ClubeNews — “Empresa tem licitação revogada” (06/10/2025). O Bastidor — “Proibido investigar” (17/12/2025). DitoIsto — “O estranho pedido do governo de Fonteles no STF” (16/12/2025). Diário do Poder / Cidade News Online — “Após pedir ao STF para anular investigação da PF, governador recepciona Dino em pousada da família” (28/12/2025). Blog do B.Silva — “Flávio Dino decide no STF a favor do governo Fonteles” (10/03/2026). Cidades em Foco — “STF proíbe que fiscalização de órgãos federais suspenda serviços de saúde no Piauí” (10/03/2026). CNPJ 35.728.442/0001-33 — Receita Federal do Brasil.

Referências legais: Lei nº 4.320/1964, art. 60 (vedação de despesa sem empenho); Constituição Federal, art. 5º, LVII (presunção de inocência).

A Rádio Calçada é um veículo independente de jornalismo investigativo. Não recebe recursos do governo do estado do Piauí.

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