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outubro 10, 2026 16:46

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Por que, em várias concessões do governo do Piauí, é o Estado que acaba pagando as empresas?

Nos últimos anos, o governo do Piauí entregou à iniciativa privada o Centro de Convenções, o Zoobotânico, o Ginásio Verdão, rodovias do cerrado, o Hotel Pedro II, o Parque de Exposições e o Potycabana, e prepara a concessão do Albertão. A Rádio Calçada levantou, contrato por contrato, quem paga a quem.

Por Trabulo Neto

A Superintendência de Parcerias e Concessões (SUPARC), órgão ligado à Secretaria da Administração (SEAD), coordena os projetos em que o governo do Piauí entrega bens e serviços públicos a empresas privadas por décadas.

Nem toda concessão funciona do mesmo jeito. Em algumas, a empresa paga ao Estado pelo direito de explorar o bem, a chamada outorga. Em outras, é o Estado que paga à empresa. E há casos em que o dinheiro corre nos dois sentidos.

As concessões já assinadas

Bem público Concessionária Prazo O Estado paga O Estado recebe
Centro de Convenções de Teresina (2021) SPE Centro de Convenções de Teresina S/A 20 anos Receita mínima garantida de R$ 1,5 milhão por ano em aluguéis de eventos do governo Outorga sobre a receita bruta, com primeiro repasse previsto para janeiro de 2027
Rodovias PI-397 e PI-262, Transcerrados (2021) Consórcio Grãos do Piauí 30 anos Contraprestações, por ser uma PPP Não se aplica
Parque Estadual Zoobotânico (2021) Bioparque Zoobotânico Ltda 35 anos Ressarcimento das obras urgentes que eram obrigação do governo Outorga de 0,341% da receita bruta, após dois anos de carência
Ginásio Verdão SPE Arena Esportiva Verdão S/A 20 anos Não informado nos documentos consultados Concessão de uso a título oneroso, valor de contrato de R$ 6.815.388,34
Hotel Pedro II (2026) Hotel Arrey Pedro II SPE Ltda 35 anos Não informado nos documentos consultados Campo de outorga em branco na página da SUPARC; valor de contrato de R$ 7.461.000,00
Parque de Exposições Dirceu Arcoverde (2026) Agroparque Concessões S/A 30 anos Não informado nos documentos consultados Na licitação, a proposta vencedora ofereceu 0,25% da receita operacional bruta anual
Parque Estadual Potycabana (2026) Poty Esporte e Lazer SPE Ltda 35 anos Subsídio zerado na licitação; lei permite subsídio para obras de até R$ 5 milhões Concessão chamada de onerosa, sem valor de outorga publicado

Os dados vêm dos contratos e estudos publicados pela SUPARC, do relatório de auditoria do Tribunal de Contas do Estado do Piauí sobre o Zoobotânico (processo TC/001169/2024), da Lei estadual nº 8.894/2025 e dos extratos publicados no diário oficial.

Nas concessões de uso, em que a empresa deveria pagar pelo direito de explorar o bem, a outorga ao Estado é pequena, começa anos depois da assinatura ou não tem valor publicado. No Zoobotânico, o percentual equivale a R$ 3,41 para cada R$ 1.000 faturados. No Parque de Exposições, a proposta vencedora ofereceu R$ 2,50 para cada R$ 1.000. No Centro de Convenções, a carência foi de cinco anos.

O Parque de Exposições e a Servfaz

Na sessão pública da licitação do Parque de Exposições, a SUPARC informou que a vencedora provisória foi a Servfaz Serviços de Mão de Obra Ltda, com a proposta de repassar ao Estado 0,25% da receita operacional bruta anual. A concessão prevê investimentos da ordem de R$ 37 milhões.

O contrato, o nº 09/2026, foi assinado em 7 de abril de 2026 com a Agroparque Concessões S/A, segundo a página do projeto na SUPARC. O poder concedente é a Secretaria do Agronegócio (SEAGRO). Os documentos públicos consultados pela Rádio Calçada não informam a composição societária da Agroparque nem sua relação com a Servfaz. A Servfaz já presta serviços de mão de obra terceirizada ao governo do Piauí: no Diário Oficial do Estado de 30 de setembro de 2026, aparece em apostilamento de contrato com a Secretaria da Cultura.

O que vem por aí

O site da SUPARC lista outros projetos em estruturação: o Estádio Albertão, o Hotel Corrente, o Parque Reserva do Portal e as rodovias estaduais PI-140 e PI-141.

O maior deles é o Albertão. Pelos estudos publicados pela SUPARC em setembro de 2024, será uma parceria público-privada na modalidade concessão administrativa, em que o Estado paga a empresa. O estudo jurídico do projeto estima contraprestação mensal de R$ 1,1 milhão, por 35 anos, além de um aporte de R$ 20 milhões durante as obras. Em outubro de 2025, o Tribunal de Contas do Estado do Piauí emitiu alertas sobre fragilidades do projeto, segundo o Portal O Dia.

Enquanto isso, a Secretaria dos Esportes já empenhou R$ 9,1 milhões na reforma do estádio, por meio de um contrato de manutenção predial.

Para os demais projetos em estruturação, a Rádio Calçada não localizou, nos documentos públicos, valores de contrato, outorga ou pagamento do Estado.

O padrão

Olhando os contratos lado a lado, três práticas se repetem.

A primeira é o dinheiro público antes da entrega. O Potycabana recebeu R$ 1.043.605,31 em revitalização paga pela Secretaria dos Esportes em 2024, dois anos antes da concessão. O Albertão está sendo reformado pelo Estado enquanto a parceria não é licitada.

A segunda é a outorga baixa ou adiada. Nas concessões de uso com percentual conhecido, a empresa repassa ao Estado 0,341% (Zoobotânico) ou 0,25% (Parque de Exposições) da receita bruta. No Centro de Convenções e no Zoobotânico, o pagamento só começa anos depois da assinatura: no Centro de Convenções, o primeiro repasse está previsto para janeiro de 2027.

A terceira é o Estado como cliente ou pagador garantido. No Centro de Convenções, o governo garante R$ 1,5 milhão por ano em aluguéis. Nas PPPs, como a das rodovias do cerrado e a planejada para o Albertão, a empresa é remunerada pelo próprio Estado.

É avaliação desta redação que, somadas, essas práticas indicam um programa de concessões em que o Estado assume parte relevante do custo e do risco, e recebe pouco ou nada em troca nos primeiros anos. A avaliação completa depende de dados que a Rádio Calçada não localizou publicados de forma consolidada: quanto já pagou e quanto já recebeu em cada contrato.

Órgãos de controle

A Rádio Calçada solicita ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí (TCE-PI) e ao Ministério Público de Contas (MPC-PI) um levantamento consolidado, por contrato de concessão e PPP do Estado, dos valores pagos pelo Estado às concessionárias e dos valores recebidos em outorga.

OUTRO LADO

A Rádio Calçada solicita manifestação das partes envolvidas: a Secretaria da Administração (SEAD), a Superintendência de Parcerias e Concessões (SUPARC), a SPE Centro de Convenções de Teresina S/A, o Consórcio Grãos do Piauí, a Bioparque Zoobotânico Ltda, a SPE Arena Esportiva Verdão S/A, a Hotel Arrey Pedro II SPE Ltda, a Agroparque Concessões S/A, a Servfaz Serviços de Mão de Obra Ltda e a Poty Esporte e Lazer SPE Ltda.

Ao governo, a Rádio Calçada pergunta quanto o Estado pagou e quanto recebeu, ano a ano, em cada um desses contratos, e qual a outorga prevista no Hotel Pedro II e no Potycabana. À Agroparque e à Servfaz, pergunta qual a relação societária entre as duas empresas.

As respostas serão publicadas na íntegra. Contato: consultor@xconexoes.com.br

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