Nos últimos anos, o governo do Piauí entregou à iniciativa privada o Centro de Convenções, o Zoobotânico, o Ginásio Verdão, rodovias do cerrado, o Hotel Pedro II, o Parque de Exposições e o Potycabana, e prepara a concessão do Albertão. A Rádio Calçada levantou, contrato por contrato, quem paga a quem.
Por Trabulo Neto
A Superintendência de Parcerias e Concessões (SUPARC), órgão ligado à Secretaria da Administração (SEAD), coordena os projetos em que o governo do Piauí entrega bens e serviços públicos a empresas privadas por décadas.
Nem toda concessão funciona do mesmo jeito. Em algumas, a empresa paga ao Estado pelo direito de explorar o bem, a chamada outorga. Em outras, é o Estado que paga à empresa. E há casos em que o dinheiro corre nos dois sentidos.
As concessões já assinadas
| Bem público | Concessionária | Prazo | O Estado paga | O Estado recebe |
|---|---|---|---|---|
| Centro de Convenções de Teresina (2021) | SPE Centro de Convenções de Teresina S/A | 20 anos | Receita mínima garantida de R$ 1,5 milhão por ano em aluguéis de eventos do governo | Outorga sobre a receita bruta, com primeiro repasse previsto para janeiro de 2027 |
| Rodovias PI-397 e PI-262, Transcerrados (2021) | Consórcio Grãos do Piauí | 30 anos | Contraprestações, por ser uma PPP | Não se aplica |
| Parque Estadual Zoobotânico (2021) | Bioparque Zoobotânico Ltda | 35 anos | Ressarcimento das obras urgentes que eram obrigação do governo | Outorga de 0,341% da receita bruta, após dois anos de carência |
| Ginásio Verdão | SPE Arena Esportiva Verdão S/A | 20 anos | Não informado nos documentos consultados | Concessão de uso a título oneroso, valor de contrato de R$ 6.815.388,34 |
| Hotel Pedro II (2026) | Hotel Arrey Pedro II SPE Ltda | 35 anos | Não informado nos documentos consultados | Campo de outorga em branco na página da SUPARC; valor de contrato de R$ 7.461.000,00 |
| Parque de Exposições Dirceu Arcoverde (2026) | Agroparque Concessões S/A | 30 anos | Não informado nos documentos consultados | Na licitação, a proposta vencedora ofereceu 0,25% da receita operacional bruta anual |
| Parque Estadual Potycabana (2026) | Poty Esporte e Lazer SPE Ltda | 35 anos | Subsídio zerado na licitação; lei permite subsídio para obras de até R$ 5 milhões | Concessão chamada de onerosa, sem valor de outorga publicado |
Os dados vêm dos contratos e estudos publicados pela SUPARC, do relatório de auditoria do Tribunal de Contas do Estado do Piauí sobre o Zoobotânico (processo TC/001169/2024), da Lei estadual nº 8.894/2025 e dos extratos publicados no diário oficial.
Nas concessões de uso, em que a empresa deveria pagar pelo direito de explorar o bem, a outorga ao Estado é pequena, começa anos depois da assinatura ou não tem valor publicado. No Zoobotânico, o percentual equivale a R$ 3,41 para cada R$ 1.000 faturados. No Parque de Exposições, a proposta vencedora ofereceu R$ 2,50 para cada R$ 1.000. No Centro de Convenções, a carência foi de cinco anos.
O Parque de Exposições e a Servfaz
Na sessão pública da licitação do Parque de Exposições, a SUPARC informou que a vencedora provisória foi a Servfaz Serviços de Mão de Obra Ltda, com a proposta de repassar ao Estado 0,25% da receita operacional bruta anual. A concessão prevê investimentos da ordem de R$ 37 milhões.
O contrato, o nº 09/2026, foi assinado em 7 de abril de 2026 com a Agroparque Concessões S/A, segundo a página do projeto na SUPARC. O poder concedente é a Secretaria do Agronegócio (SEAGRO). Os documentos públicos consultados pela Rádio Calçada não informam a composição societária da Agroparque nem sua relação com a Servfaz. A Servfaz já presta serviços de mão de obra terceirizada ao governo do Piauí: no Diário Oficial do Estado de 30 de setembro de 2026, aparece em apostilamento de contrato com a Secretaria da Cultura.
O que vem por aí
O site da SUPARC lista outros projetos em estruturação: o Estádio Albertão, o Hotel Corrente, o Parque Reserva do Portal e as rodovias estaduais PI-140 e PI-141.
O maior deles é o Albertão. Pelos estudos publicados pela SUPARC em setembro de 2024, será uma parceria público-privada na modalidade concessão administrativa, em que o Estado paga a empresa. O estudo jurídico do projeto estima contraprestação mensal de R$ 1,1 milhão, por 35 anos, além de um aporte de R$ 20 milhões durante as obras. Em outubro de 2025, o Tribunal de Contas do Estado do Piauí emitiu alertas sobre fragilidades do projeto, segundo o Portal O Dia.
Enquanto isso, a Secretaria dos Esportes já empenhou R$ 9,1 milhões na reforma do estádio, por meio de um contrato de manutenção predial.
Para os demais projetos em estruturação, a Rádio Calçada não localizou, nos documentos públicos, valores de contrato, outorga ou pagamento do Estado.
O padrão
Olhando os contratos lado a lado, três práticas se repetem.
A primeira é o dinheiro público antes da entrega. O Potycabana recebeu R$ 1.043.605,31 em revitalização paga pela Secretaria dos Esportes em 2024, dois anos antes da concessão. O Albertão está sendo reformado pelo Estado enquanto a parceria não é licitada.
A segunda é a outorga baixa ou adiada. Nas concessões de uso com percentual conhecido, a empresa repassa ao Estado 0,341% (Zoobotânico) ou 0,25% (Parque de Exposições) da receita bruta. No Centro de Convenções e no Zoobotânico, o pagamento só começa anos depois da assinatura: no Centro de Convenções, o primeiro repasse está previsto para janeiro de 2027.
A terceira é o Estado como cliente ou pagador garantido. No Centro de Convenções, o governo garante R$ 1,5 milhão por ano em aluguéis. Nas PPPs, como a das rodovias do cerrado e a planejada para o Albertão, a empresa é remunerada pelo próprio Estado.
É avaliação desta redação que, somadas, essas práticas indicam um programa de concessões em que o Estado assume parte relevante do custo e do risco, e recebe pouco ou nada em troca nos primeiros anos. A avaliação completa depende de dados que a Rádio Calçada não localizou publicados de forma consolidada: quanto já pagou e quanto já recebeu em cada contrato.
Órgãos de controle
A Rádio Calçada solicita ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí (TCE-PI) e ao Ministério Público de Contas (MPC-PI) um levantamento consolidado, por contrato de concessão e PPP do Estado, dos valores pagos pelo Estado às concessionárias e dos valores recebidos em outorga.
OUTRO LADO
A Rádio Calçada solicita manifestação das partes envolvidas: a Secretaria da Administração (SEAD), a Superintendência de Parcerias e Concessões (SUPARC), a SPE Centro de Convenções de Teresina S/A, o Consórcio Grãos do Piauí, a Bioparque Zoobotânico Ltda, a SPE Arena Esportiva Verdão S/A, a Hotel Arrey Pedro II SPE Ltda, a Agroparque Concessões S/A, a Servfaz Serviços de Mão de Obra Ltda e a Poty Esporte e Lazer SPE Ltda.
Ao governo, a Rádio Calçada pergunta quanto o Estado pagou e quanto recebeu, ano a ano, em cada um desses contratos, e qual a outorga prevista no Hotel Pedro II e no Potycabana. À Agroparque e à Servfaz, pergunta qual a relação societária entre as duas empresas.
As respostas serão publicadas na íntegra. Contato: consultor@xconexoes.com.br














