O Governo do Piauí empenhou desde 2023 R$ 258.392.698,60 com a empresa que opera a telemedicina estadual e R$ 1,46 bilhão com três organizações sociais que administram hospitais da rede. São R$ 1,72 bilhão, sem licitação em nenhuma das 652 notas de empenho, todas registradas por inexigibilidade e todas pagas pelo Fundo Estadual de Saúde. No mesmo período, a fila de cirurgia eletiva chegou a 6.522 pedidos, com pelo menos 2.400 pessoas esperando há 93 dias ou mais.
Jornalista Trabulo Neto (registro 0002880/PI)
Os números da mesma secretaria
Às 16h35 do dia 14 de agosto de 2026, os registros do sistema estadual de regulação apontavam 6.522 pedidos de cirurgia eletiva em espera na rede do Governo do Piauí.
Na posição 2.400 da fila estava um pedido médico feito em 13 de maio de 2026, ou seja, 93 dias de espera contados até aquela sexta-feira. Como a fila é ordenada pela data em que o médico pediu o procedimento, as 2.399 posições à frente correspondem a pedidos de data igual ou anterior. São, portanto, pelo menos 2.400 pessoas esperando há 93 dias ou mais.
A meta anunciada pelo Governo do Estado é de 60 dias.
Cirurgia eletiva é a cirurgia que pode ser marcada com antecedência, sem risco imediato de morte. Entram nessa conta procedimentos como correção de hérnia, retirada da vesícula, histerectomia e catarata.
Na outra ponta do mesmo orçamento, a Secretaria de Estado da Saúde do Piauí (Sesapi) mantém dois blocos de despesa que crescem em ritmo próprio:
- R$ 258.392.698,60 empenhados desde 2023 com a empresa que opera a telemedicina estadual. Só em 2026, entre 1º de janeiro e 22 de julho, foram R$ 102,36 milhões.
- R$ 1.465.246.140,23 empenhados desde 2023 com três organizações sociais de saúde que administram hospitais e centrais de exames da rede estadual.
Somados, são R$ 1,72 bilhão.
Empenho é o ato pelo qual o Estado reserva formalmente o dinheiro do orçamento para pagar uma despesa. É o compromisso assumido no papel, o passo que antecede a liquidação e o pagamento. Esta reportagem trabalha com valores empenhados, e não com valores pagos, e informa isso em cada número que apresenta.
Todos esses números saem da mesma secretaria, do mesmo fundo de saúde e do mesmo mandato que administra a fila de 6.522 pessoas.
Quanto o Estado empenhou na telemedicina, ano a ano
O levantamento desta redação na base de empenhos do Portal da Transparência do Piauí, extraída em 2 de agosto de 2026, encontrou 62 notas de empenho emitidas em favor da empresa contratada para a telemedicina estadual, a Integra Saúde Digital, CNPJ da matriz 49.014.126/0001-04.
| Ano | Valor empenhado |
|---|---|
| 2023 | R$ 3.700.000,00 (aproximado, R$ 3,70 milhões) |
| 2024 | R$ 46.270.000,00 (aproximado, R$ 46,27 milhões) |
| 2025 | R$ 106.070.000,00 (aproximado, R$ 106,07 milhões) |
| 2026, até 22 de julho | R$ 102.360.000,00 (aproximado, R$ 102,36 milhões) |
| Total | R$ 258.392.698,60 |
Do total, R$ 254.354.385,97 estão vinculados ao Contrato nº 340/2023 e R$ 4.038.312,63 ao Contrato nº 06/2023.
Três características se repetem em todas as 62 notas de empenho:
- Todas foram emitidas por inexigibilidade de licitação. Inexigibilidade é a hipótese em que o Estado contrata sem disputa porque entende que só existe um fornecedor capaz de prestar aquele serviço. Não há concorrência, não há proposta comparada, não há preço testado no mercado.
- Todas saíram do Fundo Estadual de Saúde, a mesma fonte que financia hospital, cirurgia, medicamento e plantão médico.
- O ritmo acelerou. O valor empenhado em 2025 é 28 vezes maior do que o de 2023. Nos primeiros sete meses de 2026, o Estado já havia empenhado quase todo o valor do ano anterior inteiro.
Em números diários, os R$ 102,36 milhões empenhados entre 1º de janeiro e 22 de julho de 2026 equivalem a cerca de R$ 500 mil por dia corrido destinados à telemedicina.
O contrato que, no papel, quase triplicou
O extrato do Contrato nº 340/2023 no Portal da Transparência do Piauí, código 23005180, publicado em 25 de outubro de 2023, registra dois valores diferentes para o mesmo contrato:
- Valor de concessão: R$ 180.088.627,50
- Valor total: R$ 522.174.787,50
A diferença entre os dois campos é de R$ 342.086.160,00, ou seja, 189,95% a mais do que o valor originalmente concedido. O contrato registrado hoje vale 2,9 vezes o que valia quando nasceu.
O próprio histórico de uma das notas de empenho recentes menciona o 4º termo aditivo e o 3º termo de apostilamento. Termo aditivo é o documento que altera o contrato, normalmente para prorrogar prazo ou acrescentar valor. Apostilamento é o registro de ajustes que a lei considera de menor porte, feitos sem novo contrato.
A vigência registrada no Portal para o contrato é de 31 de dezembro de 2025 a 31 de dezembro de 2026.
É avaliação desta redação que um contrato que passa de R$ 180 milhões para R$ 522 milhões em pouco mais de dois anos, sem ter passado por licitação em nenhum momento, exige do Estado uma explicação pública sobre o que foi acrescentado e por qual preço unitário.
O que o contrato entrega, segundo o próprio Estado
O objeto registrado no Portal prevê teleconsultas ilimitadas e laudos ilimitados de eletrocardiograma.
A palavra ilimitadas é decisiva. Em um contrato de valor fixo mensal com entrega ilimitada, o Estado paga o mesmo montante independentemente de o serviço atender mil ou cem mil pessoas. E o Portal da Transparência não informa o número de atendimentos efetivamente realizados no contrato.
Quem informa é a própria Sesapi, em notas oficiais.
Em 11 de março de 2026, o portal pi.gov divulgou que o programa Piauí Saúde Digital havia ultrapassado 1.500.809 registros. A divulgação oficial detalha 347.180 teleconsultas, sendo 217.874 com clínico geral e 129.306 com especialistas, além de 1.153.629 telelaudos emitidos para apoiar profissionais da rede pública na análise de exames</cite>.
Essa abertura, feita pelo próprio governo, mostra a composição real do que é contado como atendimento:
- Telelaudos: 1.153.629, ou 76,9% do total. Telelaudo é o laudo de exame emitido a distância, sobretudo eletrocardiograma. É um documento, não uma consulta.
- Teleconsultas: 347.180, ou 23,1% do total.
- Dentro das teleconsultas, 129.306 foram com especialista, o equivalente a 8,6% do total divulgado.
Em 25 de maio de 2026, a Sesapi anunciou que o programa havia alcançado 1,8 milhão de atendimentos realizados</cite>.
É avaliação desta redação que somar laudo de eletrocardiograma e consulta médica dentro de um único indicador chamado atendimento infla a percepção de alcance do programa. São serviços de natureza, custo e efeito clínico distintos, e o cidadão que lê a manchete de 1,8 milhão de atendimentos não tem como saber que três em cada quatro são documentos de exame.
A conta por atendimento
Dividindo o valor empenhado até 22 de julho de 2026, R$ 258.392.698,60, pelo total de 1,8 milhão de atendimentos anunciado pela Sesapi em 25 de maio de 2026, chega-se a cerca de R$ 143 por atendimento.
Esta redação registra que as duas datas não coincidem: o número de atendimentos é de maio e o valor empenhado é de julho. O resultado, portanto, é uma ordem de grandeza, não um valor exato de contrato. A Sesapi tem os dois números fechados na mesma data e pode corrigir a conta a qualquer momento, e esta redação publicará a correção na íntegra.
Ainda assim, o cálculo indica o tamanho da despesa unitária: se três em cada quatro atendimentos são laudos de eletrocardiograma, o custo médio de R$ 143 por atendimento recai majoritariamente sobre a emissão de documentos de exame.
A porta que abre e o corredor que não anda
Aqui está o ponto central desta reportagem.
A teleconsulta funciona como porta de entrada. O paciente é atendido pelo celular, o médico avalia, e quando o caso exige cirurgia o médico faz a solicitação. Essa solicitação entra na fila de regulação.
A teleconsulta não opera hérnia, não retira vesícula, não faz histerectomia e não substitui bloco cirúrgico. Nenhum contrato de telemedicina, por maior que seja, abre uma sala de cirurgia.
É avaliação desta redação que ampliar a porta de entrada sem ampliar na mesma proporção a capacidade cirúrgica produz um efeito previsível: mais gente diagnosticada, mais indicações cirúrgicas e uma fila que não encolhe na velocidade do investimento em tecnologia. O gargalo do sistema não está no acesso ao médico. Está no leito, no centro cirúrgico e na equipe.
A própria matéria de fila publicada por esta redação em 15 de agosto de 2026 traz o sintoma documentado disso. Nas dez posições examinadas em torno da posição 2.400, todas com pedido médico de 13 de maio de 2026, as datas de cadastro no sistema variavam de 1º de junho a 5 de agosto de 2026. Há paciente cujo pedido médico foi feito em maio e que só entrou no sistema em 5 de agosto, quase três meses depois. O atendimento aconteceu. O registro na fila demorou. E o tempo de espera oficial só começa a contar quando o registro entra.
Quem administra os hospitais onde a cirurgia não sai
A cirurgia eletiva não acontece na tela do celular. Ela acontece dentro de um hospital. E boa parte dos hospitais da rede estadual do Piauí não é administrada diretamente pelo Estado, e sim por organizações sociais de saúde, as OSS.
OSS é uma entidade privada sem fins lucrativos que recebe do poder público a gestão de um hospital ou de um serviço de saúde. O Estado repassa dinheiro mensalmente e a entidade contrata equipe, compra insumo e faz o serviço funcionar. O instrumento que formaliza esse arranjo é o contrato de gestão, previsto na Lei federal 9.637/1998 e, no Piauí, na Lei Estadual 5.519/2005. A constitucionalidade desse modelo foi julgada pelo Supremo Tribunal Federal na ADI 1923.
O levantamento desta redação na base de empenhos do Portal da Transparência do Piauí, na mesma extração de 2 de agosto de 2026, encontrou o seguinte quadro para as três maiores OSS da saúde estadual:
| Organização social | Valor empenhado | Notas de empenho | Unidades e contratos de gestão |
|---|---|---|---|
| ISAC | R$ 619.138.285,30 | 165 | HEDA, em Parnaíba (CG 36/2023); Hospital Regional Chagas Rodrigues, em Piripiri (CG 022/2025); Central de Exames de Água Branca (CG 010/2024) |
| Caminho de Damasco | R$ 567.927.699,97 | 302 | CG 004/2024 e CG 011/2025 |
| Nova Esperança | R$ 278.180.154,96 | 123 | Hospital Regional Tibério Nunes, em Floriano (CG 012/2025); UPA de Floriano; Central de Exames de Paulistana |
| Total | R$ 1.465.246.140,23 | 590 |
Duas observações de método, para que o leitor não tire conclusão além do que o documento diz.
Primeira. Todas as 590 notas de empenho estão registradas por inexigibilidade de licitação e todas saem do Fundo Estadual de Saúde. Isso, por si só, não indica irregularidade: no modelo de OSS, a seleção da entidade não se dá por licitação comum, e sim por chamamento público, e o repasse é executado por contrato de gestão. O registro da inexigibilidade no empenho é a forma contábil desse arranjo.
Segunda. Os empenhos da Caminho de Damasco aparecem na base sob seis grafias diferentes de razão social. Foi necessário consolidar manualmente as seis grafias para chegar ao valor real recebido pela entidade. É avaliação desta redação que a existência de seis grafias para o mesmo beneficiário na base oficial de empenhos dificulta o controle social, porque quem consulta o Portal buscando um nome encontra apenas uma fatia do total.
O que o Tribunal de Contas já levantou
O Tribunal de Contas do Estado do Piauí produziu um Relatório de Levantamento sobre o modelo de OSS na saúde estadual, no processo TC/012686/2024, assinado em 28 de março de 2025, com 59 páginas. Conforme o registro consultado por esta redação, o relatório aguardava deliberação do colegiado.
Entre os pontos examinados no relatório está o trânsito dos repasses estaduais por contas intermediárias da entidade gestora antes de chegarem à conta específica do contrato de gestão, no caso do contrato de gestão 036/2023, do HEDA de Parnaíba.
Traduzindo: o dinheiro que o Estado repassa para tocar um hospital passa por outras contas da entidade antes de chegar à conta daquele hospital. O Tribunal levantou o fato. A deliberação sobre ele ainda não ocorreu.
Esta redação registra que o levantamento é uma peça técnica de instrução e não equivale a condenação, e que nenhuma das três entidades citadas tem, até a publicação desta matéria, decisão definitiva de irregularidade conhecida por esta redação em relação a esses contratos de gestão.
Por que isso pesa na fila
A conta fica assim. O Estado paga R$ 1,46 bilhão para que terceiros administrem hospitais e centrais de exames, paga R$ 258 milhões para que uma empresa privada faça teleconsulta e telelaudo, e a fila de cirurgia eletiva permanece com 6.522 pessoas.
É avaliação desta redação que o piauiense que espera 93 dias por uma cirurgia tem direito a saber, em números públicos e desagregados, quantas cirurgias eletivas cada contrato de gestão entregou por mês, com meta contratada e meta cumprida lado a lado. Esse é exatamente o tipo de indicador que o contrato de gestão existe para produzir, e é exatamente o indicador que não está publicado em nenhum relatório de acesso direto.
O que o Estado gasta na outra ponta
O contraste fica mais claro quando se olha o que o Governo do Estado apresenta como resposta à fila cirúrgica.
A ação de maior escala em 2026 foi o Projeto Catarata, iniciativa itinerante da Sesapi com unidades móveis que percorrem municípios, com previsão de 8.986 consultas e 7.090 cirurgias entre março e maio de 2026.
E o problema da fila cirúrgica não é novo. Em 27 de junho de 2022, segundo divulgação da própria Sesapi, o sistema de regulação estadual registrava 13.308 pacientes na fila de cirurgia eletiva, com as maiores filas concentradas no Hospital Getúlio Vargas, no Hospital Infantil Lucídio Portella e no Hospital da Polícia Militar.
Ou seja, o Estado convive com fila de cirurgia eletiva de milhares de pessoas há pelo menos quatro anos, e no mesmo intervalo criou uma despesa de tecnologia que saiu de R$ 3,70 milhões em 2023 para R$ 106,07 milhões em 2025.
Esta redação não afirma que o dinheiro da telemedicina deveria ter sido gasto em cirurgia. Afirma que os dois valores disputam o mesmo Fundo Estadual de Saúde, e que a escolha entre eles é uma decisão política que nunca foi apresentada ao piauiense nesses termos.
O que o governo divulga sobre a fila
O Governo do Estado comunica a fila pelo tempo médio de espera, e não pelo tamanho dela nem pela distribuição.
Segundo publicação do portal oficial pi.gov de setembro de 2025, o tempo médio de espera por cirurgia eletiva na rede estadual era de 59,6 dias, contra 464 dias em 2023. A mesma publicação atribui ao governador Rafael Fonteles a informação de que a fila havia caído de mais de 14 mil pacientes para pouco mais de 5 mil.
O levantamento desta redação de 14 de agosto de 2026 encontrou 6.522 pedidos em espera, número superior ao divulgado em setembro de 2025.
Em agosto de 2026, conforme publicou o portal Cidades em Foco, o governador afirmou em plenária de programa de governo que a meta passa a ser reduzir a espera para menos de 20 dias, e citou mais de 130 mil procedimentos por mês no Piauí Saúde Digital, além do lançamento do Regula Fácil.
É avaliação desta redação que a média de dias é um indicador incompleto. A média junta, num único número, o paciente operado em uma semana e o paciente que espera há um ano, e o segundo desaparece na conta. O dado que falta ao debate público é a distribuição: quantos esperam mais de 60 dias, quantos esperam mais de 120 dias e qual especialidade está mais represada. Esses números existem dentro do sistema estadual e não são publicados em nenhum relatório de acesso direto.
O que os órgãos de controle já decidiram
Esta redação registra, lado a lado, todas as decisões conhecidas sobre o contrato de telemedicina e sobre a regulação estadual, inclusive as favoráveis ao Estado e à empresa.
Sobre o Contrato nº 340/2023:
- O Tribunal de Contas do Estado do Piauí julgou a matéria por meio do Acórdão nº 484/2024-SPL, no qual considerou regular a contratação.
- O Ministério Público do Estado do Piauí instaurou o procedimento SIMP 003245-426/2025, que tramitou na 34ª Promotoria de Justiça de Teresina. O arquivamento do procedimento foi homologado pelo Conselho Superior do Ministério Público, com publicação em 14 de julho de 2026.
Ou seja, nas instâncias que já se manifestaram formalmente, não há hoje decisão vigente declarando irregularidade no contrato. Esta redação faz esse registro de forma expressa e destacada.
Sobre a regulação estadual:
- Em julho de 2023, a 12ª Promotoria de Justiça de Teresina expediu recomendação para que a Sesapi e a Unidade de Controle, Avaliação, Regulação e Auditoria (Ducara) adotassem providências de saneamento e aprimoramento do sistema estadual de regulação. O documento é assinado pelo promotor de Justiça Eny Marcos Vieira Pontes e foi divulgado pelo próprio Ministério Público do Estado do Piauí.
- A recomendação foi construída a partir de inquéritos civis públicos que apuram irregularidades no funcionamento da regulação estadual, e trata, entre outros pontos, do acompanhamento da fila única de cirurgias eletivas e da abertura dos sistemas de regulação, com todos os links necessários, para que os demais entes do SUS e os órgãos de controle possam enxergar a fila.
Traduzindo: há três anos o Ministério Público pediu que a fila ficasse visível para quem fiscaliza.
Dados sensíveis de pacientes continuam expostos
Os registros da fila de cirurgia eletiva do sistema estadual associam, para cada paciente que aguarda, o número de um documento de saúde de 15 dígitos, as iniciais do nome, a data de nascimento completa, a especialidade médica e a data da solicitação. Entre as especialidades listadas estão Oncologia, Nefrologia Renal Crônico, Infectologia e Neurocirurgia.
Esta redação não publica nenhum desses identificadores.
É avaliação desta redação que a combinação entre número de documento de saúde, data de nascimento e especialidade médica constitui tratamento de dado pessoal sensível. A Lei Geral de Proteção de Dados, Lei 13.709/2018, classifica dado referente à saúde como dado pessoal sensível no artigo 5º, inciso II, e submete seu tratamento a hipóteses específicas no artigo 11. A transparência da fila é legítima e necessária, e pode ser assegurada sem esses campos, bastando divulgar posição, data do pedido, especialidade e município.
Metodologia
Esta reportagem usa quatro fontes primárias e as identifica uma a uma.
- Fila de cirurgia eletiva: registros do sistema estadual de regulação, consultados em 14 de agosto de 2026, às 16h35. Foram examinadas a posição 2.400 e as dez posições em torno dela.
- Valores empenhados na telemedicina: base de empenhos do Portal da Transparência do Piauí, extração de 2 de agosto de 2026, com dados até 22 de julho de 2026. Foram somadas 62 notas de empenho em favor da empresa contratada.
- Valores empenhados nas organizações sociais: mesma base e mesma extração. Foram somadas 590 notas de empenho em favor de ISAC, Caminho de Damasco e Nova Esperança, com consolidação manual das seis grafias de razão social sob as quais a Caminho de Damasco aparece na base.
- Dados do contrato de telemedicina: extrato do Contrato nº 340/2023 no Portal da Transparência do Piauí, código 23005180, publicado em 25 de outubro de 2023.
- Modelo de OSS: Relatório de Levantamento do TCE-PI, processo TC/012686/2024, assinado em 28 de março de 2025, com 59 páginas.
- Números de atendimento do programa de telessaúde: divulgações oficiais da Sesapi e do portal pi.gov, com as respectivas datas citadas no texto.
Todos os cálculos feitos por esta redação estão explicitados no corpo da matéria, com as datas das fontes usadas em cada operação. Números divulgados por outros veículos aparecem com atribuição expressa ao veículo.
O que dizem os citados
A Rádio Calçada solicita manifestação das partes envolvidas.
À Secretaria de Estado da Saúde do Piauí (Sesapi):
- Qual é hoje a distribuição do tempo de espera na fila de cirurgia eletiva, e não apenas a média, com o número de pacientes acima de 60 dias e acima de 120 dias.
- Por que o número de pacientes na fila de cirurgia eletiva é hoje superior ao divulgado pelo governo em setembro de 2025.
- Qual foi o total pago, e não apenas empenhado, à empresa contratada para a telemedicina estadual desde 2023, por ano.
- Qual é o critério que justifica a manutenção da inexigibilidade de licitação em todas as 62 notas de empenho emitidas em favor da contratada.
- O que explica a diferença de R$ 342.086.160,00 entre o valor de concessão e o valor total registrados no extrato do Contrato nº 340/2023, e quais aditivos e apostilamentos produziram esse acréscimo.
- Quantas teleconsultas e quantos telelaudos foram efetivamente realizados no âmbito do Contrato nº 340/2023, mês a mês, e como esse volume é aferido e atestado antes de cada pagamento.
- Quantas solicitações de cirurgia eletiva hoje na fila têm origem em teleconsulta do programa Piauí Saúde Digital.
- Quanto o Estado destinou, no mesmo período, à ampliação da capacidade cirúrgica da rede estadual, incluindo mutirões, contratação de equipes e abertura de salas.
- Qual é o fundamento legal para manter visíveis o número de documento de saúde e a data de nascimento dos pacientes que aguardam na fila.
- Quantas cirurgias eletivas foram realizadas por mês em cada unidade administrada por organização social, com a meta contratada e a meta cumprida em cada contrato de gestão.
- Qual é o critério de repartição da fila de cirurgia eletiva entre as unidades de gestão direta e as unidades administradas por organizações sociais.
- Como a Sesapi fiscaliza o cumprimento das metas cirúrgicas dos contratos de gestão e quais penalidades foram aplicadas por descumprimento desde 2023.
- Quais providências foram adotadas em resposta à recomendação da 12ª Promotoria de Justiça de Teresina expedida em julho de 2023.
À Unidade de Controle, Avaliação, Regulação e Auditoria (Ducara): sobre o critério de ordenação e de priorização clínica da fila e sobre o tratamento dado às solicitações médicas cujo cadastro no sistema ocorre semanas depois da consulta que indicou o procedimento.
À Integra Saúde Digital: sobre o volume de atendimentos prestados por mês no âmbito do Contrato nº 340/2023, sobre a forma de comprovação desse volume perante a Sesapi e sobre os aditivos que elevaram o valor do contrato.
Às organizações sociais ISAC, Caminho de Damasco e Nova Esperança: sobre o número de cirurgias eletivas realizadas por mês em cada unidade sob sua administração, sobre o cumprimento das metas fixadas nos respectivos contratos de gestão e sobre o fluxo das contas por onde transitam os repasses estaduais até a conta específica de cada contrato. À Caminho de Damasco, esta redação pergunta ainda qual é a razão social correta da entidade e por que ela aparece na base oficial de empenhos sob seis grafias diferentes.
À Empresa de Tecnologia da Informação do Piauí (Etipi): sobre o desenvolvimento e o custo do Regula Fácil, que entrou no ar em 6 de julho de 2026.
O espaço permanece aberto. As respostas serão publicadas na íntegra, sem cortes, assim que enviadas.
Contatos da redação: consultor@xconexoes.com.br e WhatsApp 86.9.9991.9990.
Controle
A Rádio Calçada solicita ao Ministério Público do Estado do Piauí informação sobre o andamento dos inquéritos civis públicos que embasaram a recomendação de julho de 2023 e sobre o cumprimento das providências recomendadas.
A Rádio Calçada solicita ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí informação sobre a existência de auditoria operacional em curso no sistema estadual de regulação, sobre o acompanhamento da execução física do Contrato nº 340/2023, especialmente quanto à aferição do volume de atendimentos que justifica cada pagamento mensal, e sobre a situação atual do processo TC/012686/2024, que trata do modelo de organizações sociais na saúde estadual.
A Rádio Calçada solicita ao Ministério Público de Contas do Estado do Piauí manifestação sobre a exibição de dados pessoais sensíveis nos registros da fila de cirurgia eletiva, sobre a sucessão de aditivos em contrato firmado por inexigibilidade e sobre a identificação de um mesmo beneficiário sob múltiplas grafias de razão social na base de empenhos do Estado.
Serviço: como o leitor acompanha o próprio caso
Situação do agendamento ambulatorial: o Regula Piauí mantém área pública de acompanhamento de agendamentos, acessível pelo site do sistema. É necessário informar o número do protocolo e o CPF.
Central de Marcação da Sesapi: (86) 2222-7150, de segunda a sexta-feira, 24 horas.
Regula Fácil: WhatsApp (86) 99825-7855 ou aplicativo Gov.pi Cidadão.
Piauí Saúde Digital: aplicativo nas lojas Android e Apple ou site app.piauisaudedigital.com.br.
Se você está há mais de 60 dias na fila de uma cirurgia eletiva, escreva para a Rádio Calçada. Estamos reunindo relatos para a próxima reportagem sobre a espera real, caso a caso.
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