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agosto 7, 2026 18:17

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R$ 51 por dia: quanto entra na casa do piauiense, segundo o IBGE

Entre 2023 e 2025, a renda média do piauiense caiu de 71% para 67% da média nacional e o estado perdeu duas posições no ranking do IBGE.

Trabulo Neto (0002880/PI) e Trabulo Júnior (0014965/DF)

Em 28 de fevereiro de 2024, o Governo do Estado publicou em seu portal oficial uma nota com o título “Piauí tem a segunda maior renda per capita do Nordeste, aponta IBGE”. Nas redes sociais, o governador Rafael Fonteles chamou o resultado de grande notícia para o Piauí.

Em 2 de março de 2026, o mesmo portal publicou outra nota sobre o mesmo indicador. Desta vez, o título comemorava um crescimento de 14,5%, e o texto informava que o estado havia superado cinco estados do Nordeste.

Entre uma nota e outra, o Piauí saiu da segunda para a quarta posição no Nordeste. Nenhuma das duas notas menciona isso.

Esta reportagem pegou a série completa do indicador, publicada ano a ano pelo próprio IBGE, descontou a inflação e refez os rankings. O que se encontra é uma renda que subiu em reais, mas encolheu em posição, em poder de compra num dos anos e em distância para o resto do país.

Antes de tudo, o que esse número mede

O indicador se chama rendimento domiciliar per capita. É uma conta de padaria.

Some tudo que entra numa casa durante um mês: salário, aposentadoria, pensão, Bolsa Família, BPC, aluguel recebido, bico, comissão de venda. Depois divida esse total pelo número de pessoas que moram ali, contando criança de colo e idoso acamado, que não recebem nada mas comem, vestem e adoecem.

No Piauí, essa conta deu R$ 1.546 por pessoa em 2025. Numa casa de quatro moradores, significa R$ 6.184 entrando por mês, no total, somando todas as fontes. Por dia, dá cerca de R$ 51 por pessoa para cobrir comida, aluguel, luz, água, remédio, ônibus e material escolar.

A média nacional no mesmo ano foi de R$ 2.316 por pessoa, ou R$ 77 por dia.

O IBGE publica esse número todo mês de fevereiro por obrigação legal. Ele existe porque a Lei Complementar 143, de 2013, manda usá-lo no rateio do Fundo de Participação dos Estados. Quanto menor a renda de um estado, maior sua fatia no fundo. Não é um número de propaganda. É um número de repartição de dinheiro federal.

Primeiro achado: o ranking caiu

O Piauí ficou em quarto lugar no Nordeste em 2025. Está atrás do Rio Grande do Norte, de Sergipe e de Pernambuco, e à frente da Paraíba por três reais.

Em 2023, estava em segundo. Em 2024, chegou a cair para sexto.

Posição no Nordeste 2023 2024 2025
Rio Grande do Norte, R$ 1.373 Rio Grande do Norte, R$ 1.616 Rio Grande do Norte, R$ 1.819
Piauí, R$ 1.342 Sergipe, R$ 1.473 Sergipe, R$ 1.697
Paraíba, R$ 1.320 Pernambuco, R$ 1.453 Pernambuco, R$ 1.600
Sergipe, R$ 1.218 Paraíba, R$ 1.401 Piauí, R$ 1.546
Ceará, R$ 1.166 Bahia, R$ 1.366 Paraíba, R$ 1.543
Bahia, R$ 1.139 Piauí, R$ 1.350 Bahia, R$ 1.465
Pernambuco, R$ 1.113 Alagoas, R$ 1.331 Alagoas, R$ 1.422
Alagoas, R$ 1.110 Ceará, R$ 1.225 Ceará, R$ 1.390
Maranhão, R$ 945 Maranhão, R$ 1.077 Maranhão, R$ 1.219

A frase oficial de 2026, de que o Piauí superou cinco estados do Nordeste, está correta. É apenas outra forma de dizer quarto lugar entre nove. Em 2023, quando ficou em segundo, o estado superava sete.

É avaliação desta redação que anunciar segundo lugar quando se está em segundo e anunciar “superamos cinco estados” quando se caiu para quarto é uma escolha de enquadramento que informa o leitor de menos, não de mais.

Segundo achado: 2024 foi ano de queda real

Reais de 2023 e reais de 2025 não valem a mesma coisa. Comparar os dois sem corrigir pela inflação é dizer que alguém cresceu porque trocou de régua.

Colocando todos os anos na mesma moeda, a preços de 2025, a série do Piauí fica assim:

Ano Valor publicado pelo IBGE Corrigido pela inflação Média nacional corrigida Piauí em relação ao Brasil
2023 R$ 1.342 R$ 1.471 R$ 2.075 70,9%
2024 R$ 1.350 R$ 1.418 R$ 2.173 65,2%
2025 R$ 1.546 R$ 1.546 R$ 2.316 66,8%

Repare em 2024. O valor publicado subiu R$ 8, de R$ 1.342 para R$ 1.350. Nesse mesmo período, os preços subiram 4,37%.

Na prática, o piauiense terminou 2024 comprando 3,6% menos do que comprava em 2023. No mesmo ano, o brasileiro médio ganhou 4,7% de poder de compra.

Esse ano não gerou nota oficial.

Terceiro achado: os 14,5% são 9%

A alta anunciada em março de 2026 é real no sentido de que existe. Mas ela é nominal, ou seja, não desconta a inflação, que foi de 5,02% no período.

Descontada a inflação, o crescimento de 2024 para 2025 é de 9%. Continua sendo um número forte. O problema é que boa parte dele apenas recupera o terreno perdido no ano anterior.

Somando os dois anos, o ganho real acumulado desde 2023 é de 5,1%. No Brasil, no mesmo intervalo, foi de 11,6%.

Quarto achado: a distância para a média nacional aumentou

Este é o ponto que resume todos os anteriores.

Em 2023, a renda média do piauiense equivalia a 70,9% da renda média nacional. Em 2025, equivale a 66,8%.

A diferença em dinheiro, medida na mesma moeda, saiu de R$ 604 por pessoa por mês para R$ 770. Para uma família de quatro pessoas, isso significa que o buraco entre o Piauí e a média do país passou de cerca de R$ 2.400 para cerca de R$ 3.080 por mês.

Em março de 2026, ao comentar os dados, o governador afirmou: “Vamos continuar trabalhando forte, em conjunto como setor produtivo, para melhorar a renda do nosso povo e superar a média nacional em poucos anos”.

É avaliação desta redação que essa meta não encontra amparo na própria série do IBGE. No período mais recente e metodologicamente comparável, que vai de 2023 a 2025, o Piauí não se aproximou da média nacional. Afastou-se dela, e em ritmo mensurável.

Por que a comparação começa em 2023 e não em 2022

Esta reportagem poderia ter começado em 2022, quando o indicador do Piauí era de R$ 1.110. A comparação daria um crescimento maior e uma matéria mais fácil. Não foi feito, e é importante explicar por quê.

O IBGE mudou o método de coleta durante a pandemia. Entre 2020 e 2022, com as restrições sanitárias derrubando o número de entrevistas concluídas, o instituto passou a usar a quinta visita ao domicílio em vez da primeira. A partir de 2023, voltou ao procedimento original.

Isso significa que qualquer conta que atravesse a fronteira de 2022 mistura dois métodos diferentes e infla o resultado. Vale para a comparação divulgada pelo governo, de R$ 1.110 em 2022 para R$ 1.546 em 2025, e valeria igualmente para qualquer número que esta reportagem quisesse extrair dali.

Os anos de 2023, 2024 e 2025 usam o mesmo método. São eles que permitem comparação limpa. E é justamente nesse recorte que o Piauí perde terreno.

A média não é o que a maioria ganha

Existe um limite mais sério nesse indicador, e ele não tem nada a ver com inflação.

Média não descreve a maioria. Numa sala com nove pessoas ganhando R$ 1.000 e uma ganhando R$ 50.000, a média é R$ 5.900, e nenhuma das nove reconheceria esse valor como sua vida.

O Piauí é um dos estados onde essa distorção pesa mais. O índice de Gini, que mede concentração de renda numa escala de zero a um, ficou em 0,552 no estado em 2023, contra 0,509 na média do Nordeste. Quanto mais perto de um, mais concentrada a renda.

Traduzindo: a média piauiense é puxada para cima pelo topo da pirâmide. O número que descreveria melhor a vida do piauiense típico é a mediana, o valor que divide a população exatamente ao meio. Ela existe nos microdados da PNAD Contínua e é sistematicamente menor que a média. Nenhuma comunicação oficial a utiliza.

Renda recorde e desemprego alto ao mesmo tempo

Há um terceiro número que costuma ser confundido com o primeiro, e vale separar.

É o rendimento médio do trabalho, que mede quanto ganha quem está empregado, e não quanto entra na casa. No primeiro trimestre de 2026 ele bateu recorde no Piauí: R$ 2.628, contra R$ 3.722 na média nacional.

No mesmo trimestre, o Piauí registrou a quinta maior taxa de desocupação do país, 8,9%, contra 6,1% no Brasil.

Os dois dados convivem sem contradição, e entender por quê importa. A renda média de quem trabalha pode subir simplesmente porque os postos mais mal pagos desapareceram. Quem perde o emprego sai da conta e deixa de puxar a média para baixo.

É avaliação desta redação que divulgar recorde de rendimento do trabalho sem apresentar, no mesmo material, a taxa de desocupação e a composição por tipo de vínculo produz uma leitura incompleta da economia do estado.

O que este número não é

Rendimento domiciliar per capita não mede qualidade de vida. Não diz se há esgoto na rua, se o posto de saúde tem médico, se a fila da regulação anda, se a escola tem professor, se a água chega na torneira. Mede apenas quanto dinheiro entra na casa.

E, mesmo nessa medida estreita, o Piauí ocupa a nona posição de baixo para cima entre as 27 unidades da federação. Está abaixo da média nacional, abaixo de três estados do próprio Nordeste, e três reais acima da Paraíba.

Contraditório

A Rádio Calçada apresenta ao Governo do Estado do Piauí, à Secretaria de Estado do Planejamento e à Fundação Centro de Pesquisas Econômicas e Sociais do Piauí os cálculos desta reportagem e questiona:

Por que a comunicação oficial divulgou a variação nominal de 14,5% sem informar a variação real de 9%.

Por que a queda real de 3,6% no poder de compra verificada em 2024 não foi objeto de nota oficial, enquanto o segundo lugar de 2023 e a alta nominal de 2025 foram.

Como o governo concilia a meta pública de superar a média nacional com a perda de participação relativa do estado, de 70,9% para 66,8%, entre 2023 e 2025.

Se o governo reconhece que o estado caiu da segunda para a quarta posição no Nordeste no mesmo período.

A reportagem se coloca à disposição para publicar na íntegra qualquer manifestação oficial, sem cortes e sem edição, no mesmo espaço editorial desta matéria.

Metodologia

Os valores nominais de rendimento domiciliar per capita são os publicados pelo IBGE nos releases anuais que atendem à Lei Complementar 143/2013, referentes ao rateio do Fundo de Participação dos Estados. As edições utilizadas são as de 28 de fevereiro de 2024 (ano-base 2023), 28 de fevereiro de 2025 (ano-base 2024) e 27 de fevereiro de 2026 (ano-base 2025). Os rankings regionais foram montados por esta redação a partir das tabelas por unidade da federação constantes desses mesmos releases.

A correção monetária foi feita pela Rádio Calçada com o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, o IPCA, do próprio IBGE, tomando a média anual do índice como referência, procedimento adequado para séries construídas a partir de médias de doze meses. A base de comparação é o preço médio de 2025.

O IBGE publica também uma série já deflacionada por ele mesmo, no módulo Rendimento de Todas as Fontes da PNAD Contínua, disponível na tabela 7434 do sistema SIDRA. Os valores dessa série não são idênticos aos apresentados aqui, porque partem de base amostral e de deflator próprios. As duas séries não devem ser misturadas, e esta reportagem utiliza apenas a primeira.

Os dados de rendimento do trabalho e de desocupação do primeiro trimestre de 2026 vêm da PNAD Contínua trimestral. O índice de Gini é o da tabela 7435 do SIDRA.

As declarações oficiais citadas constam das notas publicadas no portal pi.gov.br em 28 de fevereiro de 2024 e em 2 de março de 2026.

A planilha com a memória de cálculo completa, incluindo o índice mensal do IPCA e os fatores de deflação aplicados a cada ano, está disponível a qualquer leitor, veículo ou órgão de controle que a solicite.

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