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julho 25, 2026 20:13

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PORTO PIAUÍ: A CONTA DA EXPORTAÇÃO DE MINÉRIO QUE O GOVERNO NÃO MOSTROU

Operação inaugural com a Lion Mining usará navio menor para abastecer graneleiro ancorado ao largo de Luís Correia; governo fala em “marco” e “redução de custos”, porém não apresentou o comparativo com a rota cearense já em uso

Investigação e denúncias: Trabulo Neto e Trabulo Júnior

Teresina (PI), 25 de junho de 2026

O Governo do Piauí prepara, para os próximos dias, a primeira operação de exportação de minério de ferro pelo Porto Piauí, em Luís Correia. A carga, com mais de 110 mil toneladas extraídas pela Lion Mining em Piripiri, tem como destino o mercado asiático, sobretudo a China. É fato que a operação ainda não ocorreu: o governo trata o embarque como contagem regressiva, e o minério segue sendo estocado em galpão à espera do navio. A reportagem registra, desde já, que acompanha o tema antes de qualquer afirmação de “marco histórico”.

O ponto central desta apuração não é se a operação acontecerá, mas a que custo. O Porto Piauí não tem calado para receber um graneleiro de grande porte — a profundidade atual fica entre 7 e 9 metros. Por isso, a exportação será feita por transbordo em alto-mar: um navio menor, com capacidade informada de 9 mil toneladas, atraca no terminal, recebe o minério e o transfere, em mar aberto, para o navio-mãe de 110 mil toneladas ancorado ao largo da costa. Para encher um único graneleiro desse porte são necessárias, portanto, mais de uma dezena de viagens da embarcação menor.

É fato que esse modelo de duplo manuseio não existe na rota que a própria Lion Mining utiliza hoje. Atualmente, o minério de Piripiri é exportado pelo Porto do Pecém, no Ceará, onde o embarque é direto, sem transbordo.

O que diz a conta

A reportagem reuniu, da mina ao navio rumo à Ásia, todos os componentes de custo das duas rotas. A maior parte da estrutura de custo da operação de Luís Correia nunca foi aberta ao público: das dezoito rubricas levantadas, sete permanecem sem qualquer valor divulgado pelo governo — e todas elas pesam contra a rota nova. O quadro abaixo é a conta possível com os dados disponíveis, e cada linha indica sua situação: confirmado, estimativa desta redação, não divulgado ou equivalente.

Etapa / componente (por tonelada) Pecém (CE) — rota atual Luís Correia (PI) — transbordo Situação
Extração e beneficiamento (Piripiri) igual igual equivalente
Distância rodoviária de Piripiri ~395 km ~185 km confirmado
Frete rodoviário ~R$ 119 ~R$ 56 estimativa
Recepção e descarga no terminal não divulgado não divulgado não divulgado
Armazenagem (pátio × galpão de 200 mil t) não divulgado não divulgado não divulgado
Carregamento do navio shiploader, direto transbordo em alto-mar confirmado
Transbordo (barcaça + guindaste + estiva) não há até ~R$ 62 estimativa
Tarifa portuária / uso de infraestrutura (TUP) não divulgado não divulgado não divulgado
Praticagem e rebocadores não divulgado não divulgado (tende a maior) não divulgado
Tempo de navio / sobreestadia (demurrage) ~R$ 0 (direto, ~1,5 dia) ~R$ 7,5 a R$ 13 (8 a 14 dias a mais) estimativa
Risco de janela de mar (Atlântico aberto) baixo adicional não quantificado não divulgado
Perda física e variação de umidade menor maior não divulgado
Amortização do terminal (galpão, barcaças, guindastes) terminal consolidado não divulgado se está na tarifa não divulgado
Dragagem futura (custo público) não se aplica não divulgado não divulgado
Seguro da carga não divulgado não divulgado (tende a maior) não divulgado
Frete oceânico até a Ásia referência igual equivalente
ICMS sobre exportação imune (Lei Kandir) imune (Lei Kandir) neutro
CFEM (royalty mineral) ao município produtor ao município produtor neutro

O saldo das duas rotas

Reunidos os itens que dá para quantificar, é avaliação desta redação que a vantagem se inverte. A favor de Luís Correia há um único componente: a economia no frete rodoviário, de cerca de R$ 63 por tonelada, pelos 210 quilômetros a menos saindo de Piripiri. Contra Luís Correia há dois já mensuráveis — o transbordo, que pode chegar a R$ 62 por tonelada, e o tempo de navio, estimado entre R$ 7,5 e R$ 13 — além de quatro sem valor divulgado, que só agravam o resultado.

Cálculo Valor
Economia no frete rodoviário (R$ 119 − R$ 56) − R$ 63/t (a favor de Luís Correia)
Transbordo em alto-mar + até R$ 62/t (contra)
Tempo de navio (demurrage) + R$ 7,5 a R$ 13/t (contra)
Saldo líquido por tonelada (sem perdas e amortização) Luís Correia ~R$ 6,5 a R$ 12 mais caro
Saldo por navio (110 mil t por embarque) R$ 715 mil a R$ 1,32 milhão a mais
Impacto na meta de 2026 (1 milhão de t, ~9 navios) R$ 6,5 a R$ 12 milhões/ano
Impacto na meta de 2027 (2 milhões de t) R$ 13 a R$ 24 milhões/ano
Perdas físicas, amortização, seguro, praticagem não divulgados — todos contra Luís Correia

Em outras palavras: no cenário-base, com os parâmetros aqui adotados, o Porto Piauí não barateia a exportação do minério — encarece. A economia obtida na estrada é integralmente consumida pelo transbordo e pelo tempo do navio parado em alto-mar, e o saldo de R$ 6,5 a R$ 12 por tonelada é o piso do sobrecusto, não o total, porque quatro rubricas seguem sem número.

Esse resultado é estimativa desta redação e depende de dois valores que só o operador pode fornecer: a tarifa de transbordo efetivamente praticada e o frete rodoviário contratado. Se a tarifa real ficar abaixo do teto internacional, ou se o frete até Luís Correia for menor que o estimado, a diferença se aproxima do empate. Se ficar no teto, o sobrecusto se confirma. Por isso a reportagem solicita os dois números e se compromete a refazer a conta publicamente assim que forem informados.

Os custos que ninguém colocou na mesa

Detalhando o item que mais pesa e que não foi divulgado: a sobreestadia (demurrage). Com navio-mãe de 110 mil toneladas e embarcação de transferência de 9 mil, são necessárias cerca de 13 viagens da barcaça para encher um único graneleiro. É avaliação desta redação que, considerando o tempo de carga no terminal, o trajeto até o navio ancorado em alto-mar e a transferência grão a grão por guindaste, cada ciclo leva entre 18 e 30 horas — o que mantém o navio-mãe ancorado de 10 a 16 dias apenas para carregar, contra cerca de um dia e meio num embarque direto por shiploader, como o do Pecém. São, portanto, de 8 a 14 dias a mais de navio parado por embarque. Às diárias de US$ 15 mil a US$ 30 mil praticadas no mercado internacional, isso representa entre US$ 160 mil e US$ 280 mil por navio, ou cerca de R$ 7,5 a R$ 13 por tonelada — cobrados como sobreestadia ou embutidos num frete oceânico mais caro. É um custo que a rota do Pecém, com embarque direto, não tem.

Somam-se a ele a perda física e a variação de umidade inerentes ao duplo manuseio do minério, e a amortização do investimento público no terminal: o galpão inflável de 250 metros, com capacidade para 200 mil toneladas, custou cerca de R$ 9,5 milhões, aos quais se agregam as embarcações e os guindastes de transferência. Nenhum desses três itens teve valor por tonelada divulgado.

É fato, ainda, que o próprio governo classifica o transbordo como solução provisória. Ao anunciar o modelo, o governador Rafael Fonteles afirmou tratar-se de uma “solução temporária até a ampliação do calado”, razão pela qual está prevista a dragagem do canal. É fato que essa dragagem foi anunciada em fases: a primeira levaria o canal a 11 metros, suficiente para navios de até 50 mil toneladas; apenas a segunda, a 14 metros, permitiria a atracação de embarcações de até 100 mil toneladas. Em outras palavras, nem mesmo a primeira dragagem elimina o transbordo do navio-mãe de 110 mil toneladas. A reportagem observa que essa é, na prática, uma admissão da própria gestão: se a meta é dragar para receber o navio grande direto, é porque o transbordo é um custo a ser eliminado, e não uma vantagem competitiva permanente — e, pelo cronograma anunciado, um custo que persistirá por anos.

Some-se a isso a escala da promessa. O Porto Piauí, inaugurado em dezembro de 2023 com R$ 110 milhões na primeira etapa, é apresentado dentro de um projeto que soma bilhões em investimentos previstos até 2030, com meta de exportar 1 milhão de toneladas em 2026 e dobrar esse volume em 2027. É justamente nessa escala que o sobrecusto deixa de ser um detalhe por tonelada. No saldo desta redação, a rota de Luís Correia sai de R$ 6,5 a R$ 12 mais cara por tonelada, o que equivale a algo entre R$ 715 mil e R$ 1,32 milhão a cada navio de 110 mil toneladas. Mantida a meta de 1 milhão de toneladas em 2026, são cerca de nove embarques no ano — e um sobrecusto anual da ordem de R$ 6,5 a R$ 12 milhões, que dobraria para R$ 13 a R$ 24 milhões em 2027. O sobrecusto recorrente do transbordo, frete adicional e tempo de navio, é cobrado por tonelada e não diminui com o volume: quanto maior a operação, maior o valor absoluto em jogo. É fato que o presidente da Companhia Porto Piauí, Raimundo Dias, descreveu o contrato com a Lion Mining como uma garantia mútua — a mineradora se compromete a enviar a carga ao transbordo, e o porto, a manter o investimento feito para recebê-la. Trata-se, portanto, de um compromisso contratual, e não apenas de uma escolha de mercado pela rota mais barata.

Contraditório

A reportagem encaminha à Companhia Porto Piauí e à Investe Piauí os seguintes questionamentos e solicita resposta:

  1. Qual é a tarifa de transbordo por tonelada praticada na operação de minério de ferro da Lion Mining, incluindo embarcação de transferência, guindaste, estiva e seguro?
  2. Existe estudo de viabilidade econômica comparando, em reais por tonelada, a rota Piripiri–Luís Correia (com transbordo) à rota Piripiri–Pecém (embarque direto)? Em caso positivo, a reportagem solicita o documento na íntegra.
  3. Qual o frete rodoviário contratado entre Piripiri e o Porto Piauí, e como ele se compara ao frete até o Pecém?
  4. Qual a estimativa de sobreestadia (demurrage) do navio-mãe ancorado em alto-mar e quem arca com esse custo em caso de atraso por condições de mar?
  5. Qual o percentual de perda física e de variação de umidade previsto no duplo manuseio do minério, do terminal à embarcação menor e desta ao navio de grande porte?
  6. O investimento público no terminal — galpão inflável, embarcações e guindastes — está sendo amortizado na tarifa cobrada do usuário? Em que prazo e a que custo por tonelada?
  7. Confirmada a alegação oficial de redução de custos logísticos, qual é o valor da economia por tonelada atribuída ao Porto Piauí frente à rota cearense, e com base em quais números?
  8. Qual o custo e o cronograma previstos para a dragagem do canal de acesso, e em que fase a operação deixará de depender do transbordo em alto-mar?

A redação coloca-se à disposição para publicar as respostas na íntegra.

Aos órgãos de controle

A reportagem solicita ao Tribunal de Contas do Estado (TCE-PI), ao Ministério Público de Contas (MPC-PI) e ao Ministério Público do Piauí (MP-PI) informar se já têm conhecimento da modelagem econômica da primeira operação de exportação do Porto Piauí e quais providências pretendem adotar quanto à comprovação do alegado ganho de custo e à amortização do investimento público aplicado no terminal. A redação coloca-se à disposição para publicar as respostas na íntegra.

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