Ao celebrar a primeira exportação de minério, a Companhia Porto Piauí anunciou que o canal de Luís Correia será aprofundado dos atuais 7 metros para 11,5; a mesma obra, com meta de 11 metros, já havia sido prometida para o final de 2025 — e mesmo a nova cota não permitiria a atracação do navio oceânico que hoje espera a carga ao largo
Investigação e denúncias: Trabulo Neto e Trabulo Júnior
No mesmo comunicado em que celebrou a primeira exportação de minério de ferro pelo Porto de Luís Correia, a Companhia Porto Piauí fez uma admissão que passou despercebida na cobertura festiva: o canal de acesso ao porto precisa ser aprofundado. A empresa anunciou que a profundidade, hoje entre 7 e 9,5 metros conforme a maré, passará a variar entre 11,5 e 14 metros, para permitir a operação de embarcações de maior porte (Lupa1: https://lupa1.com.br/amp/noticias/geral/porto-piaui-anuncia-ampliacao-da-estrutura-e-inicio-de-terminal-de-graos-em-luis-correia-72122.html; Cidadeverde: https://cidadeverde.com/noticias/458750/porto-piaui-divulga-investimentos-e-detalha-proximos-passos-das-operacoes).
O anúncio tem três problemas. Ele não é novo. Ele não tem prazo, custo nem fonte de recursos divulgados. E, mesmo executado, não resolve o problema que motivou o modelo logístico do porto: o navio oceânico continuará sem poder atracar.
A CRONOLOGIA DO CANAL — FATOS
A reconstituição abaixo usa exclusivamente documentos e declarações oficiais:
Agosto de 2023 — a primeira dragagem. Segundo nota técnica da própria Companhia Porto Piauí, publicada no portal do governo estadual, a primeira dragagem do canal ocorreu em agosto de 2023; à época, a profundidade variava e, nos pontos mais críticos, era de cerca de 1 metro (pi.gov.br: https://www.pi.gov.br/companhia-porto-piaui-apresenta-detalhes-sobre-o-canal-de-navegacao-em-luis-correia/).
Agosto de 2024 e junho de 2025 — duas dragagens de manutenção. A mesma nota informa que o canal passou por duas dragagens de manutenção, para manter a profundidade de 7 metros na maré baixa e 9,5 na maré cheia. Ou seja: a cota de 7 metros não é estável — exige manutenção recorrente contra o assoreamento, com custo permanente. Conforme documentado em matérias anteriores desta série, os contratos de dragagem do canal somam aproximadamente R$ 68 milhões, incluindo aditivos.
Agosto de 2025 — a primeira promessa: 11 metros até o fim de 2025. Em entrevista publicada pelo portal especializado BE News, o CEO da Porto Piauí, Raimundo Dias Jr., afirmou que estavam em andamento licitações incluindo o aprofundamento do canal para 11 metros até o final de 2025, no contexto de um plano de investimentos de R$ 7 bilhões até 2030, com o projeto incluído no Novo PAC como obra prioritária do governo federal (BE News: https://portalbenews.com.br/porto-piaui-avanca-com-r-7-bilhoes-em-investimentos-ate-2030/).
Dezembro de 2025 — o prazo vence. O aprofundamento não ocorreu. Não há registro público de licitação concluída, contrato assinado ou obra iniciada para a nova cota até a presente data localizado pela reportagem.
Novembro de 2025 — a nota que defende os 7 metros. Em publicação oficial detalhando o canal, a Companhia afirmou que a profundidade de 7 a 9,5 metros garante as condições de segurança necessárias para o tráfego, listando entre as embarcações atendidas os graneleiros destinados ao transbordo de minério de ferro (pi.gov.br, link acima).
Julho de 2026 — a segunda promessa: 11,5 metros, sem prazo. No comunicado ao mercado que acompanhou a operação inaugural, a Companhia anunciou o aprofundamento para 11,5 metros e afirmou que o governo do estado garantiu os recursos — sem divulgar valor, fonte orçamentária, cronograma ou modelagem da contratação (Cidadeverde e Meio News: https://www.meionews.com/noticias/economia/porto-piaui-faz-1-exportacao-de-minerio-saiba-tudo-568539).
A CONTA QUE NÃO FECHA NEM COM 11,5 METROS — FATOS
Como revelou a Rádio Calçada em matéria desta semana, o navio oceânico posicionado para receber a primeira carga de minério — o graneleiro MARINE VICTORY, de 114.091 toneladas de porte bruto, fundeado ao largo de Luís Correia desde meados de junho — tem calado operacional médio registrado de 11,8 metros e máximo de 18,3, segundo bases públicas de dados navais (FleetMon: https://www.fleetmon.com/vessels/marine-victory_9455533_2130763/).
Em termos práticos: mesmo após a obra anunciada, um navio dessa classe plenamente carregado não cruzaria o canal. E os navios Capesize plenos, de 200 mil toneladas, anunciados pela comunicação oficial como o padrão da operação, demandam profundidades na faixa de 17 a 18 metros — mais de 50% acima da nova meta. O aprofundamento para 11,5 metros ampliaria o porte dos navios-lançadeira e reduziria a dependência da maré, mas o transbordo em alto-mar — com seu custo de dupla movimentação por tonelada — permaneceria como arquitetura permanente da rota.
AVALIAÇÃO DA REDAÇÃO
Os elementos a seguir são interpretação da reportagem, sujeitos ao contraditório:
- Promessa reciclada é confissão de atraso. O aprofundamento anunciado em julho de 2026 como novidade é a mesma obra prometida, com prazo, em agosto de 2025 — para o final daquele ano. Reanunciá-la sem qualquer menção ao descumprimento anterior, no embalo da festa da primeira exportação, é gestão de narrativa, não prestação de contas.
- “Recursos garantidos” sem número não é garantia — é slogan. Uma obra de dragagem de aprofundamento dessa magnitude custa, tipicamente, várias dezenas de milhões de reais, possivelmente mais que os R$ 68 milhões já gastos para chegar aos 7 metros. Anunciar que os recursos estão garantidos sem dizer quanto, de onde e quando impede qualquer controle social sobre o compromisso. Se o projeto integra o Novo PAC, como afirmou o CEO da Companhia, cabe esclarecer o que é dinheiro federal, o que é estadual e o que depende de licitação ainda não realizada.
- O custo perpétuo é o dado escondido. A sequência oficial — dragagem inicial em 2023, manutenções em 2024 e 2025 — mostra que o canal assoreia e exige gasto recorrente apenas para não regredir. Aprofundá-lo para 11,5 metros tende a ampliar também o custo das manutenções. Esse custo operacional perpétuo nunca foi apresentado ao contribuinte junto com as promessas de economia logística.
- A pergunta de fundo permanece sem resposta. Se nem 11,5 metros permitem a atracação do navio oceânico, qual é o plano de longo prazo: conviver indefinidamente com o transbordo, como Serra Leoa faz há mais de uma década, ou construir infraestrutura de águas profundas — e a que custo?
CONTRADITÓRIO
À Companhia Porto Piauí S.A. e ao Governo do Estado do Piauí, a reportagem encaminha os seguintes questionamentos e solicita resposta:
- Por que o aprofundamento do canal para 11 metros, anunciado em agosto de 2025 com prazo para o final daquele ano, não foi executado? Houve licitação? Qual seu status?
- Qual o custo estimado do aprofundamento para 11,5 metros ora anunciado, qual a fonte dos recursos (federal/Novo PAC, estadual, ou da própria Companhia) e qual o cronograma de contratação e execução?
- Qual o valor total já executado em dragagens do canal desde 2023 (implantação e manutenções), discriminado por contrato, e qual a projeção anual de custo de manutenção após o aprofundamento?
- Considerando que o calado de navios oceânicos da classe empregada na primeira exportação supera 11,5 metros, qual é o planejamento de longo prazo da Companhia: manutenção permanente do modelo de transbordo ou construção de terminal de águas profundas? Há estudo de viabilidade?
- A nota oficial de novembro de 2025 afirmava que a profundidade de 7 a 9,5 metros garantia as condições necessárias à operação. O que mudou na avaliação técnica da Companhia entre novembro e julho?
O espaço segue aberto e as respostas serão publicadas na íntegra.
AOS ÓRGÃOS DE CONTROLE
Diante dos fatos narrados — obra anunciada com prazo em 2025 e não executada, novo anúncio sem custo, fonte de recursos ou cronograma divulgados, e gasto acumulado de aproximadamente R$ 68 milhões em dragagens para uma cota que a própria Companhia agora reconhece insuficiente —, esta redação solicita ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí (TCE-PI), ao Ministério Público de Contas (MPC-PI) e ao Ministério Público do Estado do Piauí (MP-PI) que informem se já têm conhecimento do caso e quais medidas pretendem adotar, em especial quanto à fiscalização dos contratos de dragagem já executados, à exigência de transparência sobre o custo e a fonte dos recursos da nova obra e à avaliação econômica do modelo de transbordo frente às alternativas de longo prazo. Esta redação se coloca à disposição para fornecer a documentação que embasa esta matéria e se compromete a publicar as respostas na íntegra.
FONTES DESTA REPORTAGEM
- Nota oficial da Companhia Porto Piauí sobre o canal de navegação — cronologia das dragagens (agosto de 2023, agosto de 2024 e junho de 2025), profundidade de 7 m na maré baixa e 9,5 m na maré cheia, e afirmação de que a cota garante as condições de segurança — pi.gov.br, novembro de 2025: https://www.pi.gov.br/companhia-porto-piaui-apresenta-detalhes-sobre-o-canal-de-navegacao-em-luis-correia/
- Entrevista do CEO da Porto Piauí, Raimundo Dias Jr., anunciando o aprofundamento do canal para 11 metros até o final de 2025, o plano de R$ 7 bilhões até 2030 e a inclusão do projeto no Novo PAC — BE News, agosto de 2025: https://portalbenews.com.br/porto-piaui-avanca-com-r-7-bilhoes-em-investimentos-ate-2030/
- Anúncio do aprofundamento do canal para a faixa de 11,5 a 14 metros, no contexto da operação inaugural — Lupa1, julho de 2026: https://lupa1.com.br/amp/noticias/geral/porto-piaui-anuncia-ampliacao-da-estrutura-e-inicio-de-terminal-de-graos-em-luis-correia-72122.html
- Comunicado oficial da Companhia Porto Piauí ao mercado, com o anúncio do aprofundamento para 11,5 metros e a afirmação de recursos garantidos — reproduzido por Cidadeverde, julho de 2026: https://cidadeverde.com/noticias/458750/porto-piaui-divulga-investimentos-e-detalha-proximos-passos-das-operacoes — e por Meio News: https://www.meionews.com/noticias/economia/porto-piaui-faz-1-exportacao-de-minerio-saiba-tudo-568539
- Histórico operacional do graneleiro MARINE VICTORY (IMO 9455533), com calados médio de 11,8 m e máximo de 18,3 m — FleetMon: https://www.fleetmon.com/vessels/marine-victory_9455533_2130763/
- Matéria anterior desta série sobre a identificação, por rastreamento AIS, das embarcações MARINE VICTORY e VENTURE ao largo de Luís Correia — Rádio Calçada, julho de 2026 [inserir link interno após publicação].
A Rádio Calçada é um veículo independente, financiado por leitores, e não aceita publicidade do governo estadual. Apoie o jornalismo investigativo no Piauí: PIX 86.9.9991.9990.














