Demonstrativo de maio de 2026 protocolado no TCE-PI mostra que a unidade da SESAPI transferiu quatro pacientes para cada um que internou, não realizou uma única cirurgia, biópsia ou drenagem de abscesso e sustenta 90% de sua produção de emergência em atendimento tipo UPA e administração de medicamentos
Por Trabulo Neto e Trabulo Júnior
São Miguel do Tapuio tem quase 5 mil quilômetros quadrados, uma das maiores extensões territoriais entre os 224 municípios do Piauí, e 17.554 habitantes, segundo o Censo 2022 do IBGE. Para essa população, espalhada por distâncias que em muitos casos superam uma hora de estrada até a sede, o Estado mantém um hospital com nome, prédio, direção geral e coordenação de arquivo médico. É fato que, em maio de 2026, esse hospital internou 21 pacientes. Menos de um por dia.
É fato também que, no mesmo mês, a unidade transferiu 84 pacientes para outras cidades. Quatro transferências para cada internação. E que o documento em que o próprio hospital declara esses números, assinado pelo diretor geral Janilson Rodrigues Alves, registra zero internações cirúrgicas, zero pequenas cirurgias, zero biópsias, zero drenagens de abscesso e zero exereses. Em nove linhas assistenciais do relatório, o número declarado é zero.
É avaliação desta redação que a pergunta central que esse documento impõe não é assistencial, é financeira: quanto custa ao contribuinte piauiense manter a estrutura de um hospital estadual que entrega o serviço de uma unidade de pronto atendimento? O demonstrativo não permite responder. Ele não informa leitos, taxa de ocupação, média de permanência, escala médica nem despesa. Registra produção sem contexto, e a produção registrada é a de uma UPA.
A classificação, aliás, não é da reportagem. A maior rubrica do documento, com 1.827 registros, é literalmente denominada “atendimento médico em unidade de pronto atendimento”.
O que o hospital declara sobre si mesmo
O relatório de Atendimentos e Procedimentos Realizados do Hospital Estadual José Furtado de Mendonça, unidade da Secretaria de Estado da Saúde do Piauí (SESAPI) instalada na Rua Coletor José Araújo, S/N, Centro, em São Miguel do Tapuio, CNPJ 06.553.564/0007-23, referente a maio de 2026, é datado de 5 de junho e foi assinado digitalmente via Documentação Web do TCE-PI em 30 de junho de 2026, às 16h15, por Janilson Rodrigues Alves, diretor geral, e por Igo Santos Barros. A via física traz ainda a assinatura de José Cacio Alves Nogueira, coordenador do Serviço de Arquivo Médico e Estatística (SAME).
É fato que os números declarados são estes:
| Bloco | Total | O que está dentro |
|---|---|---|
| Ambulatorial | 600 | 323 radiologias, 107 exames de laboratório, 86 eletrocardiogramas, 84 transferências, zero biópsias |
| Internações | 21 | 14 clínicas, 5 pediátricas, 2 obstétricas, zero cirúrgicas |
| Emergência (bloco principal) | 3.483 | 1.827 atendimentos tipo UPA, 1.306 administrações de medicamentos, 252 observações até 24h, 8 linhas zeradas |
| Emergência (bloco complementar) | 478 | 167 atendimentos de serviço social, 101 injeções, 93 fisioterapias, zero pequenas cirurgias |
É fato que as duas maiores rubricas da emergência, atendimento tipo UPA e administração de medicamentos, somam 3.133 registros, o equivalente a 90% do bloco principal. E é avaliação desta redação que administração de medicamentos, um ato de enfermagem que decorre de um atendimento, contabilizada como atendimento, infla a produção declarada: expurgadas essa rubrica e as aplicações de injeção, a produção assistencial efetiva da emergência cai de 3.961 para 2.554 registros no mês.
Um hospital que despacha
É fato que as 84 transferências representam 14% de todo o bloco ambulatorial e o quádruplo das internações. O documento não informa para onde os pacientes foram enviados, por qual meio de transporte, nem quanto tempo esperaram por regulação. Em um município com a extensão territorial de São Miguel do Tapuio, cada transferência significa horas de deslocamento adicional para o paciente e sua família.
É fato que a unidade registrou apenas 2 internações obstétricas no mês e que o formulário sequer possui linha para partos. O relatório não permite saber se o hospital realiza partos ou se todas as gestantes do município são transferidas.
É avaliação desta redação que o conjunto (nenhum ato cirúrgico de qualquer porte, transferência como principal desfecho, produção concentrada em pronto atendimento e medicação) descreve uma unidade que perdeu, ou nunca teve em operação, as funções que justificam o nome de hospital estadual. Se o centro cirúrgico existe, está parado. Se não existe, o nome da unidade promete o que a estrutura não entrega.
O padrão que se repete na rede
Esta é a segunda unidade da SESAPI cujo demonstrativo mensal esta redação analisa, e o padrão se repete. No Hospital Regional de Amarante, o censo de junho de 2026 registrou produção zerada em áreas inteiras, 41% de transferências entre os internados e inconsistências entre seções do mesmo relatório, como esta redação mostrou. Em São Miguel do Tapuio, o retrato é o mesmo: zeros assistenciais, transferência como regra e um formulário que não permite ao TCE-PI, nem a nenhum cidadão, cruzar o que a unidade produz com o que a unidade custa.
É avaliação desta redação que essa opacidade não é acidente de formulário. Demonstrativos sem leitos, sem ocupação, sem despesa e sem padronização entre unidades da mesma secretaria transformam a prestação de contas mensal em formalidade: o papel chega ao tribunal, o controle não chega ao gasto.
Perguntas que permanecem abertas
Quantos leitos a unidade mantém ativos e qual foi a taxa de ocupação em maio de 2026. Qual é o custo mensal da unidade, incluindo pessoal, plantões, credenciamentos e insumos. Para quais cidades foram transferidos os 84 pacientes e por qual meio. Por que não há registro de nenhum procedimento cirúrgico, nem mesmo ambulatorial. Se há centro cirúrgico instalado e por que não opera. Qual é o fluxo assistencial para as gestantes do município.
Contraditório
O espaço está aberto à Secretaria de Estado da Saúde do Piauí (SESAPI) e à direção do Hospital Estadual José Furtado de Mendonça para todos os esclarecimentos que entenderem necessários sobre os dados do demonstrativo de maio de 2026. A Rádio Calçada publica na íntegra as respostas que forem encaminhadas.
Aos órgãos de controle
A Rádio Calçada solicita ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí (TCE-PI), ao Ministério Público de Contas (MPC-PI) e ao Ministério Público do Estado do Piauí (MP-PI) manifestação sobre a compatibilidade entre a estrutura mantida pela SESAPI em São Miguel do Tapuio e a produção declarada pela própria unidade, e sobre a exigência de padronização e completude dos demonstrativos mensais protocolados via Documentação Web.














