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julho 25, 2026 20:10

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Um mês depois do “dia histórico”, o minério do Porto Piauí continua no mesmo lugar

KONTA II completa 30 dias na costa de Luís Correia sem concluir o transbordo; estadia das embarcações custa até R$ 100 mil por dia e canal precisou de aprofundamento emergencial para tentar viabilizar a saída do navio

Por Trabulo Júnior  e Trabulo Neto 

No dia 24 de junho, um helicóptero sobrevoou o litoral de Luís Correia. A bordo, o governador Rafael Fonteles acompanhou a atracação do graneleiro KONTA II no Berço 401 e declarou encerrada uma espera de 116 anos. Nesta sexta-feira, 24 de julho, completa-se um mês da chegada da embarcação à costa piauiense. O helicóptero voltou. O navio ficou. O minério também.

É fato que, até a publicação desta matéria, nenhuma tonelada de minério de ferro deixou o Piauí pelo Porto Piauí.

É fato que a permanência das embarcações envolve despesas estimadas em até R$ 100 mil por dia. Sobre essa base, o primeiro mês da operação inaugural acumula cerca de R$ 3 milhões em custos de estadia.

A promessa

É fato que a Companhia Porto Piauí S.A., empresa de capital misto vinculada ao Governo do Estado e à Investe Piauí, anunciou uma operação de mais de 110 mil toneladas de minério de ferro com destino à China. A Lion Mining firmou contrato de longo prazo para escoar até 10 milhões de toneladas pelo terminal.

O desenho divulgado prevê três embarcações. O KONTA II, graneleiro de 109 metros e capacidade de cerca de 9 mil toneladas por viagem, é carregado no cais e navega até a área de fundeio, onde um navio-pulmão com guindastes e esteiras transfere a carga para um oceânico da classe Capesize, com capacidade superior a 100 mil toneladas. A companhia situa o fundeio a aproximadamente 30 quilômetros da costa.

A aritmética da operação é pública e esta redação a refaz: 110 mil toneladas divididas por 9 mil toneladas por viagem exigem cerca de 13 idas e voltas do KONTA II entre o Berço 401 e o fundeio. Em trinta dias, o navio completou zero.

O que travou

É fato que a primeira tentativa de transbordo fracassou porque a embarcação de apoio não conseguiu navegar com segurança até o ponto de encontro, em razão das limitações de profundidade do canal de acesso. É fato que, desde a chegada dos navios, a empresa responsável pela exportação executa serviços de sondagem e aprofundamento do canal para tentar garantir a saída do KONTA II carregado. Imagens da área registraram máquinas ampliando a profundidade nas proximidades do porto e pequenas embarcações encalhadas na região.

É fato que o Governo do Estado anunciou nova tentativa de transbordo na segunda-feira, 20 de julho, e que a operação entrou no dia seguinte no segundo dia consecutivo de tentativas, sem confirmação de conclusão.

É fato que a cobrança chegou ao campo político. O vereador de Teresina Pedro Alcântara esteve no terminal e publicou vídeo questionando o atraso: “Estive no Porto Piauí e, até agora, nada de minério seguindo para a China”.

O canal que denuncia o porto

Aqui a cronologia importa, porque o Governo do Estado a escreveu com as próprias mãos. No mesmo comunicado em que celebrou a primeira atracação, a gestão informou ter garantido recursos para ampliar a profundidade do canal de acesso para 11,5 metros e executar dragagens de manutenção.

É avaliação desta redação que não existe leitura inocente para esse anúncio. Um governo que celebra a operação de um canal e, no mesmo texto, reserva recursos para aprofundá-lo em mais de 4 metros está admitindo, por escrito, que a profundidade atual não sustenta a operação que celebra.

Esta redação já documentou a distância entre a profundidade oficial declarada de 7 metros e leituras de sonar que sugerem valores inferiores. Documentou também o histórico de contratos de dragagem no complexo de Luís Correia, que soma aproximadamente R$ 68 milhões pagos à DTA Engenharia , além do galpão inflável de R$ 9,5 milhões. O canal que hoje prende o KONTA II é o mesmo canal que já consumiu dezenas de milhões em dragagem.

Tem sentido um porto assim?

O transbordo entre embarcações é técnica legítima. O próprio governo citou Equador, Singapura e Guiné-Bissau como precedentes, e apresentou o modelo como forma de dispensar estruturas portuárias complexas e antecipar o cronograma em até três anos.

É avaliação desta redação que a técnica pressupõe uma condição elementar: que o navio-lançadeira consiga navegar carregado entre o cais e o fundeio. O transbordo existe no mundo para contornar portos rasos que não recebem navios grandes. Em Luís Correia, o gargalo desceu um degrau: o canal não libera nem o navio pequeno. Quando isso acontece, o modelo deixa de contornar a limitação do porto e passa a reproduzi-la em miniatura, com a diferença de que agora há três embarcações paradas em vez de nenhuma, e um taxímetro de seis dígitos correndo por dia.

É fato que o cais foi concluído em 14 meses, com investimento anunciado de R$ 200 milhões. É fato que sobre essa mesma estrutura o governo empilhou compromissos: parceria de R$ 25 milhões com a CNAGA para terminal de contêineres, mais de R$ 30 milhões em urbanização do terminal pesqueiro, acordo com a Czarnikow Brasil para embarque de grãos ainda em 2026 e projeto de fertilizantes marinhos com a Oceana Minerals. É avaliação desta redação que cada um desses anúncios depende da variável que mantém o KONTA II parado há trinta dias: a navegabilidade real do canal, e não a declarada.

O que esta redação solicita aos órgãos de controle

Esta redação solicita ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí (TCE-PI) e ao Ministério Público de Contas (MPC-PI) que examinem: as batimetrias e sondagens que fundamentaram a autorização da operação inaugural; a compatibilidade entre a profundidade declarada do canal e o calado do KONTA II carregado; a titularidade e o montante dos custos de estadia das embarcações desde 24 de junho; e a execução dos contratos de dragagem no complexo portuário de Luís Correia, com os valores pagos e os resultados aferidos.

Contraditório

Esta redação entra em contato com a Companhia Porto Piauí S.A., com o Governo do Estado do Piauí e com a Lion Mining e formula as seguintes perguntas: qual a profundidade batimétrica atual do canal de acesso, aferida por sondagem independente; por que a primeira tentativa de transbordo não se concretizou; qual o custo diário de estadia das embarcações e quem o suporta; e qual o cronograma revisado para a conclusão do primeiro carregamento. O espaço permanece aberto e as respostas, quando enviadas, são publicadas na íntegra.

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