A Construtora Solução, com R$ 554,2 milhões pagos, e a Poty, com R$ 166,7 milhões, pertencem ao empresário Felipe de Santana Machado, o Felipinho. Levantamento da Rádio Calçada em 600.384 empenhos mostra ainda outros R$ 229,2 milhões pagos a dois consórcios que trazem o nome de uma das empresas na razão social. O empresário é apontado por veículos locais como pessoa próxima do governador Rafael Fonteles.
Jornalista Trabulo Neto (registro 0002880/PI)
A Rádio Calçada analisou a base completa de empenhos do Portal da Transparência do Piauí, com 600.384 registros de despesa entre 13 de janeiro de 2023 e 29 de julho de 2026. O levantamento mostra que duas construtoras registradas em nome do mesmo empresário receberam, somadas, R$ 720,9 milhões pagos pelo governo do Estado nesse período.
A Construtora Solução, CNPJ 24.667.970/0001-03, recebeu R$ 554,2 milhões em 454 notas de empenho. Desse total, R$ 534,6 milhões foram pagos no elemento de despesa “obras e instalações”. A Poty Construtora e Empreendimentos Imobiliários, CNPJ 17.323.084/0001-05, recebeu R$ 166,7 milhões em 91 notas.
As duas empresas pertencem ao empresário Felipe de Santana Machado, conhecido como Felipinho, conforme cadastros da Receita Federal, e funcionam no mesmo endereço em Teresina, no Edifício The Office Tower. Veículos locais, entre eles a revista El Piauí, em 2021, e o Portal de União, em 2022, descrevem o empresário como pessoa próxima do governador Rafael Fonteles.
Uma empresa, dois nomes no portal
A Construtora Solução aparece na base do Estado sob duas denominações diferentes, com o mesmo CNPJ. Até 2025, os pagamentos estão lançados como “Construtora Solução Eireli”. Em 2026, os R$ 104 milhões pagos no ano aparecem como “Construtora Solução Ltda”.
A mudança é de tipo societário, não de empresa. O CNPJ 24.667.970/0001-03 é o mesmo nos dois casos. O efeito prático é que qualquer cidadão que pesquise o nome exato de uma das razões sociais no Portal da Transparência vai encontrar apenas parte do dinheiro. Quem procurar por “Construtora Solução Eireli” não verá os R$ 104 milhões de 2026. Quem procurar por “Construtora Solução Ltda” não verá os R$ 450,2 milhões dos três anos anteriores.
O dinheiro pago à empresa está espalhado por nove órgãos. Os maiores são a Secretaria da Infraestrutura, com R$ 143,2 milhões, a Secretaria dos Transportes, com R$ 126,3 milhões, e a Secretaria do Agronegócio, com R$ 124,7 milhões. Aparecem ainda Cidades, Turismo, Defesa Civil, Irrigação, Governadoria e Agricultura Familiar.
A segunda camada: os consórcios
Além dos pagamentos feitos diretamente às duas empresas, a base registra pagamentos a consórcios. Consórcio é uma união temporária de empresas para executar uma obra específica. Ele recebe CNPJ próprio, assina o contrato e recebe o dinheiro do Estado. A repartição interna entre as empresas que o formam não aparece no Portal da Transparência.
Dois desses consórcios trazem o nome da Construtora Solução na própria razão social registrada no portal:
O Consórcio Solução & BS TD-02, CNPJ 55.373.300/0001-08, recebeu R$ 136,4 milhões em 25 notas. O contrato é o 059/2024, da Secretaria dos Transportes, para o programa de manutenção e segurança das rodovias estaduais no Território de Desenvolvimento dos Cocais.
O Consórcio Solução & BS TD-01, CNPJ 57.213.648/0001-63, recebeu R$ 92,8 milhões em 22 notas. O contrato é o 073/2024, também da Secretaria dos Transportes, para o mesmo programa no Território da Planície Litorânea.
Os dois somam R$ 229,2 milhões. A outra empresa citada na razão social dos consórcios, a BS Construções, CNPJ 17.780.223/0001-11, recebeu ainda R$ 107,7 milhões diretamente, em contratos próprios com Transportes, Cidades, Agronegócio, Defesa Civil e Governadoria.
Por que isso importa
Todos os contratos citados foram precedidos de licitação. Nos pagamentos à Construtora Solução, 89% correram por concorrência. Nos dois consórcios que levam o nome da empresa, a modalidade é concorrência em 100% do valor pago. Não há, nos dados analisados, registro de dispensa de licitação nesses contratos.
É avaliação desta redação que o problema aqui não é a modalidade, e sim a visibilidade. O Portal da Transparência do Piauí permite hoje que o mesmo CNPJ apareça sob dois nomes, e que uma parte relevante do dinheiro de obra saia para consórcios cuja composição o próprio portal não revela. O resultado é que o cidadão que queira saber quanto uma empresa recebeu do Estado não consegue chegar ao número sem refazer o cruzamento por CNPJ, registro a registro.
A curva da Poty
Enquanto a Solução manteve volume alto e recebeu R$ 104 milhões já em 2026, a Poty seguiu o caminho inverso. Recebeu R$ 105,8 milhões em 2023, R$ 42,4 milhões em 2024, R$ 16,8 milhões em 2025 e R$ 1,7 milhão até 29 de julho de 2026. É uma queda de 98% entre o primeiro e o quarto ano do governo. Os contratos remanescentes da empresa estão concentrados na Secretaria da Infraestrutura, em pavimentação em paralelepípedo e recuperação de estradas vicinais.
Limites desta apuração
Os valores citados são pagamentos efetivamente realizados no exercício, e não valores de contrato. Uma obra contratada em um ano e paga em outro aparece pelo desembolso, não pelo valor assinado. A base cobre o Poder Executivo estadual e não alcança Assembleia Legislativa, Tribunal de Contas, Ministério Público e Tribunal de Justiça. Os dados de 2026 vão até 29 de julho.
A titularidade das empresas e o endereço comum foram apurados em cadastros da Receita Federal. A caracterização de proximidade entre o empresário e o governador é atribuída a veículos locais e não é afirmação desta redação.
OUTRO LADO
A Rádio Calçada solicita manifestação da Construtora Solução, da Poty Construtora e Empreendimentos Imobiliários, da BS Construções, do empresário Felipe de Santana Machado, do Consórcio Solução & BS TD-01, do Consórcio Solução & BS TD-02, dos Consórcios S & B Litorânea TD1, S & B Entre Rios, S & B PI-110, S & B e S & B Porto LC, do Governo do Estado do Piauí, da Secretaria dos Transportes, da Secretaria da Infraestrutura e da Secretaria das Cidades.
A Rádio Calçada pergunta especificamente quais empresas compõem cada um dos consórcios citados e solicita cópia dos respectivos atos constitutivos.
A Rádio Calçada solicita ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí, ao Ministério Público de Contas e ao Ministério Público do Estado do Piauí manifestação sobre a identificação da composição de consórcios contratados pelo Estado no Portal da Transparência.
As respostas são publicadas na íntegra.
Contato: consultor@xconexoes.com.br














