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julho 25, 2026 19:45

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Defesa Civil, Irrigação e Agronegócio calçando rua: nove órgãos do governo do Piauí formalizam mais de R$ 55 milhões em pavimentação em cinco dias

Em uma única edição do diário oficial, às vésperas do período eleitoral, o mesmo tipo de obra aparece pulverizado por secretarias sem vocação de infraestrutura, com preços por metro quadrado que variam 24% entre os órgãos, de R$ 130 a R$ 162

Investigação e denúncias: Jornalistas Trabulo Neto 0002880/PI e Trabulo Júnior 0014965/DF

O diário oficial do Estado do Piauí do dia 10 de julho de 2026, edição nº 131/2026, registra um fenômeno que nenhum contrato isolado revela, mas que o conjunto escancara: pelo menos nove órgãos e entidades estaduais diferentes formalizaram, entre os dias 6 e 10 de julho, contratos, ordens de serviço, homologações e avisos de licitação para o mesmíssimo objeto, a pavimentação de vias públicas, somando mais de R$ 55 milhões.

Entre os contratantes estão a Secretaria de Estado da Defesa Civil, a Secretaria da Irrigação e Infraestrutura Hídrica, a Secretaria do Agronegócio e Empreendedorismo Rural, a Secretaria do Desenvolvimento Econômico e até a Companhia Ferroviária e Logística do Piauí, órgãos cuja missão legal nada tem a ver com calçamento de rua.

O inventário de uma única edição

É fato que constam do diário oficial do dia 10 de julho de 2026 os seguintes atos de pavimentação:

SEDEC (Defesa Civil): quatro concorrências eletrônicas homologadas. Aroazes, 7.070 m², R$ 1.018.083,86, empresa DORO Construções; Teresina, 3.574,80 m², R$ 500.000,00, empresa M C Ferreira Filho; Wall Ferraz, 7.590 m², R$ 1.049.405,10, empresa R N Engenharia; José de Freitas, 18.641,40 m², R$ 2.487.430,11, Construtora Máxima. Além de dispensa de licitação de R$ 79.771,44 para 600 m² em União, custeada por emenda parlamentar impositiva do deputado Severo Eulálio, contratada a empresa I de Sousa Pimentel Filho LTDA.

SECID (Cidades): dois contratos com a mesma empresa, V M Veloso Cerqueira LTDA, ambos em Teresina: povoado Ave Verde, 8.049,50 m², R$ 1.284.193,40; e Vila Nova Conquista, 7.313,50 m², R$ 1.185.100,45. Mais ordem de serviço de R$ 904.056,01.

SIDERPI (Integração Regional): o maior contrato urbano da edição, R$ 13.975.273,02, com a MTC Construção, para pavimentação asfáltica em CBUQ de 122.132 m² na zona urbana de Teresina.

SEFIR (Irrigação e Infraestrutura Hídrica): R$ 1.198.071,89 para 7.688 m² em Dirceu Arcoverde, empresa F B Serviços.

SDE (Desenvolvimento Econômico): R$ 1.018.268,32 para 7.800 m² no povoado Porão, em Capitão de Campos, empresa WR Construções. E novo aviso de licitação para 11.617,90 m² em povoados de Joca Marques.

SEAGRO (Agronegócio): R$ 1.486.915,81 para 9.276 m² em Joaquim Pires, empresa Aliança Construções, além de aditivos de prorrogação de obras em Queimada Nova e São Francisco de Assis.

CFLP (Ferroviária): R$ 28,2 milhões para asfaltar a rodovia PI-411 e R$ 2,7 milhões em praças e pista de cooper, caso detalhado em matéria própria desta redação.

IDEPI e SEINFRA: designações de fiscais e homologações de pavimentação em Nazária (empresa LCB Distribuição) e ponte em Beneditinos (R$ 933.792,83).

Preços que variam 24% para o mesmo serviço

Onde os extratos informam área e valor, é possível calcular o preço por metro quadrado de paralelepípedo praticado por cada órgão. É fato que os valores variam de forma expressiva para o mesmo tipo de obra, na mesma janela de tempo: a SEDEC pagou de R$ 132,95 a R$ 144,00 por m² em União, José de Freitas, Wall Ferraz, Teresina e Aroazes; a SECID, R$ 159,54 e R$ 162,04 por m² em Teresina; a SEFIR, R$ 155,84 por m² em Dirceu Arcoverde; a SDE, R$ 130,55 por m² em Capitão de Campos; e a SEAGRO, R$ 160,30 por m² em Joaquim Pires.

É fato que, entre o menor preço (R$ 130,55/m², SDE) e o maior (R$ 162,04/m², SECID), a diferença é de R$ 31,49 por metro quadrado, uma variação de 24%. E a geografia dos preços é invertida: os dois valores mais altos foram pagos pela SECID em obras dentro de Teresina, onde a logística é a mais barata do Estado, enquanto o mais baixo foi pago pela SDE em um povoado rural de Capitão de Campos, quando a regra de mercado é o interior custar mais caro que a capital, e não o contrário. Aplicada aos 77.603,20 m² contratados com preço identificável nesta edição, a diferença entre pagar o preço médio praticado e o menor preço aceito pelo próprio Estado na mesma semana supera R$ 1,1 milhão. É avaliação desta redação que a fragmentação do mesmo objeto por nove unidades gestoras diferentes é exatamente o que impede a comparação sistemática desses preços pelos órgãos de controle.

O calendário

É fato que praticamente todas as assinaturas e homologações se concentram entre 6 e 10 de julho de 2026, poucos dias antes da abertura do período de registro de candidaturas das eleições de 2026, quando a legislação eleitoral passa a impor restrições progressivas à conduta dos agentes públicos.

É avaliação desta redação que o padrão documentado nesta edição, o mesmo objeto pulverizado por órgãos sem vocação de infraestrutura, com assinaturas concentradas às vésperas do calendário eleitoral e preços díspares entre contratantes, configura distribuição eleitoral de obras e exige resposta institucional. Um lance vencedor no valor exato e redondo de R$ 500.000,00, como o registrado na Concorrência Eletrônica nº 041/2026 da SEDEC, é estatisticamente atípico em licitações de menor preço, cujas propostas derivam de planilhas de custos unitários, e reforça a necessidade de acesso às atas das sessões.

Contraditório

A reportagem encaminha os seguintes questionamentos à Secretaria de Governo, à SEDEC, à SECID, à SIDERPI, à SEFIR, à SDE e à SEAGRO e solicita resposta:

  1. Qual critério define que uma obra de pavimentação seja contratada pela Defesa Civil, pela Irrigação, pelo Agronegócio ou pelo Desenvolvimento Econômico, e não pelos órgãos de infraestrutura do Estado?
  2. Existe tabela referencial única de preços por metro quadrado de pavimentação em paralelepípedo utilizada por todos os órgãos estaduais? Em caso afirmativo, qual é o valor de referência vigente?
  3. Como se explica a variação de R$ 130 a R$ 162 por metro quadrado entre contratos assinados na mesma semana para o mesmo tipo de serviço?
  4. Quantas empresas participaram da Concorrência Eletrônica nº 041/2026 da SEDEC, vencida por proposta no valor exato de R$ 500.000,00, e quais foram os lances de cada licitante?
  5. Qual é a relação dos municípios beneficiados por obras de pavimentação estadual em 2026 e o critério técnico de priorização desses municípios?
  6. Quais dessas contratações são custeadas por emendas parlamentares impositivas e quais são os autores das emendas?

O espaço segue aberto para as respostas, que serão publicadas na íntegra.

Aos órgãos de controle

Esta redação solicita ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí (TCE-PI), ao Ministério Público de Contas do Piauí (MPC-PI) e ao Ministério Público do Estado do Piauí (MP-PI) que examinem, de forma consolidada e não órgão a órgão, o conjunto das contratações de pavimentação formalizadas pelo governo estadual na edição nº 131/2026 do diário oficial, incluindo a comparação dos preços unitários praticados, o critério de distribuição de obras entre órgãos sem competência finalística de infraestrutura e a compatibilidade do calendário de assinaturas com as vedações da legislação eleitoral.

Havendo manifestação de qualquer dos órgãos, esta redação se compromete a publicá-la na íntegra.


Nota metodológica: os preços por metro quadrado foram calculados por esta redação pela divisão do valor global pela área informada em cada extrato publicado no diário oficial nº 131/2026, de 10 de julho de 2026, considerando apenas os atos que informam simultaneamente área e valor. Os cálculos não incluem eventuais diferenças de escopo entre as obras (drenagem, meio-fio, sinalização) que constem apenas dos projetos básicos de cada processo. Não se afirma sobrepreço em nenhum contrato individual.


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