O que Rafael Fonteles precisa responder no debate de hoje. Porto, hidrogênio verde, hidrovia, inteligência artificial e crédito de carbono foram anunciados. Faltam os números.
Editorial da Rádio Calçada. Por Trabulo Neto (MTb 0002880/PI)
Hoje, às 20h, a TV Band Piauí realiza o primeiro debate entre os candidatos ao Governo do Estado. Estão confirmados Rafael Fonteles (PT), Joel Rodrigues (PP), Lúcia Santos (PSDB), Gisvaldo Oliveira (PSOL) e Elizeu Aguiar (Novo).
Antes disso, é preciso dizer uma coisa.
Existe um jeito de governar em que o anúncio é o produto. Não a obra. Não o serviço. Não o resultado. O anúncio.
A pedra fundamental. A assinatura do protocolo. O palco em Dubai. O painel em Roterdã. A foto com o ministro. O número em bilhões.
O anúncio tem uma vantagem enorme sobre a obra. Ele fica pronto no mesmo dia.
Nesses quatro anos, o governo de Rafael Fonteles construiu o Piauí mais anunciado da história. E é preciso dizer com todas as letras o que paga esse Piauí anunciado: o dinheiro de quem compra arroz, gás de cozinha e remédio pagando o segundo maior ICMS do Brasil.
O porto
O Porto Piauí é a peça central da propaganda. Foram 116 anos de espera, disse a nota oficial.
No dia 5 de agosto de 2026, o governo anunciou a primeira exportação. Um navio pequeno sairia do berço 401 com 9 mil toneladas. E, no fim da operação, um navio grande partiria com 110 mil toneladas de minério para a China.
No dia 9 de agosto, o rastreamento por satélite mostrava esse navio grande, o MARINE VICTORY, a mais de 600 quilômetros daqui. Ele ia para Belém, no Pará. E boiava alto na água, do jeito que navio vazio boia.
Os outros três navios continuavam parados na frente de Luís Correia.
Faça a conta. Cada viagem do navio pequeno leva 9 mil toneladas. Para juntar 110 mil, precisaria de doze viagens.
Não houve exportação de 110 mil toneladas. Houve o anúncio de uma exportação de 110 mil toneladas.
O hidrogênio verde
Na COP 28, em Dubai, em dezembro de 2023, o governador anunciou o maior projeto de hidrogênio verde do mundo, na ZPE de Parnaíba. Mais de R$ 100 bilhões em dez anos.
Depois o site da Investe Piauí passou a falar em mais de R$ 200 bilhões.
Em março de 2025, o Ministério do Desenvolvimento aprovou, no conselho das ZPEs, projetos de descarbonização em Parnaíba somando R$ 35 bilhões.
Cem bilhões. Duzentos bilhões. Trinta e cinco bilhões. Três números oficiais para o mesmo projeto. E nenhum deles é uma fábrica funcionando.
Tem mais uma coisa, e essa o povo do Delta precisa saber.
Em setembro de 2025, a Agência Pública mostrou que a licença ambiental do empreendimento não incluiu a captação de 3,8 milhões de litros de água por dia do rio Parnaíba. O rio é federal e corre dentro de uma área de proteção ambiental.
A hidrovia
Em 2025, a União passou ao Piauí a competência sobre a Hidrovia do Rio Parnaíba. Foi anunciado R$ 995 milhões do governo federal para revitalizar o rio e devolver a navegação. Mais de 900 quilômetros. Projeção de 4 a 5 milhões de toneladas de grãos por ano dentro de três anos de operação.
Agora repare no que foi prometido ao mesmo rio, ao mesmo tempo.
O Parnaíba tem que ficar fundo o bastante para navio de 90 metros passar carregado.
O Parnaíba tem que entregar 3,8 milhões de litros por dia para a fábrica de hidrogênio.
E o Parnaíba tem que continuar dando água para mais de 200 municípios, num semiárido que seca todo ano.
É avaliação desta redação que ninguém apresentou ao povo do Piauí essa conta somada, e que ninguém explicou publicamente de onde sai água para as três coisas ao mesmo tempo.
A inteligência artificial
O Piauí criou uma Secretaria de Inteligência Artificial pela Lei Estadual 8.369, de abril de 2024. Lançou o SoberanIA. Apresentou o projeto em Brasília.
O balanço oficial de 2025 diz que o programa de formação da secretaria capacitou 1.478 pessoas no ano, entre servidores, estudantes e população em geral. O Piauí tem mais de três milhões de habitantes.
Não tem nada de errado em um estado pobre investir em tecnologia. Tem muita coisa errada em um estado pobre investir em vitrine tecnológica antes de resolver a torneira.
O crédito de carbono
A caatinga piauiense foi apresentada como ativo climático. O Plano Estadual de Ação Climática foi lançado. O Piauí se colocou como candidato ao mercado de carbono.
Até aqui, esta redação não achou publicação oficial de contrato assinado, de volume vendido nem de dinheiro entrado no cofre do Estado por essa via.
Se existe, o governo tem o dever de publicar. Se não existe, é mais uma vitrine.
Agora a outra coluna da conta
Enquanto o Piauí era vendido lá fora como potência verde, este era o Piauí aqui dentro.
Imposto. A alíquota geral de ICMS aqui é de 22,5%, a segunda maior do Brasil. Isso está dentro do preço do gás, do arroz, da roupa e do remédio. Todo piauiense paga, inclusive quem não sabe que paga.
Água e esgoto. O Piauí é o último do Brasil em rede de esgoto, com cerca de 13% das casas atendidas, segundo a PNAD Contínua de 2024. O saneamento foi entregue a uma concessão privada de 35 anos, o Contrato 648/2024, de R$ 9,557 bilhões.
Aeródromo. O governo aplicou entre R$ 90 milhões e R$ 103 milhões em aeródromos no interior. Cidades vizinhas a pistas novas estão entre as que mais dependem de carro-pipa. Pista de pouso onde falta caixa d’água.
Segurança. Só 56 dos 224 municípios do Piauí têm uma unidade de polícia judiciária. São 168 cidades sem delegacia. No interior, 102 unidades são divididas entre 68 delegados. Tem delegado respondendo por doze cidades ao mesmo tempo.
Saúde. A fila de regulação do SUS continua sendo o lugar onde o piauiense pobre espera. O Hospital São Marcos, referência em oncologia, atravessa crise de financiamento.
Dívida. No período, foram autorizadas operações de crédito que somam cerca de R$ 25 bilhões, entre dinheiro novo e reestruturação de dívida antiga. Dá perto de R$ 7.497 por habitante do Piauí. Incluindo quem não tem esgoto em casa.
Propaganda. Em quatro anos, o governo empenhou R$ 417 milhões em comunicação. Desse total, 99,66% saiu sem licitação. Houve um único pregão em toda a série, de R$ 96 mil.
Esse último número merece ser lido devagar. O Estado do Anúncio gastou, para anunciar, mais do que gastou em quase tudo que o povo pede.
O ponto
É avaliação desta redação que o governo Rafael Fonteles trocou a ordem das coisas.
Primeiro veio a vitrine lá fora. O esgoto ficou para depois.
Primeiro veio a inteligência artificial. O delegado ficou para depois.
Primeiro veio o navio para a foto. A fila do SUS ficou para depois.
E o piauiense pagou os dois lados. Pagou o imposto mais alto do Nordeste para sustentar a máquina, e continuou comprando água de pipa, esperando cirurgia e morando em cidade sem polícia.
Quem tem dinheiro resolve sozinho a falta de esgoto, a falta de polícia e a fila do SUS. E ainda aplaude o hidrogênio verde no telejornal. Quem não tem dinheiro fica com o que o Estado deixou.
O Piauí não precisa deixar de sonhar grande. Precisa parar de ser governado por comunicado à imprensa.
As oito perguntas do debate
São simples. Cabem em um minuto de resposta cada uma. E todas têm resposta em documento, não em opinião.
1. Quantas toneladas de minério saíram mesmo do berço 401 entre 5 e 9 de agosto?
2. De onde vai sair a água da fábrica de hidrogênio, sem faltar para o povo?
3. O rio Parnaíba dá conta de navegação, indústria e abastecimento ao mesmo tempo? Onde está essa conta publicada?
4. Cem, duzentos ou trinta e cinco bilhões? Qual é o número certo do hidrogênio verde?
5. Por que R$ 417 milhões em propaganda com 99,66% sem licitação?
6. Quando as 168 cidades sem delegacia vão ter delegado, e quantos serão?
7. Qual é o tempo médio de espera na fila da regulação hoje, e qual era em 2023?
8. Com o segundo maior ICMS do Brasil, por que o esgoto do Piauí é o pior do país?
Contraditório
Este é um texto editorial e expressa a posição da Rádio Calçada.
Os cinco candidatos ao Governo do Piauí têm este espaço aberto. As respostas serão publicadas na íntegra, sem edição, do jeito que forem enviadas.














