A Ação Programática 2.1.1 do plano da oposição prevê auditoria integral de todos os contratos de gestão com OSS e o encerramento do modelo, com retomada da administração pelo Estado unidade por unidade. Nas 68 páginas do plano do governador, a expressão “Organizações Sociais” não aparece uma única vez
Trabulo Neto (0002880/PI) e Trabulo Júnior (0014965/DF)
Os dois principais candidatos ao governo do Piauí protocolaram na Justiça Eleitoral documentos que se propõem a governar o mesmo estado pelos mesmos quatro anos, de 2027 a 2030, e que quase não se parecem.
O plano do governador Rafael Fonteles (PT) se chama “O Povo do Piauí em Primeiro Lugar”, tem 68 páginas e foi finalizado em 27 de julho de 2026. Está organizado em 8 eixos, sendo um deles global, o Pacto pela Economia, e sete setoriais. Dentro dos eixos há 53 programas. Cada programa traz uma Meta Central, uma lista de indicadores de acompanhamento, chamados de KPIs, e a indicação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável a que se vincula. Abaixo dos programas há 200 metas específicas numeradas de 1 a 200.
O plano de Joel Rodrigues (Progressistas) tem 120 páginas e foi finalizado em 4 de agosto de 2026. Está organizado em 11 eixos, que se desdobram em 69 frentes estratégicas de atuação e em 299 ações programáticas numeradas. Cada ação traz um objetivo em texto corrido. Não há metas centrais, não há KPIs listados e não há numeração de metas.
Essa diferença de arquitetura não é detalhe de diagramação. Ela define o que o eleitor consegue cobrar depois.
Saúde: o único ponto em que os planos se chocam de frente
Aqui não há convergência possível entre os dois documentos.
A primeira ação programática do eixo de saúde de Joel Rodrigues, a de número 2.1.1, institui uma Auditoria Geral e um Plano de Intervenção e Retomada da Gestão Pública das Unidades de Saúde administradas por Organizações Sociais. O objetivo escrito no plano é realizar auditoria integral de todos os contratos de gestão celebrados com Organizações Sociais de Saúde, abrangendo custos, metas assistenciais, qualidade, compras, contratações, pessoal, patrimônio público, prestação de contas e regularidade jurídica.
E vai além da auditoria. O documento prevê promover o encerramento integral do modelo, por rescisão, denúncia ou não renovação dos ajustes, conforme o fundamento jurídico de cada contrato. O plano estabelece salvaguardas: transição individualizada unidade por unidade, inventário de bens, medicamentos, contratos, profissionais, dados clínicos e obrigações financeiras, e nenhum contrato encerrado sem plano prévio de continuidade, sem definição da autoridade gestora substituta e sem recomposição das equipes essenciais.
Em português claro: Joel Rodrigues protocolou na Justiça Eleitoral o compromisso de acabar com a gestão de hospitais públicos por Organizações Sociais no Piauí e devolver essas unidades à administração direta do Estado.
O plano de Rafael Fonteles não menciona as Organizações Sociais de Saúde uma única vez. O modelo de gestão da rede hospitalar não aparece como problema nem como tema no documento. O Programa 12, chamado Hospitais mais Eficientes e Humanizados, trata de modernizar, ampliar ou equipar os hospitais estaduais estratégicos, reduzir o tempo de espera na regulação e reduzir faltas em consultas e exames, sem tocar em quem administra as unidades.
É avaliação desta redação que esse é o ponto do confronto eleitoral com maior consequência prática e orçamentária, e é também aquele sobre o qual nenhum dos dois documentos apresenta números: Joel não estima quanto custa nem quanto tempo leva a retomada, e Fonteles não informa quanto do resultado que promete depende dos contratos de gestão em vigor.
A régua: quantos compromissos de cada plano têm número
A Rádio Calçada contou, um a um, os compromissos de cada documento que trazem algum algarismo verificável.
No plano de Rafael Fonteles, das 53 Metas Centrais, 28 trazem número e 25 não trazem. Entre as que trazem estão aumentar em 50% o rendimento domiciliar per capita, criar 100 mil novas oportunidades de trabalho, investir R$ 10 bilhões em infraestrutura pública, consolidar R$ 100 bilhões de investimento privado, regularizar 200 mil imóveis, reduzir a taxa de homicídios para 10 ou menos por 100 mil habitantes, elevar em 20% o Ideb do ensino médio, admitir 5.000 novos servidores concursados e investir R$ 2 bilhões em água e esgoto.
Abaixo das Metas Centrais, porém, a régua afrouxa. Das 200 metas específicas, apenas 19 contêm qualquer algarismo, e boa parte desses números não é meta e sim descrição de território, como os 12 territórios de desenvolvimento, os 224 municípios ou as 21 Gerências Regionais de Educação. Os verbos que mais abrem essas 200 metas são “Ampliar”, que aparece 35 vezes, “Consolidar”, 18 vezes, “Implantar” e “Fortalecer”, 16 vezes cada, “Garantir”, 12 vezes, e “Apoiar”, 11 vezes. São verbos que não dizem quanto nem até quando.
O documento se apresenta na página inicial como um “contrato de gestão com o povo do Piauí”, e afirma que cada promessa vem acompanhada do instrumento que permite verificá-la. É avaliação desta redação que a afirmação vale para o andar de cima do plano, o das 53 Metas Centrais, e não vale para o andar de baixo, o das 200 metas específicas, que é justamente o número que a campanha mais divulga.
No plano de Joel Rodrigues, a contagem é mais simples. Em 120 páginas e 299 ações programáticas, há uma única meta percentual em todo o documento: alcançar 90% dos alunos da rede pública com alfabetização adequada até o 2º ano, na Ação Programática 3.1.1.
Os compromissos numéricos do documento são poucos e todos de quantidade de equipamento, não de resultado: 12 policlínicas territoriais, na Ação 2.2.6; quatro Centros Hospitalares de Referência Macrorregional, na Ação 2.3.2; oito hospitais regionais de porte IV a requalificar, na Ação 2.3.3; e uma meta progressiva de resposta em menos de oito minutos aos acionamentos da Patrulha Maria da Penha nos territórios com condições operacionais, na Ação 4.1.4.
O plano de Joel também traz, na página 16, uma ressalva que vale para todo o documento: as propostas são diretrizes programáticas, a serem implementadas de forma gradual, observadas a legislação, a disponibilidade orçamentária e financeira e os limites da Lei de Responsabilidade Fiscal.
É avaliação desta redação que os dois documentos apostam em estratégias opostas de risco. O plano do governador entrega números que poderão ser cobrados contra ele em 2030. O plano do Joel entrega método e desenho institucional, mas quase nada que possa ser medido depois.
Saúde digital: manter a política ou mudar a forma de pagamento
O Piauí Saúde Digital aparece nos dois planos, com destinos diferentes.
No plano do governador, a Meta 37 consolida o programa como política permanente. O documento registra que o programa já ultrapassou 2 milhões de teleconsultas e telediagnósticos.
No plano de Joel Rodrigues, a Ação Programática 2.1.6 determina requalificar o teleatendimento digital. O objetivo escrito é ofertar novas especialidades, implantar a integração de prontuário, transformar volume de teleatendimento em acesso resolutivo e readequar a forma de pagamento per capita para pagamento por produção.
Vale traduzir. Pagamento per capita é quando o Estado paga um valor fixo por pessoa coberta, independentemente de quantos atendimentos foram efetivamente realizados. Pagamento por produção é quando o Estado paga pelo que foi feito. A troca de um pelo outro muda o contrato, muda o valor devido e muda o que precisa ser comprovado para receber.
Fila e cirurgia: o que os números do plano do governador realmente dizem
Parte da imprensa noticiou que Rafael Fonteles promete reduzir para 10 dias a espera por consulta especializada. O documento diz outra coisa.
O plano registra, no texto de abertura do Eixo 2, que o tempo médio de espera por consultas especializadas já caiu para 10 dias e que a espera por cirurgias eletivas foi reduzida de 464 dias em 2022 para 32 dias em 2026. A Meta Central do Programa 11 é garantir o tempo médio de espera por consultas especializadas e exames complementares em 10 dias em todas as unidades hospitalares de gestão estadual, além de consolidar as Centrais de Exames nas 28 microrregiões.
Ou seja: em consultas especializadas, a promessa é manter o patamar que o próprio governo declara já ter alcançado, e estendê-lo a todas as unidades estaduais. Em cirurgias eletivas, a Meta Central do Programa 12 é reduzir de 32 para 20 dias.
É avaliação desta redação que a distinção importa para o eleitor. Uma meta de manutenção e uma meta de redução exigem esforços diferentes e devem ser cobradas de formas diferentes.
Joel Rodrigues não fixa prazo em dias. A Ação Programática 2.2.2 propõe uma Fila Única Transparente, integrando em um só sistema as filas de consultas, exames e cirurgias eletivas, com classificação de risco, protocolos clínicos auditáveis, confirmação automática, gestão de faltas e informação ao usuário sobre sua posição e a previsão de atendimento.
Segurança: uma meta numérica de um lado, uma secretaria nova do outro
O plano de Rafael Fonteles fixa, na Meta Central do Programa 15, o Pacto pela Ordem, a redução da taxa de homicídios para valor igual ou inferior a 10 por 100 mil habitantes, e a redução em mais de 50% dos roubos e dos crimes vinculados a facções, tomando 2025 como ano de comparação.
Chegar a 10 por 100 mil, portanto, exige cortar mais 36% sobre um número que o governo já apresenta.
O plano de Joel Rodrigues não fixa meta numérica de homicídios. Sua principal proposta na área é institucional: a Ação Programática 4.1.1 cria a Secretaria Estadual de Segurança, Proteção e Cuidado da Mulher, a SESPRO-MULHER, como pasta de primeiro escalão, com estrutura técnica, territorial, administrativa e orçamentária própria. O documento também prevê o Alerta Rosa, de monitoração eletrônica de agressores com medida protetiva, o atendimento 24 horas nas delegacias especializadas da mulher, a Muralha Digital Piauí, com câmeras e leitura automática de placas nas divisas, e uma política permanente de enfrentamento a facções com investigação patrimonial.
Sobre efetivo policial, os documentos também divergem na forma. O plano do governador traz, na Meta 51, assegurar a ampliação do efetivo, sem número, e no Programa 48 a admissão de 5.000 novos servidores concursados em áreas estratégicas, sem discriminar quantos na segurança. O plano de Joel prevê recomposição de quadros e concursos públicos periódicos, também sem número.
ICMS: o tema que só existe em um dos planos
A redução do ICMS é a bandeira econômica de Joel Rodrigues e está no documento. A Ação Programática 5.1.1 institui o Programa Piauí Mais Competitivo, com redução gradual da alíquota geral do ICMS, de forma responsável e previsível, até alcançar a média competitiva do Nordeste. A Ação 5.1.2 propõe revogar a cobrança estadual de ICMS sobre a energia solar compensada, aquela que o consumidor gera, injeta na rede e depois abate da própria conta.
O plano não informa a alíquota de partida, a alíquota de chegada, o calendário da redução nem a estimativa de perda de arrecadação. Também não indica de onde virá a compensação, além da menção genérica ao combate à sonegação estruturada e à ampliação da formalização.
O plano de Rafael Fonteles não trata de alíquota de ICMS. As duas únicas menções ao imposto no documento são ao ICMS Ecológico, que é um mecanismo de repasse a municípios por critérios ambientais, e não tem relação com a carga tributária paga pelo consumidor.
Água e esgoto: os dois planos falam da concessão, e falam coisas diferentes
Os dois documentos tratam do contrato de concessão dos serviços de água e esgoto do Piauí. O tratamento é oposto.
O plano de Rafael Fonteles, no Programa 40, chamado Água e Saneamento para Todos, fixa a Meta Central de investir R$ 2 bilhões em obras de infraestrutura hídrica e esgotamento sanitário, por meio de recursos estaduais, federais e da concessionária. A Meta 151 prevê monitorar e publicar, em painel estadual atualizado, o cumprimento das metas contratuais de água e esgoto.
O plano de Joel Rodrigues cita o contrato pelo número. A Ação Programática 7.5.7 determina realizar auditoria territorial e regulatória da execução do Contrato nº 648/2024 e promover, pelas instâncias da MRAE e da AGRESPI, a revisão do Plano de Investimentos, das metas e dos cronogramas quando tecnicamente necessária. A Ação 7.5.6 institui auditoria técnica permanente e independente sobre a execução dos contratos de saneamento regionalizado e prevê, quando cabível e observado o devido processo legal, a adoção das medidas previstas na legislação e nos contratos, inclusive revisão, aplicação de penalidades ou eventual extinção da concessão.
É avaliação desta redação que essa é a segunda maior divergência entre os planos, atrás apenas das Organizações Sociais de Saúde, e a que menos apareceu na cobertura eleitoral até agora.
Nenhum dos dois documentos fixa meta percentual de cobertura de esgoto ou de água tratada. O plano do governador quantifica o investimento e não o resultado. O plano do adversário quantifica nem uma coisa nem outra.
O que nenhum dos dois planos diz
A Rádio Calçada procurou nos dois documentos os temas que dominaram a fiscalização das contas estaduais nos últimos quatro anos. O resultado é o mesmo dos dois lados.
A palavra publicidade não aparece em nenhum dos dois planos. A palavra propaganda aparece apenas duas vezes no plano de Joel, ambas em passagens de crítica genérica, e nenhuma vez no plano de Fonteles. Nenhum dos documentos apresenta compromisso sobre gasto com comunicação oficial, sobre licitação de publicidade ou sobre patrocínios.
Nenhum dos dois planos usa a palavra dívida. No plano de Rafael Fonteles há uma única menção a operações de crédito, na Meta 190, que prevê ampliar a capacidade de investimento do Estado por meio da melhoria da gestão fiscal, da captação de recursos e da utilização sustentável de operações de crédito. O Programa 50 estabelece como Meta Central manter a nota de Capacidade de Pagamento do Estado, a CAPAG, em patamar mínimo B. O plano de Joel Rodrigues não menciona operações de crédito nem endividamento em nenhuma das 299 ações.
Nenhum dos dois documentos trata de contratação de shows e apresentações artísticas.
Quem assina cada documento
O plano de Rafael Fonteles não traz ficha técnica com nomes. O documento informa que resultou de agendas nos doze territórios de desenvolvimento, de dez reuniões temáticas com os partidos da aliança e de uma plataforma colaborativa que recebeu 1.031 propostas vindas de 64 municípios, com cerca de 10 mil piauienses envolvidos direta ou indiretamente. A última página traz as logomarcas de PT, PV, PCdoB, MDB, PSD, PDT e Republicanos.
O plano de Joel Rodrigues traz ficha técnica na página 3. A coordenação geral é de Margarete Coelho, Antônio de Almendra Freitas Neto e João Vicente de Macêdo Claudino. A coordenação técnica e metodológica é de Josélia Rodrigues, James Rodrigues dos Santos, Nilson Ferreira de Souza, Anderson Emanuel Abreu Pereira e Aluysio Ricardo Nunes Fonseca. A lista de colaboração técnica traz 45 nomes.
Como o leitor pode conferir
Os dois documentos são públicos e estão disponíveis no DivulgaCandContas, o sistema do Tribunal Superior Eleitoral que reúne as informações das candidaturas registradas, no endereço divulgacandcontas.tse.jus.br. Basta selecionar Eleições 2026, o estado do Piauí e o cargo de governador. As propostas de governo ficam na aba de cada candidatura.
Todos os números desta reportagem foram extraídos diretamente dos dois arquivos protocolados, e não de material de campanha ou de divulgação. As contagens de metas, programas, eixos, frentes e ações programáticas foram feitas pela Rádio Calçada sobre o texto integral dos dois documentos.
Contraditório
A Rádio Calçada procura as campanhas dos dois candidatos.
À campanha de Rafael Fonteles, esta reportagem pergunta por que as 200 metas específicas do plano, apresentadas como instrumento de verificação, em sua maioria não trazem prazo nem valor numérico; se o compromisso de 10 dias para consultas especializadas é de manutenção do patamar atual ou de redução; e por que o documento não trata do modelo de gestão por Organizações Sociais na rede hospitalar estadual.
À campanha de Joel Rodrigues, esta reportagem pergunta qual é a estimativa de custo e de prazo do encerramento integral do modelo de Organizações Sociais previsto na Ação Programática 2.1.1; qual a alíquota de chegada e o calendário da redução do ICMS prevista na Ação 5.1.1, e qual a estimativa de renúncia de receita; e por que a promessa de mais de 5 mil contratados para a segurança, feita em convenção, não consta do documento protocolado.
As respostas de ambas as campanhas serão publicadas na íntegra, sem cortes.














