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agosto 11, 2026 17:44

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Quem paga salário no interior do Piauí?

Fora de Teresina, o município piauiense médio tem menos de setecentas pessoas com carteira assinada. A pergunta óbvia é quem emprega o resto. E a resposta não está publicada em lugar nenhum

Trabulo Neto (0002880/PI) e Trabulo Júnior (0014965/DF)

Reportagem da série “O trabalho que o Piauí tem”.

A pergunta

As reportagens anteriores desta série chegaram a um ponto em que a pergunta se impõe sozinha.

O Piauí tem 385.135 vínculos de trabalho com carteira assinada, segundo o Novo Caged. Desses, 234,7 mil estão em Teresina. Sobram 150.435 para os outros 223 municípios, o que dá uma média de 675 vínculos formais por cidade.

No mesmo estado, 546.474 famílias recebem Bolsa Família, e mais da metade da população ocupada está na informalidade.

Então a pergunta é direta: nos 223 municípios que não são a capital, quem paga salário?

Existe uma resposta que todo piauiense do interior daria sem pensar duas vezes: a prefeitura.

Esta reportagem mostra por que essa resposta provavelmente está certa, por que ela ainda não pode ser afirmada com número, e como a Rádio Calçada pretende medi-la.

O que já se sabe, com dado oficial

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do IBGE, mede a composição da ocupação por estado. No primeiro trimestre de 2026, o Piauí ficou assim:

Forma de ocupação % dos ocupados
Conta própria sem CNPJ 22,8%
Setor público 19,4%
Trabalho privado sem carteira assinada 18,8%
Conta própria com CNPJ 4,7%

Praticamente um em cada cinco piauienses que trabalham está numa folha de pagamento pública. Isso inclui as três esferas, federal, estadual e municipal, e inclui servidor concursado, contratado temporário, comissionado e militar.

Esse número é estadual, e é aí que está a limitação. Ele mistura Teresina, onde há universidade federal, tribunais, hospitais de referência, secretarias estaduais e um mercado privado robusto, com um município de cinco mil habitantes onde os empregadores se contam nos dedos.

É avaliação desta redação que, se o número estadual é de 19,4%, a fatia do setor público no interior é substancialmente maior, porque a média estadual está sendo puxada para baixo pela capital, que concentra quase 61% de todo o emprego formal privado do estado.

Mas avaliação não é medição. E medição é o que falta.

Por que ninguém publicou essa conta

Porque ela não existe pronta.

Para responder qual fatia do trabalho remunerado de cada município piauiense é folha pública, é preciso reunir três bases que ninguém cruza:

Uma. Quantos vínculos formais privados existem em cada município. Está no Novo Caged, do Ministério do Trabalho e Emprego. Com uma armadilha: o Caged registra apenas vínculos regidos pela CLT, então ele não enxerga o servidor estatutário. Numa cidade onde a prefeitura é o maior empregador, o maior empregador é justamente o que some da base.

Duas. Quanto cada prefeitura gasta com pessoal. Está no Relatório de Gestão Fiscal que todo município é obrigado a enviar ao Tesouro Nacional pela Lei de Responsabilidade Fiscal.

Três. Quantas pessoas cada prefeitura emprega. Está na Pesquisa de Informações Básicas Municipais, a MUNIC, do IBGE.

As três bases são públicas. As três são gratuitas. Nenhuma delas conversa com as outras, e nenhum órgão estadual ou federal publica o cruzamento.

Ou seja: a informação que descreve a estrutura econômica do interior piauiense está inteiramente disponível e inteiramente inacessível ao cidadão comum, que teria de baixar três bases, entender três metodologias diferentes e escrever código para juntá-las.

O método, declarado antes da apuração

A Rádio Calçada adota como prática publicar a metodologia antes do resultado, para que qualquer leitor possa refazer o percurso e para que qualquer órgão citado saiba de antemão como será medido.

O cruzamento em preparo é este:

Para cada um dos 224 municípios piauienses, a redação está reunindo o número de famílias no Bolsa Família, o estoque de vínculos formais do Novo Caged, a despesa com pessoal declarada pela prefeitura ao Tesouro Nacional e o número de servidores da administração municipal levantado pelo IBGE.

Os dados de despesa com pessoal serão obtidos pela interface pública de dados abertos do Sistema de Informações Contábeis e Fiscais do Setor Público Brasileiro, o SICONFI, mantido pela Secretaria do Tesouro Nacional. A escolha por essa fonte, e não pelas prestações de contas individuais no Tribunal de Contas do Estado, se deve a três razões: a base é única para os 224 municípios, os valores são declaração da própria prefeitura sob obrigação legal, e a consulta é auditável por qualquer pessoa.

O que a Rádio Calçada não vai fazer: publicar percentual municipal antes de ter as três bases fechadas e conferidas contra os totais estaduais oficiais. Enquanto isso não ocorrer, a afirmação de que a prefeitura é o maior empregador do interior piauiense permanece nesta reportagem como hipótese declarada, e não como fato apurado.

Por que a resposta importa

Se a hipótese se confirmar, três consequências se impõem.

Fiscal. Um município cuja economia depende da própria folha é um município cuja economia depende de transferência constitucional. Queda de FPM vira, no mês seguinte, queda de renda circulante na cidade inteira.

Política. Onde a prefeitura é o maior empregador, o emprego se torna instrumento político direto. Contratação temporária e cargo comissionado deixam de ser detalhe administrativo e passam a ser a principal moeda da disputa local.

Previdenciária e trabalhista. Como esta série mostrou, o Piauí tem o penúltimo percentual de empregados com carteira assinada do país e mais da metade da população ocupada na informalidade. Se o emprego privado formal do interior for tão pequeno quanto os dados sugerem, essas duas estatísticas deixam de ser um problema de fiscalização e passam a ser um problema de estrutura produtiva.

Como esta reportagem foi feita

Os dados de composição da ocupação vêm da PNAD Contínua do IBGE, primeiro trimestre de 2026. Os dados de emprego formal vêm do balanço do Novo Caged de 2025, do Ministério do Trabalho e Emprego. Os dados do Bolsa Família vêm do informe mensal do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social de fevereiro de 2026.

As afirmações sobre a distribuição do setor público dentro do estado estão identificadas no texto como hipótese da redação, não como dado apurado.

Contraditório

A Rádio Calçada procura a Secretaria de Estado do Planejamento do Piauí para que informe se o governo estadual dispõe de levantamento sobre a participação do setor público na ocupação de cada município piauiense e, em caso positivo, onde ele pode ser consultado.

A Rádio Calçada procura a Associação Piauiense de Municípios para que informe se a entidade mantém levantamento consolidado do número de servidores das prefeituras piauienses e se esse dado é público.

As respostas serão publicadas na íntegra, sem edição, no momento em que chegarem.

Fiscalização

A Rádio Calçada solicita ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí que informe se os dados de pessoal das prestações de contas municipais são consolidados em base estruturada e se essa base é acessível ao público em formato aberto.

A Rádio Calçada solicita ao Ministério Público de Contas do Estado do Piauí que se manifeste sobre a disponibilidade, em formato aberto e consolidado, dos dados de pessoal das administrações municipais piauienses.

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