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junho 15, 2026 06:58

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O estado mais digital do Brasil não consegue mostrar quanto gasta o gabinete do governador

Investigação e denúncias: Trabulo Neto e Trabulo Júnior

O Piauí ostenta um título que o Governo do Estado repete em discursos, eventos e campanhas institucionais: o de estado mais digital do Brasil. O selo veio em 2025, com o primeiro lugar no Índice de Oferta de Serviços Públicos Digitais (IOSPD), medido pela Abep-TIC, a associação que reúne os órgãos estaduais de tecnologia da informação. A narrativa segue em circulação nacional neste exato momento, em reportagens publicadas em maio e junho de 2026 celebrando a virada tecnológica piauiense.

Há, porém, um serviço digital que o estado mais digital do Brasil não está conseguindo entregar: dizer ao cidadão quanto gastam a Governadoria e a Secretaria de Comunicação. Como a Rádio Calçada revelou em reportagem publicada nesta quinta-feira, as consultas de despesas desses dois órgãos na nova versão do Portal da Transparência (transparencia2.pi.gov.br) retornam mensagem de erro, enquanto as consultas de outros órgãos, como a Procuradoria-Geral do Estado, funcionam normalmente na mesma sessão. O teste foi documentado às 11h03 de 11 de junho de 2026, com registro de tela.

A promessa: Estônia no sertão

A meta foi anunciada logo no início do mandato. Em janeiro de 2023, na primeira reunião do Conselho de Transformação Digital, no Palácio de Karnak, Rafael Fonteles declarou que o objetivo era tornar o Piauí o estado mais digital do Brasil, citando como modelo a Estônia, país onde 99% dos serviços governamentais estão disponíveis no celular do cidadão.

A referência escolhida pelo governador merece ser levada a sério, porque a Estônia não é apenas o país dos serviços no celular. É também referência mundial em transparência pública: lá, a digitalização foi construída para que o cidadão acompanhe o Estado, e não apenas para que o Estado atenda o cidadão. Dados abertos, rastreabilidade de quem acessa informações e prestação de contas em tempo real são o coração do modelo estoniano. Digitalizar serviços e apagar a janela de fiscalização é ficar com a metade conveniente da inspiração.

O troféu: 900 serviços, IA própria e um portal que dá erro

Os números que o Governo divulga são expressivos. Quase 900 serviços digitais disponíveis. Mais de 2 milhões de Carteiras de Identidade Nacional emitidas, com pioneirismo na CIN neonatal. O aplicativo Gov.Pi Cidadão com 577 serviços, 1,6 milhão de usuários ativos e mais de 26 milhões de acessos. E o SoberanIA, sistema de inteligência artificial em língua portuguesa lançado em dezembro de 2025 e apresentado como uma das infraestruturas mais modernas e seguras da América Latina. “A digitalização não é apenas modernização, é inclusão”, afirmou o governador ao celebrar o ranking.

Nada disso é pouco. E é exatamente por não ser pouco que a falha na transparência não tem desculpa técnica confortável. Um governo capaz de emitir identidade para recém-nascidos, registrar boletim de ocorrência pelo celular e operar inteligência artificial própria tem, com sobra, a capacidade de manter no ar uma consulta de empenhos. Consulta de despesa por órgão não é fronteira tecnológica. É o serviço digital mais elementar do controle social, obrigatório por lei desde 2009, quando a Lei Complementar 131 incluiu na Lei de Responsabilidade Fiscal o dever de exibir, em tempo real, cada empenho, liquidação e pagamento, com nome do credor.

O que é fato e o que é indício

É fato: o Piauí lidera o ranking IOSPD da Abep-TIC e o Governo usa o título de estado mais digital do Brasil em sua comunicação oficial. É fato: a consulta de despesas da Governadoria e da SECOM no Portal da Transparência retornava erro na manhã de 11 de junho de 2026, conforme teste documentado por esta redação, enquanto a consulta da PGE funcionava. É fato: esses dados estavam públicos e foram integralmente extraídos por esta redação em 6 de maio de 2026, quando fundamentaram reportagem sobre os R$ 56,9 milhões empenhados pela SECOM em quatro meses.

É indício, que o contraditório abaixo convida o Governo a esclarecer: a distância entre a vitrine digital e o funcionamento da ferramenta de fiscalização. Esta redação não afirma que a falha é deliberada. Afirma que, em um estado com a infraestrutura tecnológica que o próprio Governo descreve, a explicação para um erro que atinge justamente o gabinete do governador e o órgão da publicidade oficial, em ano eleitoral, precisa ser pública, técnica e verificável.

Contraditório

A Rádio Calçada tem os seguintes questionamentos à Governadoria, à SECOM, à CGE-PI, à ATI e à Etipi:

  1. Como o Governo concilia o título de estado mais digital do Brasil com a falha, sem aviso público, da consulta de despesas da Governadoria e da SECOM no Portal da Transparência?
  2. O Portal da Transparência está incluído no inventário de serviços digitais que fundamentou a posição do Piauí no índice IOSPD da Abep-TIC? Qual órgão responde pela sua disponibilidade?
  3. Existe monitoramento ativo de disponibilidade das consultas do Portal da Transparência por órgão? Em caso positivo, quando o erro nas consultas da Governadoria e da SECOM foi detectado internamente e o que foi feito?
  4. O modelo estoniano, citado publicamente pelo governador como referência, inclui transparência e dados abertos como pilares. Que medidas o Governo adotará para que a transparência acompanhe o nível dos demais serviços digitais do Estado?

Direito de resposta

Este espaço permanece aberto a todos os órgãos e pessoas citadas. Respostas, esclarecimentos e documentos podem ser enviados para redacao@radiocalcada.com.br e serão publicados na íntegra.

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