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junho 12, 2026 19:39

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Consultas de despesas da SECOM e da Governadoria saem do ar após reportagem sobre R$ 56,9 milhões em contratos.

Investigação e denúncias: Trabulo Neto e Trabulo Júnior

O Portal da Transparência do Governo do Estado do Piauí parou de exibir os dados de despesas de pelo menos dois órgãos: a Secretaria de Comunicação Social (SECOM) e a Governadoria do Estado. As consultas, realizadas pela equipe da Rádio Calçada nenhum registro de empenho, liquidação ou pagamento é mostrado ao cidadão.

O detalhe que transforma uma possível falha técnica em indício relevante é o teste de controle: na mesma sessão, nos mesmos minutos, com os mesmos parâmetros, os dados da Procuradoria-Geral do Estado (PGE) são exibidos normalmente.

A cronologia agrava o quadro. Em 6 de maio de 2026, esses mesmos dados estavam públicos e plenamente acessíveis. Foi nessa data que a Rádio Calçada extraiu do sistema orçamentário estadual os 1.406 empenhos que fundamentaram a reportagem exclusiva revelando que a SECOM-PI empenhou R$ 56,9 milhões em quatro meses, com 47,6% do volume classificado como Despesas de Exercícios Anteriores e forte concentração em poucos credores privados. A falha nas consultas ao órgão, portanto, surgiu em algum momento entre a publicação daquela reportagem e a manhã desta quinta-feira. A Rádio Calçada não afirma que existe relação de causa entre a publicação e o erro. Afirma a sequência dos fatos, que está documentada, e pergunta ao Governo, no contraditório abaixo, qual a explicação. O portal, portanto, não está fora do ar. Ele funciona. O que não funciona, ou deixou de funcionar, é a exibição das despesas exatamente dos dois órgãos mais sensíveis politicamente em um ano de eleição para o Governo do Estado: o órgão que gerencia a publicidade oficial e o gabinete do governador Rafael Fonteles (PT), pré-candidato à reeleição.

O que é fato e o que é indício

É fato, documentado em registro de tela com data e hora: consulta de despesa por órgão na nova versão do Portal da Transparência  realizada às 11h03 desta quinta-feira, 11 de junho de 2026, retorna mensagem de erro para SECOM e para Governadoria, enquanto retorna dados normalmente para a PGE na mesma sessão.

É fato também que esses dados existiam e eram públicos. Em 6 de maio de 2026, a Rádio Calçada extraiu da base orçamentária estadual o conjunto completo de empenhos da SECOM-PI do exercício de 2026, com 1.406 registros emitidos entre 22 de janeiro e 5 de maio, totalizando R$ 56.941.460,68. A extração fundamentou reportagem publicada no mesmo dia, com identificação de credores, CNPJs, datas e valores. Os dados, portanto, não deixaram de existir no sistema contábil do Estado. O que deixou de funcionar, em algum momento entre 6 de maio e 11 de junho, foi o acesso do cidadão a eles.

É indício, e a Rádio Calçada trata como indício até que o Governo se explique: a seletividade e a cronologia. Uma queda geral de servidor afeta tudo, e o portal está no ar. O erro atinge especificamente os dois centros de despesa mais expostos ao escrutínio eleitoral, enquanto órgãos como a PGE seguem consultáveis. E o erro surgiu depois que este veículo publicou, com base nesses mesmos dados, reportagem detalhando os R$ 56,9 milhões empenhados pela SECOM. Como a falha foi constatada na nova versão do portal, existe a hipótese de problema de migração ou de parametrização restrito a esses órgãos. Essa hipótese, se confirmada, não absolve o Estado: significa que o Governo mantém no ar uma versão do Portal da Transparência incapaz de exibir as despesas da própria Governadoria e do órgão de publicidade oficial, sem qualquer aviso público, em pleno ano eleitoral.

Não é afirmação deste veículo que houve supressão deliberada. A hipótese de falha técnica localizada existe e o contraditório abaixo dá ao Governo a oportunidade de demonstrá-la. Mas a obrigação legal de manter os dados no ar não admite a desculpa, e é sobre isso que trata a próxima seção.

O que diz a lei: tempo real não é favor, é obrigação

A Lei de Responsabilidade Fiscal, no artigo 48-A, incluído pela Lei Complementar 131/2009, obriga todos os entes a disponibilizar a qualquer pessoa, em tempo real, informações pormenorizadas sobre a execução orçamentária e financeira, incluindo empenho, liquidação e pagamento, com identificação do credor. O Decreto Federal 10.540/2020, que define o padrão mínimo de qualidade dos sistemas de transparência, fixa o que significa tempo real: até o primeiro dia útil subsequente ao registro contábil no sistema. A Lei de Acesso à Informação (Lei 12.527/2011, artigo 8º) reforça o dever de divulgação ativa, independentemente de pedido.

A consequência do descumprimento está na própria LRF, no artigo 73-C: o ente que não disponibiliza as informações na forma exigida fica sujeito à sanção do artigo 23, parágrafo 3º, inciso I, que é o impedimento de receber transferências voluntárias.

Em outras palavras: cada dia em que as despesas da SECOM e da Governadoria permanecem invisíveis ao cidadão é um dia de descumprimento de obrigação legal expressa. A responsabilidade pela manutenção do Portal da Transparência é da Controladoria-Geral do Estado (CGE-PI), e a infraestrutura de tecnologia é de responsabilidade da Agência de Tecnologia da Informação (ATI).

Por que SECOM e Governadoria importam mais em junho de 2026

A SECOM é o órgão pelo qual passam os contratos de publicidade oficial do Estado. Reportagem da Rádio Calçada publicada em 6 de maio de 2026 revelou, com base nos registros então públicos do sistema orçamentário, que o órgão empenhou R$ 56,9 milhões entre 22 de janeiro e 5 de maio deste ano. Menos de 6% foram para a folha de pagamento. R$ 27 milhões foram classificados como Despesas de Exercícios Anteriores, e cinco credores privados concentraram R$ 18,5 milhões, com padrões de emissão que incluíram 90 empenhos para uma mesma empresa em um único dia. A Governadoria concentra as despesas do gabinete do governador, incluindo diárias, passagens e contratações diretas do núcleo do Palácio de Karnak.

Em junho de 2026, Rafael Fonteles é pré-candidato à reeleição. A legislação eleitoral impõe restrições crescentes à publicidade institucional à medida que o pleito se aproxima. O acompanhamento, pela imprensa e pelos órgãos de controle, de quanto e com quem a SECOM gasta neste período depende de uma única ferramenta pública: o Portal da Transparência. É precisamente essa janela que está fechada.

O precedente não ajuda o Governo. O próprio Tribunal de Contas do Estado já concluiu, em levantamento de sua Divisão Temática Residual, que os portais de transparência do Estado e dos municípios piauienses apresentavam informações ausentes, desatualizadas ou disponibilizadas de forma confusa e inacessível ao cidadão comum.

Contraditório

A Rádio Calçada envioa  os seguintes questionamentos à CGE-PI, à SECOM, à Governadoria e à ATI:

  1. Desde que data as consultas de despesas da SECOM e da Governadoria deixaram de retornar resultados no Portal da Transparência?
  2. Qual a causa técnica da mensagem de erro exibida nas consultas a esses dois órgãos? Por que ela afeta SECOM e Governadoria e não afeta, por exemplo, a PGE, consultada na mesma sessão?
  3. A falha está relacionada à nova versão do portal (transparencia2.pi.gov.br)? Houve homologação e teste de integridade dos dados de todos os órgãos antes da disponibilização dessa versão ao público?
  4. Houve manutenção programada, migração de base de dados ou alteração de parametrização envolvendo especificamente esses órgãos? Em caso positivo, por que não houve comunicado público?
  5. Quem determinou ou autorizou a alteração, se houve alteração deliberada de exibição?
  6. Qual o prazo para o restabelecimento integral dos dados, considerando que o Decreto 10.540/2020 exige disponibilização até o primeiro dia útil após o registro contábil?
  7. Em 6 de maio de 2026 os dados de empenhos da SECOM estavam públicos e foram extraídos integralmente por esta redação. O que mudou no sistema entre essa data e 11 de junho? A falha tem alguma relação com a publicação, naquele dia, de reportagem da Rádio Calçada baseada nesses registros?
  8. O Governo reconhece que a indisponibilidade configura descumprimento do artigo 48-A da Lei de Responsabilidade Fiscal? Que providências serão adotadas?

A Rádio Calçada também encaminhará representação ao TCE-PI e ao MPPI caso a indisponibilidade persista sem justificativa técnica documentada, para que os órgãos de controle apurem o descumprimento das obrigações de transparência ativa.

Direito de resposta

Este espaço permanece aberto a todos os órgãos e pessoas citadas. Respostas, esclarecimentos e documentos podem ser enviados para redacao@radiocalcada.com.br e serão publicados na íntegra.

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