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junho 15, 2026 06:59

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POTY E SOLUÇÃO: UM DONO, DUAS CONSTRUTORAS, AS OBRAS DO PIAUÍ

As duas construtoras pertencem ao empresário Felipe de Santana Machado, descrito por veículos locais como próximo do governador Rafael Fonteles.

Poty Construtora e Construtora Solução pertencem ao mesmo empresário, Felipe de Santana Machado, segundo os cadastros da Receita Federal. As duas figuram entre as maiores vencedoras de licitações de obras do Governo do Piauí e atuam nas mesmas secretarias. Em parte desses certames, as primeiras colocadas são desclassificadas e a vitória recai sobre propostas próximas ao teto orçamentário. Esta redação pediu esclarecimentos às empresas e aos órgãos. Eis o que é fato — e o que ainda é apuração.

O QUE É FATO

É fato que a Poty Construtora e Empreendimentos Imobiliários Ltda (CNPJ 17.323.084/0001-05) e a Construtora Solução — nome de fantasia da Felipe de Santana Machado EPP (CNPJ 24.667.970/0001-03) — pertencem ao mesmo empresário, Felipe de Santana Machado, conforme os registros cadastrais da Receita Federal. Não se trata, portanto, de duas empresas independentes, e sim de duas construtoras sob controle de uma mesma pessoa.

É fato que ambas estão entre as maiores contratadas do Governo do Piauí em obras e atuam nas mesmas secretarias — entre elas o Departamento de Estradas de Rodagem (DER-PI), a Secretaria de Estado de Infraestrutura (SEINFRA) e a Secretaria de Estado de Transportes (SETRANS). Veículos locais (entre eles Portal R10 e El Piauí) noticiaram que, somados os contratos de 2023 com diferentes pastas, a Poty ultrapassou R$ 100 milhões no ano. Os mesmos veículos descrevem o empresário como próximo do atual governador.

É fato — segundo levantamento divulgado pelo portal Manchete Nacional em dezembro de 2024, atribuído ao Mural de Preços do TCE-PI e que esta redação encaminha para confirmação oficial — que a Construtora Solução manteria mais de 150 contratos com o Estado, somando cerca de R$ 197,4 milhões, com 19 contratos apenas na SEINFRA, quase todos firmados entre 2023 e 2024. O número exato será confirmado no Mural de Contratos do TCE-PI e na Receita.

É fato que a mesma reportagem identificou um padrão recorrente nas licitações da SEINFRA: a Construtora Solução costuma apresentar proposta superior à das duas primeiras colocadas, mas estas são desclassificadas, e a vitória acaba recaindo sobre a Solução.

É fato que, em levantamento próprio nos autos de concorrências do DER-PI, esta redação identificou, entre 2023 e 2025, um conjunto de certames vencidos por Poty e por Construtora Solução com descontos muito baixos em relação ao orçamento-base — em alguns casos inferiores a 1% —, acompanhados da desclassificação de concorrentes por fundamentos repetidos, como escala salarial de mão de obra e cronograma físico-financeiro.

O PADRÃO QUE CHAMA ATENÇÃO

É avaliação desta redação que a combinação desses elementos merece exame pelos órgãos de controle. Duas construtoras sob controle de um mesmo empresário, concentrando contratos de obras nas mesmas secretarias, em um cenário de descontos próximos de zero e de desclassificação reiterada das propostas mais bem colocadas, reduz na prática a competição — ainda que cada ato, isoladamente, possa ter fundamento formal. Descontos próximos de zero em obras de alta materialidade significam que o Estado paga praticamente o valor máximo previsto no orçamento de referência. Nenhum desses fatos, sozinho, prova irregularidade. Reunidos e repetidos, justificam auditoria.

O QUE A TRANSPARÊNCIA NÃO MOSTRA

É fato que, ao tentar levantar os valores efetivamente pagos e atualizados a Poty e a Construtora Solução, esta redação constatou que o Portal da Transparência do Estado do Piauí não permite extrair os dados de faturamento atualizados dessas empresas em formato consolidado e auditável. A limitação dificulta o controle social sobre quanto, de fato, cada empresa já recebeu dos cofres públicos e obriga parte da apuração a depender de pedidos formais de acesso à informação (LAI) e do Mural de Contratos do TCE-PI.

É avaliação desta redação que, em um caso que envolve duas construtoras de um mesmo proprietário entre as maiores contratadas do Estado, a indisponibilidade de dados de pagamento atualizados e exportáveis é, em si, um problema de transparência que merece correção.

A CONEXÃO QUE ESTA REDAÇÃO AINDA APURA

Confirmada a propriedade comum entre Poty e Solução, resta apurar — sem, neste momento, afirmar — se essas empresas e consórcios que atuam nas mesmas pastas (SEINFRA e SETRANS) compõem um grupo econômico-operacional mais amplo, por sócios, responsáveis técnicos, endereços, equipes ou fluxo financeiro comuns. A verificação depende de atos constitutivos, termos de consórcio, quadro societário completo e composições de custo ainda não obtidos integralmente. Até a confirmação documental, trata-se de hipótese de auditoria, e não de conclusão.

O QUE ESTA REDAÇÃO NÃO AFIRMA

Esta reportagem não afirma a existência de fraude, cartel, conluio, direcionamento de licitação ou qualquer ilícito por parte da Poty, da Construtora Solução, de seu proprietário, dos consórcios mencionados, da SEINFRA, do DER-PI, da SETRANS ou de agentes públicos. Ser proprietário de mais de uma empresa e vencer licitações, inclusive em grande número, é lícito. As desclassificações citadas podem ter fundamento legal próprio. Os percentuais e valores apurados nos autos, bem como o total de contratos atribuído a fonte secundária, são preliminares e estão sujeitos a confirmação com as propostas originais, planilhas de composição, BDI, pareceres e os registros oficiais da Receita e do TCE-PI. Toda leitura para além dos fatos aqui descritos depende de apuração que esta redação não concluiu e, portanto, não sustenta.

CONTRADITÓRIO

Esta redação encaminha as perguntas abaixo à Construtora Solução, à Poty Construtora, à SEINFRA, ao DER-PI e à SETRANS, e assegura a publicação integral das respostas.

Ao proprietário e às empresas:

  1. Confirma-se que Poty Construtora e Construtora Solução (Felipe de Santana Machado EPP) pertencem ao mesmo proprietário? As duas empresas já participaram de uma mesma licitação? Em caso positivo, isso foi declarado à comissão julgadora?
  2. As empresas possuem, entre si ou com consórcios que atuam na SEINFRA e na SETRANS, vínculos técnicos (responsáveis técnicos comuns), administrativos ou operacionais (compartilhamento de equipes, equipamentos, endereços, contadores ou procuradores)?
  3. Como explicam as vitórias com descontos inferiores a 1% em relação ao orçamento-base em obras de alto valor?

Aos órgãos (DER-PI, SEINFRA, SETRANS):
4. Quantas licitações de obras, entre 2023 e 2026, foram vencidas por Poty e por Construtora Solução, e em quantas houve desclassificação das duas primeiras colocadas?
5. Quais os fundamentos das desclassificações nessas concorrências? Houve recursos administrativos e como foram decididos?
6. No julgamento, os órgãos verificam a existência de vínculo entre licitantes — inclusive controle societário comum — e entre licitantes e consórcios que atuam simultaneamente nas mesmas pastas?
7. Qual o total pago a consórcios de obras pela SEINFRA e pela SETRANS em 2024, 2025 e 2026, e qual a concentração desses pagamentos por consórcio?

Ao órgão gestor do Portal da Transparência do Estado:
8. Por que o Portal da Transparência não disponibiliza, em formato consolidado e exportável, os valores pagos e atualizados às empresas contratadas pelo Estado? Há previsão de correção dessa limitação?

Esta matéria será atualizada caso as partes citadas se manifestem. O direito de resposta é assegurado a todos os mencionados, na mesma posição e extensão.

Esta redação informa que o conteúdo desta reportagem foi encaminhado ao Ministério Público de Contas do Estado do Piauí (MPC-PI), ao Procurador de Contas re para análise e eventuais providências cabíveis.

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