Teresina (PI), 14 de junho de 2026
Artigo de opinião | Por Trabulo Júnior
Tem dias em que a pergunta chega antes mesmo do café.
A gente abre o Diário Oficial ainda de madrugada, percorre extrato por extrato, contrato por contrato, soma cifra por cifra e, no meio das páginas, ela aparece. Discreta. Persistente.
Vale a pena?
Vale a pena perder horas, sono e tranquilidade vasculhando documentos públicos quando do outro lado existem estruturas inteiras financiadas por dinheiro, influência e silêncio? Vale a pena quando há mais recursos para esconder do que para revelar?
Minha resposta continua a mesma. Todos os dias.
Vale.
Vale porque números nunca são apenas números.
Nesta semana, em uma única edição do Diário Oficial, encontramos quase seis milhões de reais destinados a shows, eventos e patrocínios por meio de contratações diretas, distribuídas entre diferentes órgãos estaduais. Em apenas três edições analisadas durante o período junino, o valor ultrapassou nove milhões de reais.
Mas o que realmente importa não é a cifra.
É o destino dela.
Esse dinheiro não pertence ao secretário que assina. Não pertence à empresa que recebe. Não pertence ao governo de plantão.
Pertence ao povo.
Pertence à mãe que aguarda meses por uma consulta especializada. Ao aposentado que atravessa a cidade para resolver um problema simples. Ao estudante da escola pública que espera material, transporte e estrutura.
Quando falamos de contratos, não falamos de papel.
Falamos de vidas.
Vale porque a fiscalização muda o ambiente de uma cidade.
Não transforma a realidade da noite para o dia. Não derruba governos. Não produz milagres.
Mas obriga explicações.
Obriga respostas.
Leva perguntas para lugares onde elas incomodam.
Por que essa empresa foi escolhida? Por que não houve concorrência? Por que determinado pagamento foi autorizado? Por que determinada justificativa legal foi utilizada?
Cada pedido de esclarecimento enviado, cada contraditório protocolado, cada documento analisado representa um lembrete simples: o poder público existe para prestar contas.
E quem se acostuma a não prestar contas costuma se incomodar quando alguém acende a luz.
Vale também porque a alternativa é inaceitável.
A alternativa é um Piauí silencioso.
Um Piauí onde o jornalismo se limita a reproduzir versões oficiais, aplaudir discursos e aguardar a próxima campanha publicitária.
Nós escolhemos outro caminho.
A Rádio Calçada não recebe verba publicitária do Governo do Estado. Nossa independência não é um discurso de marketing. É uma decisão editorial.
Vivemos do leitor.
Somente do leitor.
Para que ninguém possa, amanhã, lembrar quem paga a conta e tentar cobrar o silêncio como contrapartida.
Essa escolha tem custo.
Custa noites mal dormidas.
Custa dificuldades financeiras.
Custa o peso de processos que muitas vezes não buscam esclarecer fatos, mas desgastar quem os revelou.
Ainda assim, seguimos.
Porque desistir custaria muito mais.
Conheço bem essa fadiga.
Ela costuma vir disfarçada de formalidade jurídica, de intimidação elegante, de tentativas de transformar o mensageiro em problema para evitar discutir a mensagem.
Mas nossa regra continua simples.
Publicamos fatos.
Separamos notícia de opinião.
Perguntamos antes de afirmar.
Ouvimos antes de concluir.
E jamais transformamos suspeitas em sentenças.
É essa disciplina que protege o nosso trabalho.
E é a confiança do leitor que o mantém vivo.
Lutar pelo Piauí não é gostar de conflito.
É gostar demais deste estado para fingir que não viu.
É amar sua cultura sem abrir mão da transparência.
Quem trata fiscalização como perseguição geralmente não teme a crítica.
Teme a pergunta.
Porque toda pergunta séria carrega uma possibilidade perigosa para quem prefere a escuridão: a possibilidade da resposta.
Por isso, quando a dúvida voltar amanhã, antes mesmo do café, a resposta continuará pronta.
Vale a pena lutar pelo Piauí porque o Piauí vale a pena.
Vale cada documento lido.
Cada número conferido.
Cada pergunta enviada.
Cada resposta obtida.
Vale porque, enquanto existir uma calçada onde alguém possa parar para dizer a verdade em voz alta, este estado não pertencerá apenas a quem governa.
Pertencerá também a quem trabalha.
A quem paga impostos.
A quem espera.
A quem acredita.
A você.
E é por você, e com você, que continuamos.














