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junho 15, 2026 06:52

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Era ilusão? O que o governo sabia, o que vendeu e o preço que o Piauí vai pagar pelo hidrogênio verde

Análise — O colapso dos projetos de hidrogênio verde não é apenas o fim de duas plantas industriais. É o teste de uma forma de governar baseada em vitrines internacionais. A pergunta que sobra não é se o sonho era bonito, e sim se os riscos que o desmontaram eram conhecidos quando o governo vendia certeza.

Matéria analítica — Rádio Calçada

A pergunta certa

Quando um projeto bilionário anunciado como “o maior do mundo” termina com licenças canceladas e um pedido de extinção na Justiça, há duas leituras preguiçosas, e ambas erram.

A primeira é a da base governista: foi azar, o mercado global esfriou, ninguém poderia prever. A segunda é a da oposição mais afobada: era tudo mentira desde o começo. É avaliação desta redação que nenhuma das duas resiste aos documentos. A pergunta jornalisticamente honesta é mais incômoda do que qualquer das duas: os riscos que derrubaram o hidrogênio verde no Piauí eram conhecidos — ou conhecíveis — no momento em que o governo os vendia como quase-certeza? Se eram, então o problema não foi o futuro ter traído a previsão. Foi a previsão ter ignorado o presente.

Esta análise separa três coisas que o discurso oficial misturava de propósito: o que era real, o que era exagero e o que era alerta ignorado.

O que era real (e isto precisa ser dito)

Seria desonesto tratar o hidrogênio verde piauiense como pura fantasia. É fato que o Piauí tem um excedente energético genuíno: pelos próprios números apresentados pelo governador em 2024, o estado gera mais de 6 GW e consome cerca de 1 GW — sobra de energia renovável que, em tese, é exatamente o insumo que a eletrólise exige. É fato que houve interesse internacional concreto: empresas reais (Solatio, Green Energy Park), reuniões com Eletrobras, ANP, ministérios e fundos do porte da ACWA Power. E é fato que o hidrogênio de baixa emissão ganhou marco legal federal (Lei nº 14.948/2024), o que dava verniz de política pública à aposta.

É avaliação desta redação que esse núcleo de verdade é justamente o que tornava a venda eficaz. Ilusões bem-sucedidas raramente são fantasias completas — são fatos reais esticados além do que sustentam.

O que era exagero

Entre o excedente de energia e a frase “o maior projeto de hidrogênio verde do planeta” há uma distância que o governo nunca explicou. É fato que os dois empreendimentos foram apresentados com R$ 200 bilhões, 20 GW e 20 mil empregos — cifras que, somadas, superariam boa parte do PIB anual do estado e que dependiam de decisões que ainda nem tinham sido tomadas pelas empresas.

É avaliação desta redação que três exageros estruturavam o discurso:

  • Exagero de escala. Chamar de “maior do mundo” um projeto sem decisão final de investimento (FID) é vender um recorde que ainda não existia. No caso da Green Energy Park, anos após o anúncio em Roterdã, a empresa ainda estava — pelas próprias palavras — “estruturando o projeto” e havia contratado um punhado de funcionários.
  • Exagero de prazo. Obras prometidas para “começar em 2024 e concluir em dois anos” tratavam como cronograma o que era, na melhor hipótese, intenção.
  • Exagero de certeza. A diferença decisiva. Uma coisa é dizer “atraímos investidores interessados”; outra, muito diferente, é converter carta de intenções e memorando em promessa de empregos e industrialização iminentes. Carta de intenções não é contrato. Memorando não é obra.

O que era alerta ignorado — o ponto central

Aqui está o que separa otimismo legítimo de venda irresponsável. Vários dos fatores que derrubaram o projeto não eram surpresas do futuro: estavam disponíveis enquanto o governo subia em palanques internacionais.

A água. É fato que a planta da Solatio exigiria 91,2 milhões de litros de água por dia captados no Rio Parnaíba — volume que pesquisadores do Grupo de Trabalho sobre Impactos das Energias Renováveis calcularam ser equivalente ao consumo de 4,8 vezes a população de Parnaíba. Numa cidade onde, segundo o próprio GT, a má gestão hídrica é problema crônico, isso não era detalhe técnico obscuro: era um risco social previsível em uma região semiárida.

A energia que não estava garantida. É fato que, ao desistir, a própria Solatio admitiu não haver garantia de fornecimento de energia elétrica. É avaliação desta redação que este é o ponto mais constrangedor: o trunfo do Piauí — o excedente de 6 GW — não bastava se não houvesse a infraestrutura de conexão assegurada. Um projeto vendido pela abundância de energia morreu, em parte, por falta de energia contratável. Esse gargalo de conexão é conhecido de qualquer gestor do setor elétrico; não foi inventado em 2026.

A fragilidade do licenciamento. É fato que a Licença de Instalação foi emitida quatro dias após a audiência pública; que não houve outorga de água junto à ANA; que o ICMBio não foi consultado, apesar da APA Delta do Parnaíba; e que o amonioduto de 20 km ficou fora do licenciamento. Cada uma dessas escolhas foi um ato administrativo do próprio estado — não um acidente do mercado global.

O esfriamento global, que já estava em curso. É fato que a retração mundial do hidrogênio verde — com dezenas de grandes projetos cancelados ou suspensos — não estourou em 2026: já era tema de relatórios e do noticiário setorial em 2024 e 2025, exatamente quando o governo intensificava os anúncios. Vender certeza de industrialização enquanto o setor global recuava é, no mínimo, uma leitura conveniente do cenário.

As vozes que avisaram. É fato que especialistas alertaram em tempo real. Um economista da UFPI ouvido pela imprensa resumiu o risco: sem regulação rígida e inclusão das comunidades, o discurso da sustentabilidade pode mascarar velhas práticas. O alerta foi público antes do colapso.

O impacto: quem paga a conta

É avaliação desta redação que o custo do fracasso não é abstrato. Ele se distribui em cinco frentes:

  1. Custo de expectativa. Parnaíba e o litoral foram preparados, no discurso, para uma transformação econômica que não veio. Não há fábrica, não há os milhares de empregos prometidos. A frustração tem endereço.
  2. Custo de oportunidade. Cada agenda internacional, cada palco em Roterdã, Lisboa e Seul, consumiu tempo de governo e recursos públicos que poderiam ter sido aplicados em demandas imediatas — saúde de média e alta complexidade e segurança, justamente os flancos que a própria oposição já explora. (O valor exato dessas despesas de promoção é questionamento aberto no contraditório.)
  3. Custo institucional. O licenciamento entrou no noticiário nacional como caso de atalho ambiental. Isso respinga na credibilidade da SEMARH e da Investe Piauí para os próximos investidores sérios.
  4. Custo ambiental potencial evitado por terceiros. É avaliação desta redação que, se a planta não consumirá água do Parnaíba, o mérito é do Ministério Público Federal e do Judiciário — não de uma cautela do Executivo estadual, que havia liberado a obra.
  5. Custo político. Em ano eleitoral, o hidrogênio verde deixou de ser vitrine e virou passivo. O enquadramento de “ilusão vendida” já circula no debate público piauiense, e a transição energética desponta como tema de campanha de 2026 — não como conquista a exibir, mas como promessa a explicar.

Então: era ilusão?

É avaliação desta redação que a resposta honesta é: não era ilusão completa, e é por isso que funcionou como ilusão. Havia um ativo real — energia renovável excedente — embrulhado em uma promessa que o governo escolheu vender com escala, prazo e certeza que os fundamentos não autorizavam, enquanto sinais de alerta concretos (água, conexão elétrica, licenciamento frágil, recuo global do setor) já estavam sobre a mesa.

A distinção entre erro de avaliação e venda consciente de uma certeza inexistente depende de um dado que esta redação não tem e que só o governo pode fornecer: o que os relatórios técnicos internos diziam, e quando. Se os pareceres apontavam os riscos de água, energia e licenciamento antes dos grandes anúncios, então não se tratou de aposta otimista, mas de marketing sobreposto à técnica. Se não apontavam, há uma falha de assessoramento igualmente grave a explicar. Não existe uma terceira hipótese confortável.

É por isso que esta análise não conclui com uma sentença, mas com um ônus da prova: cabe ao governo demonstrar que agiu sobre os alertas, e não em volta deles.

Contraditório

Esta análise encaminha ao Governo do Estado do Piauí, à Investe Piauí e à SEMARH os seguintes questionamentos,  que será publicada na íntegra:

  1. Em que data os estudos técnicos do governo identificaram o risco de indisponibilidade de fornecimento de energia elétrica — fator admitido pela própria Solatio ao desistir do projeto?
  2. Havia, antes dos anúncios internacionais de 2023 e 2024, parecer técnico interno sobre a viabilidade de captação de 91,2 milhões de litros/dia no Rio Parnaíba sem comprometer o abastecimento de Parnaíba? Em caso afirmativo, esse parecer pode ser disponibilizado?
  3. Qual o valor total de recursos públicos (diárias, passagens, eventos, estruturas de divulgação) empregado na promoção internacional do hidrogênio verde entre 2023 e 2025?
  4. Diante do recuo global do setor já documentado em 2024 e 2025, com base em quê o governo manteve a comunicação de industrialização e geração de 20 mil empregos como cenário provável?
  5. Qual é, hoje, o cronograma concreto e a data de decisão final de investimento (FID) do projeto da Green Energy Park, apresentado como “o maior do mundo”?
  6. O governo reconhece alguma falha no processo de licenciamento conduzido pela SEMARH, considerando a ausência de outorga da ANA e de autorização do ICMBio?

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