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junho 15, 2026 07:02

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A vitrine e a fatura: quanto custou vender na TV o hidrogênio verde que nunca saiu do papel

O hidrogênio verde rendeu ao governo Rafael Fonteles dois anos de holofotes — entrevistas em rede nacional, programas de TV, agendas internacionais e a máquina oficial de comunicação. Nenhuma tonelada foi produzida. Esta reportagem reúne o rastro midiático do projeto, sobretudo na televisão, e mostra exatamente quais documentos o Piauí precisa exigir para saber quanto dinheiro público sustentou essa exposição.

Matéria especial — Rádio Calçada

Um aviso de método, antes de tudo

Esta redação não vai apresentar um número fechado de “gasto com publicidade em hidrogênio verde”. E a razão é importante: esse valor não está itemizado em nenhuma fonte pública de forma isolada. Despesas de publicidade institucional do governo estadual são executadas pela secretaria de comunicação por meio de contratos com agências e veículos, em rubricas que misturam dezenas de campanhas — saúde, educação, segurança, energia — sob o mesmo guarda-chuva contratual. Cravar quanto saiu especificamente para promover o H2V exige extração documental primária (DOE-PI, contratos da SECOM, prestações de contas e, em última instância, pedidos de acesso à informação).

É avaliação desta redação que apresentar um valor sem esse lastro seria fazer exatamente o que criticamos no governo: vender certeza sem documento. Então fazemos o oposto. Mostramos o que é fato — o rastro de mídia, que é vasto e verificável — e entregamos ao leitor e ao poder público o mapa exato para transformar a pergunta “quanto custou?” em resposta auditável.

E há uma distinção que precisa ficar clara desde já, porque o governo se beneficia de embaralhá-la:

  • Mídia espontânea (gratuita): entrevistas, participações em programas jornalísticos. O governador ser entrevistado não é, em si, publicidade paga. É legítimo. O que se pode avaliar é a escolha editorial de centrar essas aparições num projeto que não se concretizou.
  • Publicidade paga: campanhas institucionais, conteúdo patrocinado, inserções e impulsionamentos custeados com dinheiro público. Só isto é “gasto com publicidade” — e é justamente o que precisa ser auditado.

Esta matéria trata das duas trilhas, sem confundi-las.

A trilha da TV: onde o “sonho” foi vendido

É fato que a televisão foi o palco central da narrativa do hidrogênio verde. O caso mais emblemático veio quando o projeto já agonizava:

Canal Livre, da Band / BandNews TV — 1º de fevereiro de 2026. Em rede nacional, dias antes de a Solatio formalizar a desistência, o governador voltou a apresentar o hidrogênio verde como vitrine do Piauí. A exposição em horário nobre de uma emissora nacional, tradicionalmente cara, levou a imprensa piauiense a formular a pergunta que dá nome a esta seção: quem pagou a conta dessa exposição? É avaliação desta redação que a pergunta é pertinente e merece resposta documental — sem presumir, de antemão, que tenha havido pagamento. O próprio governador divulgou a participação em suas redes. 🔗 band.com.br/noticias/canal-livre/ultimas/canal-livre-entrevista-o-governador-do-piaui-202601310033

Bom Dia Piauí, da TV Clube (afiliada Globo) — 23 de junho de 2025. Em entrevista, o governador defendeu o H2V como resposta às incertezas do mercado do petróleo e repetiu o dado de que o Piauí teria matriz elétrica 99,75% renovável. 🔗 brasil247.com/brasil-sustentavel/rafael-fonteles-defende-hidrogenio-verde-como-alternativa-ao-petroleo

Roda Viva (Band Piauí). Entre os “projetos estruturantes”, o governador apresentou o estado como futura referência na produção de hidrogênio verde. 🔗 bandpiaui.com.br/noticias/politica/rafael-fonteles-participa-do-roda-viva-e-destaca-projetos-para-o-piaui-9813.html

PodCosta, da TV Lupa1. Na mesma linha, defendeu a “indústria verde” e o Porto de Luís Correia — e, confrontado sobre as viagens internacionais, listou 16 missões ao exterior. É avaliação desta redação que esse número, dito pelo próprio governador, é o fio que leva à segunda conta a ser auditada (ver adiante). 🔗 lupa1.com.br/noticias/politica/rafael-fonteles-responde-perguntas-sobre-gestao-politica-e-futuro-no-podcosta-da-tv-lupa1-71175.html

Portal ClubeNews — 11 de fevereiro de 2026. Já após a Justiça suspender as licenças e a empresa desistir, o governador anunciou na TV que a Solatio “seguiria” no estado — agora com a construção de um datacenter. É avaliação desta redação que o episódio mostra a narrativa se reinventando em tempo real: trocado o produto, mantido o palco. 🔗 portalclubenews.com/2026/02/11/rafael-fonteles-diz-que-empresa-vai-continuar-com-o-projeto-de-industria-verde-no-piaui

A esse rastro soma-se a máquina oficial de comunicação — portais do governo (pi.gov.br, segov.pi.gov.br), a TV e a Rádio da Assembleia Legislativa (al.pi.leg.br) e a assessoria de comunicação do Executivo (creditada como CCOM/Gov. Piauí em reportagens) —, que produziu fluxo contínuo de matérias chamando os empreendimentos de “os maiores do mundo”.

Nas casas locais: Meio Norte e Cidade Verde

É fato que os dois maiores grupos de comunicação do estado — o Sistema Meio Norte (TV Meio Norte e portal meionorte.com) e o Sistema Cidade Verde (TV Cidade Verde e portal cidadeverde.com) — foram canais centrais de propagação da narrativa, sobretudo na fase de lançamento, em dezembro de 2023, quando o governo realizou a cerimônia da “pedra fundamental” na ZPE de Parnaíba.

Meio Norte. Na véspera do evento, a casa anunciou o lançamento reproduzindo a moldura oficial: chamou Parnaíba de futura “maior potência mundial” na fabricação de amônia para hidrogênio verde, citou os R$ 200 bilhões, os 20 mil empregos e os 20 GW, e registrou que o governador havia viajado à América do Norte, Ásia e Europa para captar investidores. É avaliação desta redação que a cobertura adotou, sem contraponto técnico visível, o vocabulário superlativo do palácio. 🔗 meionorte.com/piaui/rafael-lanca-maior-projeto-de-hidrogenio-verde-do-mundo-em-parnaiba-na-sexta-15-486918 🔗 meionorte.com/piaui/rafael-fonteles-e-geraldo-alckmin-lancam-projeto-de-hidrogenio-verde-em-parnaiba-486926

Cidade Verde. Dias depois do lançamento, a casa publicou reportagem explicativa — “Afinal, o que é hidrogênio verde?” — ancorada nos mesmos R$ 200 bilhões e 20 mil empregos, mas com um diferencial: ouviu o pesquisador Dr. Juan Aguiar, do Núcleo de Formação e Pesquisa em Energias Renováveis do Piauí (NUFPERPI), que demonstrou o processo de eletrólise com um protótipo. É avaliação desta redação que essa peça foi mais didática do que promocional, ainda que partisse do enquadramento oficial do evento. 🔗 cidadeverde.com/noticias/404890/afinal-o-que-e-hidrogenio-verde-entenda-como-e-obtido-e-porque-piaui-tem-potencial-para-produzir

O arco que cobra registro. É avaliação desta redação que o teste de equilíbrio de qualquer veículo não está na euforia do lançamento, e sim em dar ao desfecho o mesmo destaque que deu à promessa. A narrativa de dezembro de 2023 — “o maior do mundo” — terminou, em janeiro e fevereiro de 2026, na suspensão judicial das licenças e na desistência da empresa. Cabe ao leitor, e a esta série, cobrar que a queda receba a mesma capa que recebeu a vitrine.

A outra mídia: a que investigou

É fato que, em contraponto à vitrine, a imprensa independente e científica produziu o material que o tempo confirmou:

  • Agência Pública (set/2025) — revelou que o licenciamento ignorava a captação de água e que órgãos federais desconheciam o projeto até a véspera da audiência pública. 🔗 apublica.org/2025/09/fabrica-de-hidrogenio-verde-no-piaui-ignora-impactos-hidricos
  • Marco Zero (abr/2025) — mostrou que a usina consumiria cinco vezes mais água que toda a cidade de Parnaíba. 🔗 marcozero.org/usina-de-hidrogenio-verde-no-piaui-deve-consumir-cinco-vezes-mais-agua-que-toda-a-cidade-de-parnaiba
  • ClimaInfo (jan/2026) — registrou a suspensão judicial das licenças. 🔗 climainfo.org.br/2026/01/14/justica-suspende-licencas-ambientais-da-maior-fabrica-de-hidrogenio-verde-do-mundo-no-piaui
  • Encarando (fev/2026) — cunhou, no debate piauiense, a expressão “ilusão vendida em rede nacional”. 🔗 encarando.com/noticias/99294/hidrogenio-verde-ilusao-vendida-em-rede-nacional

É avaliação desta redação que o contraste é a própria notícia: enquanto a mídia oficial e as grandes vitrines anunciavam recordes, a reportagem de fôlego apontava os riscos que de fato derrubaram o projeto.

As duas contas que o Piauí tem direito de conhecer

duas faturas distintas embutidas na operação de imagem do hidrogênio verde. Nenhuma das duas está, hoje, esclarecida ao cidadão.

Conta 1 — Publicidade institucional paga. Quanto o governo gastou, via SECOM e agências contratadas, em campanhas, inserções, conteúdo patrocinado e impulsionamento que tiveram o hidrogênio verde (ou a “transição energética”/”indústria verde”) como tema? Esse dado existe — está nos empenhos e contratos —, mas não é divulgado de forma segmentada.

Conta 2 — Custo das comitivas internacionais. As “16 missões ao exterior” citadas pelo próprio governador — Roterdã, Lisboa, Seul, Arábia Saudita, entre outras — geraram despesas de passagens, diárias e estruturas de apoio que constam no Diário Oficial. É avaliação desta redação que, somadas, essas duas contas medem o real custo de uma narrativa que não entregou emprego nem energia.

Como auditar (roteiro aberto a qualquer cidadão ou veículo):

  1. DOE-PI — rastrear empenhos e contratos da secretaria de comunicação por palavra-chave (hidrogênio, transição energética, indústria verde) e os atos de concessão de diárias/passagens das comitivas.
  2. Contratos da agência de publicidade do governo — verificar planos de mídia e relatórios de veiculação por campanha.
  3. Portal da Transparência estadual — despesas por natureza (publicidade e propaganda; diárias; passagens).
  4. Pedido de LAI — solicitar a relação de campanhas, peças e valores associados ao tema, e a discriminação das 16 missões.
  5. TCE-PI — consultar representações e julgamentos sobre publicidade institucional e despesas de viagem do período.

Contraditório

Esta reportagem encaminha à SECOM/Governo do Estado do Piauí e à Investe Piauí os questionamentos abaixo,  que será publicada na íntegra:

  1. Qual o valor total empenhado e pago em publicidade institucional (campanhas, inserções, conteúdo patrocinado e impulsionamento) que teve como tema o hidrogênio verde, a “transição energética” ou a “indústria verde”, entre 2023 e 2026?
  2. Houve algum pagamento, patrocínio, cota ou custeio de produção do governo do Piauí ou de órgãos a ele vinculados relacionado à participação do governador no programa Canal Livre, da Band, em 1º/02/2026? Em caso afirmativo, qual o valor e o instrumento?
  3. Qual o custo total (passagens, diárias, hospedagem e apoio) das 16 missões internacionais citadas pelo próprio governador, com a discriminação por viagem?
  4. Quais agências de publicidade executaram as campanhas do tema no período e quais os valores dos respectivos contratos?
  5. Diante do encerramento do projeto Solatio e da ausência de decisão final de investimento da Green Energy Park, o governo reconhece desproporção entre o volume de divulgação e o resultado concreto entregue?

A Rádio Calçada não aceita publicidade do governo estadual e se mantém com a contribuição de seus leitores. Apoie o jornalismo independente no Piauí: PIX 86.9.9991.9990.

Tem documentos sobre contratos de publicidade ou despesas de viagem do governo? Escreva para redacao@radiocalcada.com.br. Garantimos sigilo da fonte.

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