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agosto 30, 2026 18:54

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O Piauí é o sexto estado mais endividado do Brasil e o segundo do Nordeste

A dívida do estado equivale a 76,71% de tudo o que ele arrecada em um ano. À frente do Piauí estão apenas Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, São Paulo e Alagoas, segundo a planilha oficial do Tesouro Nacional

Jornalista Trabulo Neto (registro 0002880/PI)

O Piauí deve o equivalente a 76,71% de toda a receita que arrecada em um ano. É o sexto maior nível de endividamento entre as 27 unidades da federação e o segundo do Nordeste, atrás apenas de Alagoas.

O dado é da Capacidade de Pagamento, a CAPAG, planilha oficial da Secretaria do Tesouro Nacional com ano base 2024, publicada no portal de dados abertos Tesouro Transparente.

Os cinco estados à frente do Piauí nessa lista são os casos crônicos conhecidos do país. Rio de Janeiro e Minas Gerais têm nota D na CAPAG, a pior possível. Rio Grande do Sul tem C. São Paulo tem B. Alagoas, como o Piauí, tem B+.

O Piauí tirou nota B nos três indicadores que o Tesouro usa para avaliar a saúde financeira dos estados. Não tirou A em nenhum. Apenas um outro estado do país está na mesma situação, e é justamente Alagoas. Todas as demais 25 unidades da federação ou tiraram A em pelo menos um dos três indicadores, ou tiraram C, que é a nota de alerta.

O que é a CAPAG

A CAPAG é a nota que a União dá a cada estado para decidir se aceita ser fiadora de novos empréstimos daquele estado.

Funciona como uma análise de crédito. Quando um governo estadual quer pegar dinheiro emprestado com banco nacional ou organismo internacional, quase sempre precisa que a União entre como garantidora. Se o estado deixar de pagar, quem paga é o Tesouro Nacional. Por isso o Tesouro avalia antes se aquele estado tem condição de honrar a dívida.

A nota vai de A a D. Só estados com nota A ou B conseguem a garantia da União. Nota C ou D fecha a porta.

São três indicadores:

Endividamento. Quanto o estado deve, em comparação com o que arrecada por ano. Quanto menor, melhor.

Poupança corrente. Quanto da receita do ano é consumida pelas despesas do dia a dia, como folha de pagamento, custeio e manutenção. Quanto menor, melhor, porque o que sobra é o que dá para investir.

Liquidez. Se o estado tem dinheiro em caixa suficiente para cobrir as contas de curto prazo. Quanto maior, melhor.

Os números do Piauí

Indicador Resultado do Piauí Nota
Endividamento 76,71% B
Poupança corrente 91,99% B
Liquidez 3,13% B
Classificação final B+

De onde vem o sinal de mais

Quando a nota do Piauí foi divulgada, o governo do estado comemorou o B+.

O sinal de mais, porém, não mede a saúde das contas. Ele é um bônus concedido aos estados que tiram nota A no Ranking da Qualidade da Informação Contábil e Fiscal, que avalia se o ente envia ao Tesouro Nacional relatórios completos, consistentes e no prazo.

Ou seja: a parte do B mede quanto o estado deve e quanto sobra no caixa. A parte do mais mede se a contabilidade está bem organizada.

O Piauí tem, de fato, nota A na qualidade da informação contábil, e isso não é pouco. Mas são duas coisas diferentes, e o release oficial não fez essa separação.

A tabela completa do endividamento

O primeiro indicador da CAPAG compara a dívida consolidada do estado com a receita corrente líquida, que é o dinheiro que entra no caixa em um ano.

Estado Dívida sobre receita anual Nota no indicador
Rio de Janeiro 231,81% C
Rio Grande do Sul 224,02% C
Minas Gerais 181,78% C
São Paulo 147,35% C
Alagoas 86,90% B
Piauí 76,71% B
Goiás 65,53% B
Amapá 55,87% A
Bahia 54,22% A
Ceará 52,13% A
Santa Catarina 51,44% A
Mato Grosso do Sul 47,11% A
Paraná 44,72% A
Amazonas 42,80% A
Pernambuco 42,80% A
Rio Grande do Norte 41,73% A
Paraíba 40,24% A
Acre 34,95% A
Sergipe 34,55% A
Rondônia 33,36% A
Espírito Santo 31,88% A
Distrito Federal 30,85% A
Roraima 30,58% A
Tocantins 27,45% A
Maranhão 23,32% A
Pará 21,16% A
Mato Grosso 15,55% A

Apenas três estados do Brasil não conseguiram nota A nesse indicador sem cair para C: Alagoas, Piauí e Goiás.

No Nordeste, só Alagoas deve proporcionalmente mais

O contraste dentro da própria região é o dado mais difícil de explicar.

Estado do Nordeste Dívida sobre receita anual
Alagoas 86,90%
Piauí 76,71%
Bahia 54,22%
Ceará 52,13%
Pernambuco 42,80%
Rio Grande do Norte 41,73%
Paraíba 40,24%
Sergipe 34,55%
Maranhão 23,32%

O Piauí está proporcionalmente mais endividado que Bahia, Ceará e Pernambuco, os três maiores estados da região, e mais que o triplo do endividamento do Maranhão.

Sobra menos de nove centavos em cada real

O segundo indicador mostra que 91,99% da receita corrente do Piauí é consumida por despesa corrente. Sobra menos de nove centavos em cada real arrecadado.

É um patamar alto, mas não fora da curva nacional. O Piauí ocupa a décima primeira posição do país nesse indicador, atrás de Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Distrito Federal, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Amazonas, Roraima, Pernambuco, Acre e Tocantins.

No terceiro indicador, o de liquidez, o Piauí marcou 3,13%, o que o coloca na décima quarta posição nacional, praticamente no meio da tabela. Vinte e seis estados estão nessa faixa positiva ou acima. Seis estados fecharam com liquidez negativa: Acre, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Rio Grande do Norte e Minas Gerais.

Onde o Piauí fica na classificação geral

Onze estados brasileiros têm classificação melhor que a do Piauí.

Com nota A+: Ceará, Espírito Santo, Mato Grosso, Paraíba, Paraná, Rondônia e Santa Catarina.

Com nota A: Amapá, Maranhão, Roraima e Sergipe.

O Piauí está no grupo B+, junto com Alagoas, Amazonas, Bahia, Goiás, Mato Grosso do Sul, Pará, Pernambuco e Tocantins.

Abaixo: São Paulo com B, Acre, Distrito Federal, Rio Grande do Norte e Rio Grande do Sul com C, e Minas Gerais e Rio de Janeiro com D.

No Nordeste, quatro estados têm nota melhor que a do Piauí: Ceará, Paraíba, Maranhão e Sergipe.

O que isso significa na prática

É avaliação desta redação que a leitura correta desse conjunto de números não é a de que o Piauí está quebrado. Não está. A nota B mantém o estado elegível a garantia da União e mantém a porta aberta para novos empréstimos.

O ponto é outro, e é de trajetória. O endividamento é o indicador que se acumula ao longo dos anos, e o Piauí chegou ao sexto lugar nacional numa lista cujos cinco primeiros colocados são os estados historicamente quebrados do país. É a única posição, entre os três indicadores, em que o Piauí não está no meio da tabela.

E é justamente o indicador que mais depende de decisão política, porque cada operação de crédito nova precisa ser autorizada pelo governo do estado e aprovada pela Assembleia Legislativa.

Nota sobre os números

Todos os dados desta matéria foram extraídos da planilha “Capag dos Estados 2025”, com ano base 2024, publicada pela Secretaria do Tesouro Nacional no portal Tesouro Transparente. É o arquivo mais recente disponível para estados na data desta publicação.

O próprio Tesouro registra que o resultado apurado na CAPAG não vincula a posição definitiva do órgão, e que o cálculo final é feito por ocasião da verificação dos limites e condições para contratação de operações de crédito com garantia da União.

A metodologia atual é a da Portaria Normativa MF nº 1.583, de 13 de dezembro de 2023, alterada pela Portaria MF nº 1.764, de 6 de novembro de 2024, com procedimentos definidos na Portaria STN/MF nº 857, de 27 de março de 2026.

OUTRO LADO

A Rádio Calçada solicita manifestação das partes envolvidas.

Foram procuradas a Secretaria de Estado da Fazenda do Piauí, o Tesouro Estadual do Piauí e o Governo do Estado do Piauí, para que se manifestem sobre a posição do estado no indicador de endividamento da CAPAG, sobre a evolução da dívida consolidada estadual nos últimos exercícios, sobre o cronograma de amortização dessa dívida e sobre as novas operações de crédito em contratação ou em análise.

As respostas serão publicadas na íntegra, sem cortes e sem edição.

Contato para manifestações: consultor@xconexoes.com.br

FISCALIZAÇÃO

A Rádio Calçada solicita ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí e ao Ministério Público de Contas do Piauí informação sobre o acompanhamento da dívida consolidada estadual e sobre a análise das operações de crédito contratadas pelo Estado no período.

FONTE

BRASIL. Secretaria do Tesouro Nacional. “Capacidade de Pagamento dos Estados e do Distrito Federal”, arquivo “Capag dos Estados 2025”, ano base 2024. Portal Tesouro Transparente, conjunto de dados capag-estados. Disponível em tesourotransparente.gov.br/ckan/dataset/capag-estados


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