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junho 15, 2026 06:52

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EDITORIAL: Governar não é viralizar

Quando o gabinete vira estúdio e a agenda vira roteiro, o cidadão deixa de ser informado para ser entretido

Há algo de novo e perturbador no modo como parte de nossos governantes passou a se relacionar com o poder. O gabinete virou estúdio, a agenda virou roteiro e o cargo público, antes medido pela entrega, passou a ser avaliado pela quantidade de visualizações. Entre uma coreografia e outra, a gestão foi reduzida a conteúdo.

Não se trata de condenar a leveza. A política sempre teve seu lado festivo, e nunca foi proibido a um governante sorrir, brincar ou se aproximar das pessoas pela descontração, ainda mais num país que gosta de música e de bom humor. O problema não é dançar. O problema é quando dançar vira a principal política pública de um mandato.

O equívoco começa na métrica. Determinadas assessorias e agências passaram a tratar como “case de sucesso” o vídeo que viraliza, e não a obra que se entrega, o serviço que melhora ou a fila que diminui. Confundiram engajamento com aprovação e curtida com resultado. É um erro de bússola: governo bom não é o que aparece mais, é o que resolve mais. Nenhuma estrada foi pavimentada com visualizações.

Quando o espetáculo ocupa o lugar do debate, quem perde é o cidadão. A performance substitui a proposta; o personagem engole a autoridade. Aos poucos, o eleitor deixa de ser informado e passa a ser entretido, e um povo entretido cobra menos, fiscaliza menos, exige menos. Talvez seja exatamente esse o objetivo.

Há ainda o constrangimento do que é forçado. Simpatia, carisma e tato com o que é simples não se contratam: ou se tem, ou não se tem. A boa comunicação pode lapidar um estilo, suavizar uma aresta, mas não inventa uma essência. Quando se empurra para a câmera um carisma que não existe, o resultado não é proximidade; é vergonha alheia. E o efeito acaba sendo o contrário do pretendido.

E há a conta. Por trás de boa parte desse circo existe uma estrutura: equipes, equipamentos e contratos de comunicação, muitas vezes bancados com dinheiro público. Vale perguntar quanto custa, ao contribuinte, transformar uma secretaria em set de filmagem e se aquilo que se vende como “estratégia digital” não é, no fundo, propaganda pessoal travestida de informação institucional.

Redes sociais são parte da vida contemporânea e exigem, sim, uma comunicação mais leve e direta. Mas leveza não é o mesmo que vazio. O governante pode, e deve, falar a linguagem do seu tempo sem se transformar em peça de ficção. Porque a tela passa, o trend morre, o áudio cai no esquecimento. O que fica é o que foi feito. E nenhuma coreografia, por mais ensaiada que seja, dança no lugar de uma gestão que não aconteceu.

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