Como o governo Rafael Fonteles transformou o maior anúncio econômico de sua gestão — duas plantas de hidrogênio verde apresentadas como “as maiores do mundo”, R$ 200 bilhões em investimentos e 20 mil empregos — em um licenciamento contestado pela Justiça, uma empresa que desistiu e outra que nunca saiu da fase de escritório.
Matéria especial — Rádio Calçada
Parte I — O que é, afinal, hidrogênio verde
É fato que o hidrogênio é o elemento mais abundante do universo, mas raramente aparece sozinho na natureza: está sempre combinado a outras moléculas, como na água (H₂O). Para usá-lo como combustível, é preciso separá-lo — e a forma de separá-lo é o que define a sua “cor”.
O hidrogênio cinza, hoje dominante no mundo, é produzido a partir do gás natural e emite grandes quantidades de gás carbônico. O hidrogênio verde é produzido por eletrólise: usa-se eletricidade de fontes renováveis (solar e eólica) para quebrar a molécula de água e separar o hidrogênio do oxigênio, sem emissão de carbono no processo. Daí o apelido de “combustível do futuro”: ele permitiria descarbonizar setores difíceis de eletrificar — siderurgia, fertilizantes, transporte marítimo de longo curso.
No Brasil, o tema ganhou marco legal recente. É fato que a Lei nº 14.948, de 2 de agosto de 2024, instituiu a Política Nacional do Hidrogênio de Baixa Emissão de Carbono, criou o regime de incentivos Rehidro e atribuiu à ANP a competência para regular o setor. A lei define como “de baixa emissão” o hidrogênio que resulte em até 7 kg de CO₂ equivalente por quilo de hidrogênio produzido. Os incentivos fiscais do Programa de Desenvolvimento do Hidrogênio (PHBC) foram vetados nessa lei por imprecisão na redação e só vieram depois, pela Lei nº 14.990, de setembro de 2024.
É importante reter três características técnicas que vão explicar todo o resto desta matéria, e que o próprio material de divulgação do governo do Piauí admite: o hidrogênio verde é caro de produzir, difícil de armazenar e transportar, e depende de infraestrutura que ainda não existe. E há um quarto fator, decisivo no caso piauiense: a eletrólise consome água em escala industrial.
Parte II — A promessa: o “maior projeto do planeta”
É fato que, a partir de 2023, o hidrogênio verde se tornou a principal vitrine econômica da gestão Rafael Fonteles (PT). A narrativa foi construída em uma sequência de anúncios internacionais:
- Outubro de 2023: durante o Congresso Mundial de Hidrogênio, em Roterdã (Holanda), o governo assinou carta de intenções com a croata Green Energy Park (GEP), prevendo € 10 bilhões (cerca de R$ 50 bilhões) e produção inicial de 5 GW de amônia verde por ano, com exportação pelo Porto de Luís Correia.
- Novembro de 2023: o governador apresentou os projetos a executivos da Hyundai Motors, na Coreia do Sul.
- 2024: novas rodadas em Roterdã (World Hydrogen Summit), incluindo memorando entre Eletrobras e Green Energy Park para fornecimento de energia, e em Lisboa (Conferência Ibero-Brasileira de Energia).
- Março de 2025: em Brasília, o vice-presidente Geraldo Alckmin assinou a resolução do Conselho Nacional das ZPEs autorizando a instalação do projeto da Solatio — orçado em R$ 27 bilhões — na Zona de Processamento de Exportação (ZPE) de Parnaíba.
Somados, os dois empreendimentos — Green Energy Park e Solatio — foram apresentados pelo governo como “os dois maiores projetos de hidrogênio verde do mundo”, com R$ 200 bilhões em investimentos previstos, 20 GW de capacidade e a geração de 20 mil empregos. O discurso oficial era o de uma “nova industrialização do Piauí”.
É avaliação desta redação que aqui já se instala o primeiro problema: a distância entre a escala dos números anunciados em palanques internacionais e o que efetivamente se materializou no litoral piauiense.
Parte III — Solatio: anatomia de um colapso
O projeto da Solatio era o mais adiantado e o mais celebrado. É fato que, em 24 de abril de 2025, a SEMARH realizou audiência pública em Parnaíba para apreciar o EIA/RIMA do empreendimento, descrito como uma planta de 160 hectares, R$ 27 bilhões e cerca de 2,7 mil empregos. É fato que a Licença de Instalação (PI-LI.03699-2/2025) foi emitida apenas quatro dias depois da audiência. E é fato que, no início de junho de 2025, começaram a supressão vegetal e a limpeza de 154 hectares dentro da ZPE — a primeira etapa física da obra.
A partir daí, o projeto desabou em uma sucessão de problemas documentados:
O problema da água. É fato que a produção exigiria a captação de 3.800 m³ por hora — o equivalente a 91,2 milhões de litros de água por dia — do Rio Parnaíba, um curso hídrico federal. Segundo levantamento, esse volume é cerca de cinco vezes o consumo do município de Parnaíba (162 mil habitantes), que divide a mesma fonte. A captação se daria dentro da Área de Proteção Ambiental (APA) Delta do Parnaíba.
A outorga que não existia. É fato que a Agência Nacional de Águas (ANA) confirmou, por parecer, que não havia pedido de outorga de uso de recursos hídricos da Solatio. Pela legislação, a outorga deveria anteceder o próprio licenciamento. A ANA registrou ter havido infração administrativa na emissão das licenças sem ela.
O ICMBio fora do processo. É fato que a Resolução nº 428 do Conama exige autorização do órgão gestor da unidade de conservação — no caso, o ICMBio — para empreendimentos que a afetem. O licenciamento estadual seguiu sem essa autorização. O amonioduto de cerca de 20 km, estrutura que transportaria o hidrogênio na forma de amônia até o ponto de exportação e que atravessaria a APA, foi mantido fora do escopo do licenciamento da planta.
A investigação da imprensa. É fato que, em setembro de 2025, a Agência Pública revelou que Ibama, ICMBio e lideranças ambientais afirmaram desconhecer o projeto até a véspera da audiência pública, e que o licenciamento teria sido fracionado — analisado em partes — de modo a subdimensionar o impacto socioambiental real. A mesma reportagem registrou que negociações com um fundo ligado à ACWA Power, da Arábia Saudita, haviam travado.
A Justiça entra. É fato que o Ministério Público Federal ajuizou Ação Civil Pública (processo nº 1015531-92.2025.4.01.4002, Vara Federal de Parnaíba) pedindo a anulação das licenças. Em janeiro de 2026, a Justiça Federal suspendeu as obras, sob pena de multa diária de R$ 1 milhão.
A desistência. É fato que, em 21 de janeiro de 2026, a SEMARH cancelou administrativamente a licença ambiental. E é fato que, em 3 de fevereiro de 2026, a Solatio protocolou manifestação na Justiça informando que cancelou as próprias licenças e pedindo a extinção do processo por perda de interesse (art. 487 do CPC). No documento, a empresa reconheceu um obstáculo que ambientalistas vinham apontando havia meses: não havia garantia de fornecimento de energia elétrica para a planta.
É avaliação desta redação que o desfecho é eloquente: o empreendimento mais alardeado da gestão saiu do “maior projeto de hidrogênio verde do planeta” para um pedido de extinção processual em menos de um ano de obras — e a causa imediata não foi um revés de mercado distante, mas falhas no licenciamento conduzido pelo próprio estado: outorga ausente, ICMBio não consultado, captação de água omitida e licença emitida em tempo recorde após a audiência pública.
Parte IV — Green Energy Park: o projeto que nunca saiu do escritório
Se a Solatio colapsou, a Green Energy Park sequer chegou a começar. É fato que o projeto da GEP — anunciado em 2023 com €10 bilhões e obras “iniciadas em 2024, concluídas em dois anos” — chegou, em março de 2025, a contratar quatro funcionários para um escritório em Parnaíba, em estágio que a própria empresa descreveu como de estruturação do projeto para “atingir maturidade” e então anunciar o investimento. Ou seja: dois anos após o anúncio em Roterdã, o “maior projeto do mundo” ainda estava na fase de montar equipe e não havia tomado a decisão final de investimento (FID).
É fato que, após a desistência da Solatio, a Investe Piauí declarou que o projeto da Green Energy Park “continua avançando” e que o da Solatio estaria “em reformulação”. É avaliação desta redação que, traduzido do vocabulário institucional, “continua avançando” descreve um empreendimento bilionário que, anos após o anúncio, não tem planta, não tem FID e não produziu energia — e “em reformulação” descreve um projeto cuja executora pediu à Justiça para encerrar o caso.
Parte V — O contexto que a redação não omite
Seria desonesto creditar todo o naufrágio exclusivamente a Teresina. É fato que 2025 foi um ano de retração global para o hidrogênio verde. Cerca de 60 grandes projetos de hidrogênio de baixo carbono no mundo — incluindo iniciativas de gigantes como BP e ExxonMobil — foram cancelados ou suspensos no período, diante da alta de custos, da falta de compradores e da incerteza regulatória. Projetos voltados à exportação, como os do Piauí, foram justamente os mais atingidos por essa onda.
É avaliação desta redação que esse contexto explica parte do fracasso, mas não absolve a gestão estadual. A onda global ajuda a entender por que a Green Energy Park hesitou e por que a ACWA Power recuou. Ela não explica por que o estado emitiu uma licença de instalação sem outorga de água, sem autorização do ICMBio e quatro dias depois de uma audiência pública — decisões internas, de competência estadual, que entregaram à Justiça os argumentos para suspender tudo. O vento global derrubou muitos projetos; no Piauí, a casa já estava com a estrutura comprometida.
Parte VI — O saldo: avaliação desta redação
Reunidos os fatos, o que sobra do “Piauí, fábrica de hidrogênio verde do mundo”?
- Zero tonelada de hidrogênio produzida.
- Zero dos 20 mil empregos prometidos consolidados em operação.
- Um projeto (Solatio, R$ 27 bilhões) encerrado, com licenças canceladas e ação na Justiça.
- Um projeto (Green Energy Park, R$ 50 bilhões) sem decisão final de investimento anos após o anúncio.
- Um passivo de imagem: o licenciamento mais célebre da gestão entrou para o noticiário nacional como exemplo de atalho ambiental.
É avaliação desta redação que o hidrogênio verde funcionou, na prática, mais como ativo de marketing político — rendendo agendas em Roterdã, Lisboa, Seul e Brasília, fotos com ministros e o selo de “maior do mundo” — do que como política industrial executável. A pergunta que esta redação devolve ao governo não é por que o mercado global esfriou, e sim por que o estado conduziu o licenciamento de forma que a própria Justiça considerou frágil.
Contraditório
Esta reportagem encaminha ao Governo do Estado do Piauí, à Investe Piauí e à SEMARH os seguintes questionamentos, e se compromete a publicar as respostas na íntegra. Fica aberto o prazo de 48 horas para manifestação:
- Por que a Licença de Instalação (PI-LI.03699-2/2025) do projeto Solatio foi emitida apenas quatro dias após a audiência pública de 24/04/2025?
- Por que o licenciamento foi conduzido sem a prévia outorga de uso de recursos hídricos junto à ANA, sendo a captação de 91,2 milhões de litros/dia no Rio Parnaíba elemento central do empreendimento?
- Por que não foi solicitada a autorização do ICMBio, exigida pela Resolução Conama nº 428, considerando que a APA Delta do Parnaíba seria afetada?
- O amonioduto de aproximadamente 20 km foi deliberadamente mantido fora do escopo do licenciamento da planta? Em caso afirmativo, com que fundamento técnico-jurídico?
- Qual o valor de recursos públicos (diárias, passagens, estruturas de divulgação, eventos) empregado pelo estado na promoção internacional dos projetos de hidrogênio verde desde 2023?
- Diante do encerramento do projeto Solatio, qual é hoje o cronograma concreto — com data de decisão final de investimento — do projeto da Green Energy Park?
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