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junho 15, 2026 08:19

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O combustível do futuro que não saiu do papel: a história do fracasso do hidrogênio verde no Piauí

Como o governo Rafael Fonteles transformou o maior anúncio econômico de sua gestão — duas plantas de hidrogênio verde apresentadas como “as maiores do mundo”, R$ 200 bilhões em investimentos e 20 mil empregos — em um licenciamento contestado pela Justiça, uma empresa que desistiu e outra que nunca saiu da fase de escritório.

Matéria especial — Rádio Calçada

Parte I — O que é, afinal, hidrogênio verde

É fato que o hidrogênio é o elemento mais abundante do universo, mas raramente aparece sozinho na natureza: está sempre combinado a outras moléculas, como na água (H₂O). Para usá-lo como combustível, é preciso separá-lo — e a forma de separá-lo é o que define a sua “cor”.

O hidrogênio cinza, hoje dominante no mundo, é produzido a partir do gás natural e emite grandes quantidades de gás carbônico. O hidrogênio verde é produzido por eletrólise: usa-se eletricidade de fontes renováveis (solar e eólica) para quebrar a molécula de água e separar o hidrogênio do oxigênio, sem emissão de carbono no processo. Daí o apelido de “combustível do futuro”: ele permitiria descarbonizar setores difíceis de eletrificar — siderurgia, fertilizantes, transporte marítimo de longo curso.

No Brasil, o tema ganhou marco legal recente. É fato que a Lei nº 14.948, de 2 de agosto de 2024, instituiu a Política Nacional do Hidrogênio de Baixa Emissão de Carbono, criou o regime de incentivos Rehidro e atribuiu à ANP a competência para regular o setor. A lei define como “de baixa emissão” o hidrogênio que resulte em até 7 kg de CO₂ equivalente por quilo de hidrogênio produzido. Os incentivos fiscais do Programa de Desenvolvimento do Hidrogênio (PHBC) foram vetados nessa lei por imprecisão na redação e só vieram depois, pela Lei nº 14.990, de setembro de 2024.

É importante reter três características técnicas que vão explicar todo o resto desta matéria, e que o próprio material de divulgação do governo do Piauí admite: o hidrogênio verde é caro de produzir, difícil de armazenar e transportar, e depende de infraestrutura que ainda não existe. E há um quarto fator, decisivo no caso piauiense: a eletrólise consome água em escala industrial.

Parte II — A promessa: o “maior projeto do planeta”

É fato que, a partir de 2023, o hidrogênio verde se tornou a principal vitrine econômica da gestão Rafael Fonteles (PT). A narrativa foi construída em uma sequência de anúncios internacionais:

  • Outubro de 2023: durante o Congresso Mundial de Hidrogênio, em Roterdã (Holanda), o governo assinou carta de intenções com a croata Green Energy Park (GEP), prevendo € 10 bilhões (cerca de R$ 50 bilhões) e produção inicial de 5 GW de amônia verde por ano, com exportação pelo Porto de Luís Correia.
  • Novembro de 2023: o governador apresentou os projetos a executivos da Hyundai Motors, na Coreia do Sul.
  • 2024: novas rodadas em Roterdã (World Hydrogen Summit), incluindo memorando entre Eletrobras e Green Energy Park para fornecimento de energia, e em Lisboa (Conferência Ibero-Brasileira de Energia).
  • Março de 2025: em Brasília, o vice-presidente Geraldo Alckmin assinou a resolução do Conselho Nacional das ZPEs autorizando a instalação do projeto da Solatio — orçado em R$ 27 bilhões — na Zona de Processamento de Exportação (ZPE) de Parnaíba.

Somados, os dois empreendimentos — Green Energy Park e Solatio — foram apresentados pelo governo como “os dois maiores projetos de hidrogênio verde do mundo”, com R$ 200 bilhões em investimentos previstos, 20 GW de capacidade e a geração de 20 mil empregos. O discurso oficial era o de uma “nova industrialização do Piauí”.

É avaliação desta redação que aqui já se instala o primeiro problema: a distância entre a escala dos números anunciados em palanques internacionais e o que efetivamente se materializou no litoral piauiense.

Parte III — Solatio: anatomia de um colapso

O projeto da Solatio era o mais adiantado e o mais celebrado. É fato que, em 24 de abril de 2025, a SEMARH realizou audiência pública em Parnaíba para apreciar o EIA/RIMA do empreendimento, descrito como uma planta de 160 hectares, R$ 27 bilhões e cerca de 2,7 mil empregos. É fato que a Licença de Instalação (PI-LI.03699-2/2025) foi emitida apenas quatro dias depois da audiência. E é fato que, no início de junho de 2025, começaram a supressão vegetal e a limpeza de 154 hectares dentro da ZPE — a primeira etapa física da obra.

A partir daí, o projeto desabou em uma sucessão de problemas documentados:

O problema da água. É fato que a produção exigiria a captação de 3.800 m³ por hora — o equivalente a 91,2 milhões de litros de água por dia — do Rio Parnaíba, um curso hídrico federal. Segundo levantamento, esse volume é cerca de cinco vezes o consumo do município de Parnaíba (162 mil habitantes), que divide a mesma fonte. A captação se daria dentro da Área de Proteção Ambiental (APA) Delta do Parnaíba.

A outorga que não existia. É fato que a Agência Nacional de Águas (ANA) confirmou, por parecer, que não havia pedido de outorga de uso de recursos hídricos da Solatio. Pela legislação, a outorga deveria anteceder o próprio licenciamento. A ANA registrou ter havido infração administrativa na emissão das licenças sem ela.

O ICMBio fora do processo. É fato que a Resolução nº 428 do Conama exige autorização do órgão gestor da unidade de conservação — no caso, o ICMBio — para empreendimentos que a afetem. O licenciamento estadual seguiu sem essa autorização. O amonioduto de cerca de 20 km, estrutura que transportaria o hidrogênio na forma de amônia até o ponto de exportação e que atravessaria a APA, foi mantido fora do escopo do licenciamento da planta.

A investigação da imprensa. É fato que, em setembro de 2025, a Agência Pública revelou que Ibama, ICMBio e lideranças ambientais afirmaram desconhecer o projeto até a véspera da audiência pública, e que o licenciamento teria sido fracionado — analisado em partes — de modo a subdimensionar o impacto socioambiental real. A mesma reportagem registrou que negociações com um fundo ligado à ACWA Power, da Arábia Saudita, haviam travado.

A Justiça entra. É fato que o Ministério Público Federal ajuizou Ação Civil Pública (processo nº 1015531-92.2025.4.01.4002, Vara Federal de Parnaíba) pedindo a anulação das licenças. Em janeiro de 2026, a Justiça Federal suspendeu as obras, sob pena de multa diária de R$ 1 milhão.

A desistência. É fato que, em 21 de janeiro de 2026, a SEMARH cancelou administrativamente a licença ambiental. E é fato que, em 3 de fevereiro de 2026, a Solatio protocolou manifestação na Justiça informando que cancelou as próprias licenças e pedindo a extinção do processo por perda de interesse (art. 487 do CPC). No documento, a empresa reconheceu um obstáculo que ambientalistas vinham apontando havia meses: não havia garantia de fornecimento de energia elétrica para a planta.

É avaliação desta redação que o desfecho é eloquente: o empreendimento mais alardeado da gestão saiu do “maior projeto de hidrogênio verde do planeta” para um pedido de extinção processual em menos de um ano de obras — e a causa imediata não foi um revés de mercado distante, mas falhas no licenciamento conduzido pelo próprio estado: outorga ausente, ICMBio não consultado, captação de água omitida e licença emitida em tempo recorde após a audiência pública.

Parte IV — Green Energy Park: o projeto que nunca saiu do escritório

Se a Solatio colapsou, a Green Energy Park sequer chegou a começar. É fato que o projeto da GEP — anunciado em 2023 com €10 bilhões e obras “iniciadas em 2024, concluídas em dois anos” — chegou, em março de 2025, a contratar quatro funcionários para um escritório em Parnaíba, em estágio que a própria empresa descreveu como de estruturação do projeto para “atingir maturidade” e então anunciar o investimento. Ou seja: dois anos após o anúncio em Roterdã, o “maior projeto do mundo” ainda estava na fase de montar equipe e não havia tomado a decisão final de investimento (FID).

É fato que, após a desistência da Solatio, a Investe Piauí declarou que o projeto da Green Energy Park “continua avançando” e que o da Solatio estaria “em reformulação”. É avaliação desta redação que, traduzido do vocabulário institucional, “continua avançando” descreve um empreendimento bilionário que, anos após o anúncio, não tem planta, não tem FID e não produziu energia — e “em reformulação” descreve um projeto cuja executora pediu à Justiça para encerrar o caso.

Parte V — O contexto que a redação não omite

Seria desonesto creditar todo o naufrágio exclusivamente a Teresina. É fato que 2025 foi um ano de retração global para o hidrogênio verde. Cerca de 60 grandes projetos de hidrogênio de baixo carbono no mundo — incluindo iniciativas de gigantes como BP e ExxonMobil — foram cancelados ou suspensos no período, diante da alta de custos, da falta de compradores e da incerteza regulatória. Projetos voltados à exportação, como os do Piauí, foram justamente os mais atingidos por essa onda.

É avaliação desta redação que esse contexto explica parte do fracasso, mas não absolve a gestão estadual. A onda global ajuda a entender por que a Green Energy Park hesitou e por que a ACWA Power recuou. Ela não explica por que o estado emitiu uma licença de instalação sem outorga de água, sem autorização do ICMBio e quatro dias depois de uma audiência pública — decisões internas, de competência estadual, que entregaram à Justiça os argumentos para suspender tudo. O vento global derrubou muitos projetos; no Piauí, a casa já estava com a estrutura comprometida.

Parte VI — O saldo: avaliação desta redação

Reunidos os fatos, o que sobra do “Piauí, fábrica de hidrogênio verde do mundo”?

  1. Zero tonelada de hidrogênio produzida.
  2. Zero dos 20 mil empregos prometidos consolidados em operação.
  3. Um projeto (Solatio, R$ 27 bilhões) encerrado, com licenças canceladas e ação na Justiça.
  4. Um projeto (Green Energy Park, R$ 50 bilhões) sem decisão final de investimento anos após o anúncio.
  5. Um passivo de imagem: o licenciamento mais célebre da gestão entrou para o noticiário nacional como exemplo de atalho ambiental.

É avaliação desta redação que o hidrogênio verde funcionou, na prática, mais como ativo de marketing político — rendendo agendas em Roterdã, Lisboa, Seul e Brasília, fotos com ministros e o selo de “maior do mundo” — do que como política industrial executável. A pergunta que esta redação devolve ao governo não é por que o mercado global esfriou, e sim por que o estado conduziu o licenciamento de forma que a própria Justiça considerou frágil.

Contraditório

Esta reportagem encaminha ao Governo do Estado do Piauí, à Investe Piauí e à SEMARH os seguintes questionamentos, e se compromete a publicar as respostas na íntegra. Fica aberto o prazo de 48 horas para manifestação:

  1. Por que a Licença de Instalação (PI-LI.03699-2/2025) do projeto Solatio foi emitida apenas quatro dias após a audiência pública de 24/04/2025?
  2. Por que o licenciamento foi conduzido sem a prévia outorga de uso de recursos hídricos junto à ANA, sendo a captação de 91,2 milhões de litros/dia no Rio Parnaíba elemento central do empreendimento?
  3. Por que não foi solicitada a autorização do ICMBio, exigida pela Resolução Conama nº 428, considerando que a APA Delta do Parnaíba seria afetada?
  4. O amonioduto de aproximadamente 20 km foi deliberadamente mantido fora do escopo do licenciamento da planta? Em caso afirmativo, com que fundamento técnico-jurídico?
  5. Qual o valor de recursos públicos (diárias, passagens, estruturas de divulgação, eventos) empregado pelo estado na promoção internacional dos projetos de hidrogênio verde desde 2023?
  6. Diante do encerramento do projeto Solatio, qual é hoje o cronograma concreto — com data de decisão final de investimento — do projeto da Green Energy Park?

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