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agosto 11, 2026 18:27

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Quase metade de quem trabalha para patrão privado no Piauí não tem carteira assinada

O estado é o penúltimo do Brasil no percentual de empregados com registro. Só o Maranhão está abaixo. A distância para Santa Catarina é de 33 pontos percentuais

Trabulo Neto (0002880/PI) e Trabulo Júnior (0014965/DF)

Reportagem da série “O trabalho que o Piauí tem”. Cada texto da série explica um indicador oficial do mercado de trabalho piauiense, o que ele mede, o que ele esconde e o que ele significa na vida de quem trabalha.

O número

No primeiro trimestre de 2026, 53,7% dos empregados do setor privado do Piauí tinham carteira de trabalho assinada. É o segundo menor percentual do Brasil. Só o Maranhão ficou abaixo, com 53,4%.

Na outra ponta da tabela, Santa Catarina registrou 86,7%, São Paulo 82,1% e Rio Grande do Sul 80,5%. A média nacional foi de 74,7%.

A distância entre o Piauí e a média brasileira é de 21 pontos percentuais. Para Santa Catarina, de 33.

Não é oscilação de um trimestre. No terceiro trimestre de 2025, o índice piauiense era de 52,4%. Na média de todo o ano de 2025, ficou em 54,3%. O patamar se mantém teimosamente na casa dos cinquenta e poucos por cento, ano após ano.

O que esse número mede, exatamente

Aqui é preciso ser preciso, porque a confusão é fácil.

O indicador não fala de todo mundo que trabalha. Ele fala especificamente de empregados do setor privado, ou seja, gente que tem patrão, que cumpre horário, que recebe ordens e que trabalha para uma empresa ou para outra pessoa.

Não entram nessa conta o servidor público, o trabalhador por conta própria, o empresário nem o dono do próprio negócio.

Então a leitura correta é esta: de cada dez piauienses que têm um patrão privado, quase cinco trabalham sem registro em carteira.

Não é gente que escolheu ser autônoma. É gente empregada, com chefe e com expediente, cujo vínculo simplesmente não foi formalizado.

O que muda na prática

Trabalhar sem carteira assinada não é um detalhe burocrático. É a diferença entre ter e não ter um conjunto inteiro de proteções.

Quem não tem registro não tem FGTS depositado todo mês. Não tem aviso prévio se for dispensado. Não tem direito a seguro-desemprego. Não tem décimo terceiro garantido por lei. Não tem férias remuneradas asseguradas. Não tem contribuição previdenciária recolhida pelo empregador, o que significa que aquele tempo de trabalho não conta para a aposentadoria.

Se sofrer um acidente, não tem estabilidade acidentária. Se engravidar, não tem licença-maternidade paga pelo INSS. Se a empresa fechar, não tem nenhum crédito trabalhista reconhecido automaticamente e vai precisar entrar na Justiça para provar que trabalhou ali.

É avaliação desta redação que o dado de 53,7% descreve menos uma característica cultural do mercado piauiense e mais uma falha de fiscalização somada a uma estrutura econômica de empresas pequenas e margens estreitas, em que o custo de registrar é sentido como inviável pelo empregador e a ausência de registro é aceita pelo empregado por falta de alternativa.

Por que isso não aparece nos anúncios oficiais

O governo do estado divulga com frequência os números do Novo Caged, que registra admissões e demissões com carteira assinada. Em 2025, o Piauí gerou 21.022 empregos formais, com crescimento de 5,81% no estoque, terceira maior taxa do país.

Esse dado é verdadeiro e é bom. Mas ele mede exclusivamente o universo de quem já está registrado. O Caged não enxerga o trabalhador sem carteira, porque um trabalhador sem carteira, por definição, nunca foi admitido no sistema.

Ou seja: o indicador que o governo divulga e o indicador desta reportagem não se contradizem. Eles falam de mundos diferentes. O primeiro mede o crescimento dentro da formalidade. O segundo mede o tamanho da parte que ficou de fora.

Como esta reportagem foi feita

Os dados de percentual de empregados com carteira assinada no setor privado vêm da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do IBGE, nas divulgações trimestrais do primeiro trimestre de 2026 e do terceiro trimestre de 2025, e na retrospectiva anual de 2025.

Os dados de emprego formal vêm do balanço do Novo Caged de 2025, do Ministério do Trabalho e Emprego.

Contraditório

A Rádio Calçada procura a Superintendência Regional do Trabalho no Piauí para que informe quantas ações fiscais foram realizadas no estado nos exercícios de 2024 e 2025, quantos trabalhadores foram registrados em decorrência dessas ações e qual o número de auditores fiscais do trabalho em atividade no Piauí.

A Rádio Calçada procura a Secretaria de Estado do Trabalho e Empreendedorismo para que informe se o estado mantém programa próprio de estímulo à formalização de vínculos empregatícios e quais os resultados aferidos.

As respostas serão publicadas na íntegra, sem edição, no momento em que chegarem.

Fiscalização

A Rádio Calçada solicita ao Ministério Público do Trabalho da 22ª Região que informe se há inquérito civil ou procedimento em curso sobre informalidade de vínculos em setores específicos da economia piauiense, e quais setores concentram o maior número de denúncias.

Nesta série

A próxima reportagem trata da informalidade em sentido amplo, que soma o empregado sem carteira, o doméstico sem registro, o empregador sem CNPJ e o trabalhador por conta própria, e da conta previdenciária que esse conjunto vai apresentar ao país nas próximas décadas.

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