A taxa piauiense é de 52,7%, uma das três maiores do Brasil, contra média nacional de 37,8%. Trabalho informal não gera contribuição, e quem não contribui hoje vai depender do Estado depois
Trabulo Neto (0002880/PI) e Trabulo Júnior (0014965/DF)
Reportagem da série “O trabalho que o Piauí tem”. Cada texto da série explica um indicador oficial do mercado de trabalho piauiense, o que ele mede, o que ele esconde e o que ele significa na vida de quem trabalha.
O número
No terceiro trimestre de 2025, a taxa de informalidade da população ocupada do Piauí foi de 52,7%. É a terceira maior do país, atrás apenas do Maranhão, com 57,0%, e do Pará, com 56,5%.
A média brasileira no mesmo período foi de 37,8%.
Na outra ponta, Santa Catarina registrou 24,9%, o Distrito Federal 26,9% e São Paulo 29,3%.
Traduzindo: mais da metade dos piauienses que trabalham não tem vínculo formal de nenhum tipo.
O que o IBGE chama de informalidade
Este é um dos indicadores mais mal explicados do noticiário econômico, então vale abrir.
A taxa de informalidade do IBGE soma cinco grupos de pessoas:
- Empregados do setor privado sem carteira de trabalho assinada.
- Trabalhadores domésticos sem carteira assinada.
- Empregadores sem registro no CNPJ.
- Trabalhadores por conta própria sem registro no CNPJ.
- Trabalhadores familiares auxiliares, que é quem trabalha no negócio da família sem remuneração própria.
Repare que o indicador não é sobre trabalho ilegal, nem sobre economia clandestina, nem sobre sonegação. É sobre ausência de vínculo registrado. O motorista de aplicativo, a manicure que atende em casa, o pedreiro que trabalha por empreitada e a diarista sem registro estão todos aqui.
São pessoas que trabalham. Muitas delas trabalham mais horas do que quem tem carteira assinada.
A parte que ninguém quer discutir: a conta previdenciária
Trabalho informal não gera contribuição previdenciária.
Isso tem uma consequência que não aparece este ano nem no ano que vem, e que por isso raramente entra no debate público. Quem trabalha a vida inteira sem contribuir não se aposenta por tempo de contribuição. Vai depender do Benefício de Prestação Continuada, o BPC, ou de uma aposentadoria rural, ou de nada.
O BPC é pago pelo governo federal a quem tem 65 anos ou mais e renda familiar por pessoa abaixo do limite legal. Não exige contribuição prévia. É um benefício assistencial, não previdenciário.
É avaliação desta redação que o Piauí está, hoje, produzindo a demanda por benefício assistencial de 2045. Cada ano em que metade da força de trabalho do estado permanece sem contribuir é um ano acrescentado a esse passivo.
E há um efeito de segunda ordem que atinge diretamente o orçamento do estado. Trabalho informal não gera folha de pagamento declarada. Folha declarada é base de arrecadação. Um estado com informalidade acima de 50% arrecada proporcionalmente menos por trabalhador e depende mais de tributo sobre consumo, que pesa mais sobre quem ganha menos.
Ou seja: a informalidade empobrece o trabalhador hoje, compromete a aposentadoria dele amanhã e reduz a capacidade do estado de financiar serviços no meio do caminho.
Um alerta contra a leitura preguiçosa
Existe uma leitura fácil desses números que a Rádio Calçada rejeita.
A leitura fácil diz que o piauiense é informal por escolha, por preferir não ter patrão, ou por acomodação. Os dados não sustentam isso.
O que os dados mostram é um estado onde a economia formal privada é pequena e concentrada. Como esta série já demonstrou em reportagem anterior, cerca de 61% de todo o emprego com carteira assinada do Piauí está em Teresina. Nos outros 223 municípios, o emprego formal privado é residual.
Informalidade, nesse contexto, não é preferência. É o que sobra.
Como esta reportagem foi feita
Os dados de informalidade vêm da PNAD Contínua do IBGE, divulgação trimestral referente ao terceiro trimestre de 2025, e da retrospectiva anual de 2025, que traz a definição metodológica do indicador reproduzida acima.
Os dados sobre concentração do emprego formal vêm do balanço do Novo Caged de 2025 e foram detalhados na segunda reportagem desta série.
Contraditório
A Rádio Calçada procura a Secretaria de Estado do Planejamento do Piauí para que informe se o governo estadual trabalha com meta oficial de redução da taxa de informalidade, qual o percentual perseguido, qual o prazo e qual o indicador usado para aferição.
A Rádio Calçada procura a Secretaria de Estado do Trabalho e Empreendedorismo para que informe quais programas estaduais em execução têm a formalização como objetivo declarado e quantos trabalhadores foram formalizados por meio deles nos exercícios de 2023, 2024 e 2025.
As respostas serão publicadas na íntegra, sem edição, no momento em que chegarem.
Fiscalização
A Rádio Calçada solicita ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí que informe se os programas estaduais de qualificação profissional e de estímulo ao empreendedorismo foram objeto de auditoria operacional, e se há aferição de resultado que relacione o recurso aplicado ao número de trabalhadores efetivamente formalizados.
Nesta série
A próxima reportagem trata do maior grupo isolado do mercado de trabalho piauiense: os 305 mil trabalhadores por conta própria sem CNPJ.














