A taxa avançou 0,9 ponto no primeiro trimestre de 2026 e ficou entre as cinco maiores do país. Mas o dado que descreve o Piauí é outro, e ele quase não circulou
Trabulo Neto (0002880/PI) e Trabulo Júnior (0014965/DF)
Reportagem da série “O trabalho que o Piauí tem”. Cada texto da série explica um indicador oficial do mercado de trabalho piauiense, o que ele mede, o que ele esconde e o que ele significa na vida de quem trabalha.O número
No primeiro trimestre de 2026, a taxa de desocupação do Piauí foi de 8,9%, alta de 0,9 ponto percentual em relação ao último trimestre de 2025.
É a quinta maior taxa entre os estados brasileiros. As maiores foram Amapá, com 10,0%, Bahia, com 9,2%, e Alagoas, com 9,2%. As menores foram Santa Catarina, com 2,7%, Mato Grosso, com 3,1%, e Espírito Santo, com 3,2%.
A média nacional no mesmo trimestre foi de 6,1%, também em alta, de 1,0 ponto percentual.
A ressalva que precisa vir antes da crítica
A Rádio Calçada faz questão de registrar duas coisas que enfraquecem qualquer leitura alarmista desse número isolado.
Primeira: a alta não foi um fenômeno piauiense. O desemprego subiu em quinze das vinte e sete unidades da federação no mesmo trimestre, e a média nacional subiu mais do que a piauiense, 1,0 ponto contra 0,9.
Segunda: o IBGE atribui o movimento a fator sazonal. Vagas temporárias abertas no fim do ano são encerradas nos primeiros meses do ano seguinte, e o primeiro trimestre historicamente registra alta. Comparar o primeiro trimestre de 2026 com o quarto trimestre de 2025 é comparar períodos de natureza diferente.
Um veículo que apresentasse os 8,9% como catástrofe estaria fazendo jornalismo ruim. A comparação honesta é com o mesmo trimestre de anos anteriores, e nessa base o desempenho piauiense recente não é o pior da série.
Por que, ainda assim, o número não tranquiliza
Porque ele mede muito pouco.
Para o IBGE, desempregado é quem não trabalhou na semana de referência e procurou trabalho ativamente. Quem trabalhou uma hora é ocupado. Quem parou de procurar sai da conta.
Num estado onde 22,8% dos ocupados são autônomos sem CNPJ, onde 52,7% da população ocupada está na informalidade e onde o desalento é o triplo da média nacional, a taxa de desemprego captura uma fatia estreita do problema.
Coloque os números desta série lado a lado e a distorção fica evidente:
| Indicador | Piauí | Brasil |
|---|---|---|
| Taxa de desemprego (1º tri 2026) | 8,9% | 6,1% |
| Subutilização (1º tri 2026) | 30,4% | 14,3% |
| Informalidade (3º tri 2025) | 52,7% | 37,8% |
| Desalento (1º tri 2026) | 7,6% | 2,4% |
| Empregados privados com carteira (1º tri 2026) | 53,7% | 74,7% |
A distância entre o Piauí e o Brasil é de 2,8 pontos na taxa de desemprego. Nos outros quatro indicadores, ela vai de 5,2 a 21 pontos.
O desemprego é justamente o indicador em que o Piauí menos se distancia da média nacional. É também o único que costuma aparecer no debate público.
O número que deveria estar na manchete
O nível de ocupação do Piauí no primeiro trimestre de 2026 foi de 48,7%, o sétimo menor do país, contra média nacional de 58,2%.
De cada 100 piauienses em idade de trabalhar, cerca de 49 estão trabalhando ou procurando trabalho, e 51 estão fora da força de trabalho.
É avaliação desta redação que este é o dado central do mercado de trabalho piauiense, e que a taxa de desemprego só parece administrável porque metade da população em idade ativa já não está sendo contada.
O que esta série mostrou
Ao longo de seis reportagens, a Rádio Calçada usou apenas dados públicos do IBGE, do Ministério do Trabalho e Emprego e do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, sem nenhuma informação exclusiva, para chegar a um retrato que não estava sendo publicado.
O Piauí tem o penúltimo percentual de empregados com carteira assinada do Brasil. Tem a maior subutilização do país. Tem o terceiro maior desalento. Tem mais da metade da população ocupada na informalidade. Tem, como maior categoria isolada do mercado de trabalho, o autônomo sem CNPJ. E tem cerca de 61% de todo o seu emprego formal concentrado em uma única cidade.
Nada disso é segredo. Está tudo publicado, mês a mês, nos sites oficiais.
Como esta reportagem foi feita
Todos os dados vêm da PNAD Contínua do IBGE, nas divulgações do primeiro trimestre de 2026 e do terceiro trimestre de 2025 e na retrospectiva anual de 2025, e do Novo Caged do Ministério do Trabalho e Emprego, balanço de 2025.
A tabela comparativa desta reportagem foi montada pela redação a partir desses dados. Os indicadores têm períodos de referência diferentes, indicados na própria tabela, e por isso devem ser lidos como ordens de grandeza comparáveis, não como medições simultâneas.
Contraditório
A Rádio Calçada procura a Secretaria de Estado do Planejamento do Piauí para que informe qual conjunto de indicadores o governo estadual utiliza para avaliar a situação do mercado de trabalho no estado, se o nível de ocupação e a subutilização estão entre eles, e onde esses dados são publicados.
A Rádio Calçada procura a Secretaria de Estado do Trabalho e Empreendedorismo para que informe se existe plano estadual de emprego com metas quantificadas e prazos, e onde ele pode ser consultado.
As respostas serão publicadas na íntegra, sem edição, no momento em que chegarem.
Fiscalização
A Rádio Calçada solicita ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí que informe se o planejamento estadual em matéria de trabalho e renda estabelece metas mensuráveis vinculadas a indicadores oficiais, e se a eventual ausência dessas metas já foi objeto de apontamento em processo de contas de governo.
A Rádio Calçada solicita ao Ministério Público de Contas do Estado do Piauí que se manifeste sobre a suficiência dos indicadores de resultado adotados nos programas estaduais de geração de emprego e renda.














