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junho 23, 2026 19:50

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Cobramos o minério, mas defendemos o peixe: Trabulo Neto explica a diferença

Quem acompanha esta série sabe que questionamos o modelo de exportação de minério do Porto Piauí. Mas justiça é separar o que se sustenta do que não se sustenta  e o Terminal Pesqueiro se sustenta

Por Trabulo Neto

Nesta série, esta redação tem cobrado do Governo do Estado respostas sobre o modelo de exportação de minério do Porto Piauí: o transbordo por barcaças, o custo por tonelada não divulgado, os prazos que escorregam. Vamos continuar cobrando. Mas seria desonesto, e mau jornalismo, tratar tudo no Porto Piauí com a mesma desconfiança. Há uma parte do complexo que merece defesa, e eu a defendo abertamente: o Terminal Pesqueiro de Luís Correia.

A diferença entre as duas coisas é simples e vale explicar.

O minério é uma aposta cujo beneficiário direto é uma empresa privada, com custo por tonelada que o estado não mostrou e um modelo logístico que nenhum outro porto do país adota. O Terminal Pesqueiro é o contrário: o beneficiário direto é o pescador de Luís Correia, e o problema que ele resolve já existe, é concreto e é antigo.

Os números falam por si. Segundo a Investe Piauí, três em cada dez habitantes de Luís Correia estão envolvidos com a pesca, e há 8.335 pescadores cadastrados na Secretaria de Pesca do município. Não se trata, aqui, de um benefício difuso e prometido para o futuro: é a base econômica de um terço de uma cidade.

E o que esse pescador vive hoje é o que justifica o terminal. Sem estrutura própria, boa parte deles vende o pescado a atravessadores por um preço aviltado, que mal cobre o custo do trabalho. É exploração na origem da cadeia, e qualquer estrutura que reduza a dependência do atravessador melhora diretamente a renda de quem pesca.

É exatamente isso que o terminal se propõe a fazer. Com a indústria de pescado instalada ao lado, o pescador passa a vender direto, por um valor melhor. O terminal oferece gelo, combustível e suprimentos com mais qualidade, o que torna a pesca mais segura e eficiente. E o beneficiamento do pescado gera emprego em terra, muitas vezes para as mulheres dos pescadores, ampliando a renda da família, não de um acionista.

Há ainda um argumento que, no caso do peixe, é legítimo, e que no caso do minério eu acho frágil: a retenção de riqueza no Piauí. Boa parte da produção pesqueira hoje escoa para o Ceará, por falta de infraestrutura aqui, levando junto o imposto e o valor agregado. No pescado, isso é verdadeiro e palpável: a cadeia inteira — captura, beneficiamento, comercialização — pode ficar no município. É desenvolvimento que nasce e fica em Luís Correia.

A infraestrutura é compatível com o propósito, e isso também importa. O cais do terminal tem 110 metros de comprimento e foi projetado para embarcações de 60 toneladas de arqueação bruta e 6 metros de calado — dimensões de barco de pesca. Aqui, o calado raso do canal não é um problema a ser contornado com transbordo em alto-mar: é exatamente o que a atividade pesqueira precisa. A estrutura serve à função, sem malabarismo logístico.

Defender o propósito, porém, não é dar cheque em branco à execução. O Terminal Pesqueiro também tem dinheiro público investido, prazo a cumprir e uma indústria de pescado ainda a ser confirmada — e tudo isso esta redação vai continuar acompanhando, como acompanha o resto do complexo. Defender a ideia e vigiar a obra são, para nós, a mesma tarefa.

Por isso a distinção que faço é de método, não de torcida. O Terminal Pesqueiro resolve um problema real de uma população real, com uma infraestrutura adequada ao que se propõe e um beneficiário que é a comunidade. Defendê-lo não me obriga a aceitar, sem prova, que o modelo de minério ao lado seja igualmente bom. São dois projetos diferentes, com lógicas diferentes, e o jornalismo que esta redação pratica trata cada um pelo que ele é.

Defender o pescador e cobrar transparência sobre o minério não são posições contraditórias. São a mesma coisa: defender o interesse de quem vive no Piauí.

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