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junho 23, 2026 19:51

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Estatal detalha barcaças de 5 mil toneladas para exportar minério, mas custo da operação segue sem divulgação

Enquanto o governador fala apenas em “transhipment” e as notas oficiais citam “mini-bulkers”, foi o presidente da Companhia Porto Piauí, empresa estatal, quem descreveu o modelo real — barcaças levando o minério a navios em alto-mar — e anunciou R$ 9,5 milhões públicos na estrutura; o valor por tonelada da operação, porém, nunca foi apresentado

Investigação e denúncias: Trabulo Neto e Trabulo Júnior

Ao anunciar que o Porto Piauí, em Luís Correia, exportará minério de ferro a partir de 2026, o poder público descreveu a operação de formas diferentes, conforme quem fala. Esta redação reuniu as declarações oficiais e encontrou um descompasso: a cúpula trata o tema de modo genérico, enquanto a estatal que administra o porto já detalhou equipamentos e investimentos — mas o dado central, o custo por tonelada, permanece sem divulgação pública.

O QUE CADA UM DISSE SOBRE A OPERAÇÃO

O governador Rafael Fonteles referiu-se à operação como “transhipment” e anunciou a primeira exportação para junho de 2026, sem detalhar as embarcações.

As notas oficiais do governo, divulgadas em setembro de 2025, descreveram o embarque pela técnica de transhipment, com “embarcações menores, do tipo mini-bulkers”, levando o minério até navios de grande porte.

O presidente da Companhia Porto Piauí, Raimundo Dias, foi quem detalhou o modelo concreto: a Investe Piauí investiria cerca de R$ 9,5 milhões na construção de um galpão inflável de 250 metros, com capacidade para 200 mil toneladas, além da infraestrutura de acostagem das barcaças, e as embarcações teriam capacidade de 5 mil toneladas cada, transportando o minério para alto-mar.

Há, portanto, um descompasso na comunicação pública: o termo técnico e os números concretos — barcaças, tonelagem, investimento — partiram da estatal, não da cúpula do governo, que mantém a descrição em um nível genérico.

QUEM É A COMPANHIA PORTO PIAUÍ

A Companhia Porto Piauí é uma empresa estatal, uma sociedade de economia mista sob gestão da Investe Piauí, criada para administrar o complexo portuário. Por essa natureza, suas decisões e seus investimentos estão sujeitos ao controle do Tribunal de Contas do Estado e do Ministério Público de Contas.

Sendo a operação por barcaças descrita por dirigente de empresa pública, e não por agente privado, a transparência sobre seus custos é uma exigência de controle, não uma cortesia.

O MODELO É POR BARCAÇAS — E ISSO TEM IMPLICAÇÃO DE CUSTO

O modelo de transbordo por barcaças, em que embarcações menores levam a carga até um navio fundeado em alto-mar, é o adotado pela empresa parceira nas negociações, a Rocktree Logistics, especializada nesse tipo de operação para granéis sólidos.

Esse modelo dispensa o investimento pesado em dragagem profunda e berço de águas profundas, mas acrescenta etapas de manuseio — carregar a barcaça, transferir para o navio em alto-mar —, o que tem efeito direto sobre o custo por tonelada movimentada.

Nenhum dos grandes terminais de minério do Brasil — Ponta da Madeira, Tubarão, o terminal da Ferroport no Porto do Açu, Itaguaí e Ilha Guaíba — utiliza esse sistema, todos operando com navios atracando diretamente em águas profundas.

Adotar um modelo que nenhum porto de minério do país usa torna a demonstração de viabilidade econômica ainda mais necessária, e não menos.

O DADO QUE FALTA

O Estado já comprometeu cerca de R$ 600 milhões em recursos públicos no porto, somados R$ 200 milhões já aplicados e R$ 400 milhões previstos no orçamento de 2025 e 2026, segundo o presidente da estatal. Existe contrato entre a Companhia Porto Piauí e a mineradora Lion Mining, garantindo o envio do minério para transbordo. A estatal contratou a LabTrans para elaborar o plano de negócio do porto.

Apesar de todos esses elementos, o custo por tonelada da operação de transbordo nunca foi apresentado publicamente, nem a comparação com a rota atual, em que o minério segue por rodovia até o Porto do Pecém, no Ceará.

Sem o custo por tonelada e sem a divulgação do plano de negócio elaborado pela LabTrans, a promessa de redução de custos logísticos permanece como afirmação não demonstrada, mesmo com recursos públicos já comprometidos e um modelo de embarque inédito no país para o minério.

CONTRADITÓRIO

Esta redação encaminha os seguintes questionamentos ao Governo do Estado, à Investe Piauí e à Companhia Porto Piauí, e solicita resposta:

  1. Qual o custo por tonelada projetado para a operação de transbordo por barcaças, e como ele se compara ao custo atual de escoamento por rodovia até o Porto do Pecém?
  2. O plano de negócio do porto, elaborado pela LabTrans, é público? Em caso negativo, por quê?
  3. Quantas barcaças, de 5 mil toneladas cada, serão necessárias para movimentar a meta de 1 milhão de toneladas em 2026, e qual o investimento total, público e privado, na frota e na estrutura de acostagem?
  4. O investimento de R$ 9,5 milhões no galpão inflável já foi licitado e contratado? Qual a empresa responsável?
  5. Existe contrato firmado com a Rocktree Logistics para a operação de transbordo, ou apenas o memorando de entendimento assinado em março de 2024?
  6. Qual o volume mínimo de minério necessário para que a operação por barcaças seja economicamente viável frente à rota atual?

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