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junho 23, 2026 19:55

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Em defesa do Porto Piauí, Bob Z acerta no calado, mas erra nos exemplos: São Sebastião e Angra não exportam minério

Publicação que defende o terminal de Luís Correia descreve corretamente o modelo de transbordo e o canal raso, mas usa como prova dois portos que não movimentam minério de ferro e trata como sucesso pronto uma operação portuária que ainda é teste e já escorregou de 2024 para 2026 — enquanto dezenas de milhões em recursos públicos já foram aplicados na obra

Investigação e denúncias: Trabulo Neto e Trabulo Júnior

Uma publicação assinada por Bob Z (@eubobz) https://www.instagram.com/p/DZ3k3lqsY67/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=MzRlODBiNWFlZA== , curtida por figuras da política local, defendeu o Porto Piauí, em Luís Correia, como um “game changer” para o litoral e detalhou como o terminal exportaria minério de ferro mesmo com um canal raso. Esta redação checou cada dado técnico do texto e cruzou as afirmações com o funcionamento real dos portos de minério do Brasil e com os contratos da obra. O resultado é misto: parte do que a publicação afirma está tecnicamente correta; outra parte se apoia em comparações que não se sustentam e em um sucesso que, no porto, ainda não aconteceu.

ONDE A PUBLICAÇÃO ACERTA

É fato que o canal de Luís Correia opera com calado de 6 a 7 metros, enquanto um navio Capesize carregado exige profundidade de 15 a 20 metros — e essa é, de fato, a razão técnica pela qual o porto depende de transbordo.

É fato que o modelo descrito na publicação, o transbordo em alto-mar (transhipment, ou ship-to-ship), corresponde ao plano oficial do governo. O Estado, por meio da Investe Piauí e da Companhia Porto Piauí, negocia a operação com a mineradora Lion Mining e com a empresa asiática Rocktree Logistics, com memorando de entendimento assinado em Singapura em março de 2024.

É fato que o governo prevê o aprofundamento do canal para 11 metros até o fim de 2025. Ainda assim, 11 metros permanecem abaixo do exigido para a atracação direta de um Capesize carregado, o que mantém a necessidade do transbordo.

É avaliação desta redação que, nesses pontos, a publicação descreve corretamente a engenharia logística do projeto.

ONDE A PUBLICAÇÃO TROPEÇA

É fato que nem São Sebastião nem Angra dos Reis são portos de minério de ferro. São Sebastião movimenta sobretudo açúcar, barrilha e coque de petróleo, com cerca de 1,4 milhão de toneladas ao ano. Angra dos Reis é, desde 1970, exportador de produtos siderúrgicos da CSN, além de ponto turístico. As grandes tonelagens que aparecem com esses nomes nas estatísticas da Antaq pertencem, na verdade, a terminais de petróleo, e o minério da região sai por um terminal separado, o da Ilha Guaíba. É avaliação desta redação que recorrer a dois portos que não exportam minério para defender um porto que vai exportar minério é uma comparação que não prova o ponto.

O modelo no contexto brasileiro. É fato que os cinco maiores terminais de minério do país operam com navios atracando diretamente em berços de águas profundas, e não fundeados ao largo: Ponta da Madeira (MA), que embarcou 166,3 milhões de toneladas em 2023; Tubarão (ES), com capacidade de 120 milhões de toneladas ao ano; o terminal da Ferroport, no Porto do Açu (RJ), que exportou um recorde de 25 milhões de toneladas em 2024; além de Itaguaí e Ilha Guaíba, no Rio de Janeiro. É fato que até o terminal de minério mais novo do país, o Açu, inaugurado em 2014, foi construído com atracação direta em águas profundas. É avaliação desta redação que o transbordo ancorado, apresentado como solução amplamente utilizada, tornaria Luís Correia uma exceção entre os portos de minério brasileiros, não a regra.

O sucesso já pronto. É fato que a Lion Mining produz cerca de 1,5 milhão de toneladas por ano e já exporta — mas, hoje, pelo Porto do Pecém, no Ceará, por rodovia, com 28 navios já enviados, principalmente à China. É fato que a operação pelo Porto Piauí permanece em fase de teste e que a previsão original, de 2024, foi adiada para 2026. É avaliação desta redação que a publicação confunde o sucesso da mina com o sucesso do porto: a mineração de Piripiri já é uma realidade exportadora; o terminal de Luís Correia, na função de escoar esse minério, ainda não. A própria existência das exportações via Pecém demonstra que a mina não dependeu do porto para ser bem-sucedida.

A ESCALA PROJETADA

É fato que a Companhia Porto Piauí projeta exportar 1 milhão de toneladas em 2026, com expectativa de dobrar para 2 milhões em 2027. É avaliação desta redação que, mesmo cumpridas as metas, o volume é uma fração dos terminais consolidados — os 25 milhões do Açu ou os 166 milhões de Ponta da Madeira —, o que coloca a viabilidade econômica do transbordo, o custo por tonelada e a oferta de embarcações feeders especializadas como as perguntas centrais ainda sem resposta.

O DINHEIRO PÚBLICO E OS PRAZOS

É fato que os prazos se sucederam. Em 2007, R$ 50 milhões foram destinados à conclusão e dragagem do canal, em projeto depois abandonado. Em dezembro de 2023, foi inaugurada a primeira etapa, com o canal dragado a 7 metros na maré baixa. A primeira operação de minério, prevista para 2024, foi adiada; surgiu nova previsão de dezembro de 2025 para o fertilizante e do primeiro quadrimestre de 2026 para o minério; em abril de 2026, o governador reafirmou “ainda neste ano”.

É avaliação desta redação que a sucessão de prazos não cumpridos, somada ao volume de recursos públicos já aplicado em obras cujo objetivo final — a operação de exportação — ainda não se concretizou, é o que justifica o acompanhamento pelo controle externo.

CONTRADITÓRIO

Esta redação encaminha os seguintes questionamentos ao Governo do Estado, à Investe Piauí e à Companhia Porto Piauí, e solicita resposta:

  1. Qual o valor total de recursos públicos já executado nas obras do porto, somadas a dragagem, o terminal pesqueiro, o acesso e as demais etapas?
  2. Qual empresa venceu a licitação de dragagem (Pregão eletrônico 001/2023) e qual o valor efetivamente pago?
  3. O aprofundamento do canal para 11 metros, previsto para o fim de 2025, foi concluído? Em caso negativo, qual o novo prazo e o custo adicional?
  4. Existe contrato firmado, e não apenas memorando de entendimento, com a Rocktree Logistics para a operação de transbordo?
  5. Por que a primeira exportação de minério, prevista para 2024, foi sucessivamente adiada, e o que assegura o prazo de 2026?
  6. Qual o custo por tonelada projetado no transbordo, comparado ao escoamento atual pelo Porto do Pecém?

Esta redação informa que o conteúdo desta reportagem foi encaminhado ao Ministério Público de Contas do Estado do Piauí (MPC-PI), ao Procurador de Contas responsável, para análise e eventuais providências cabíveis.

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