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agosto 11, 2026 17:45

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Desalento é o nome técnico para quem desistiu. No Piauí, a taxa é o triplo da média do Brasil

O estado tem o terceiro maior percentual de desalentados do país. E metade dos piauienses em idade de trabalhar está fora da força de trabalho

Trabulo Neto (0002880/PI) e Trabulo Júnior (0014965/DF)

Reportagem  da série “O trabalho que o Piauí tem”. Cada texto da série explica um indicador oficial do mercado de trabalho piauiense, o que ele mede, o que ele esconde e o que ele significa na vida de quem trabalha.

O número

No primeiro trimestre de 2026, o percentual de desalentados no Piauí foi de 7,6%. É o terceiro maior do Brasil, atrás do Maranhão, com 10,3%, e de Alagoas, com 9,2%.

A média nacional foi de 2,4%.

Na média do ano de 2025, o Piauí registrou 7,8%, também o terceiro maior do país, contra 2,6% de média brasileira.

Santa Catarina, no mesmo período de 2025, teve 0,3%. Rio Grande do Sul, 0,9%.

O Piauí tem, portanto, cerca de três vezes a taxa de desalento do Brasil.

O que é desalento

Desalentado é a pessoa que gostaria de trabalhar, está disponível para trabalhar, e parou de procurar emprego porque concluiu que não vai encontrar.

O IBGE identifica quatro motivos que caracterizam o desalento: a pessoa não encontrou trabalho na localidade onde mora, não conseguiu trabalho adequado à sua qualificação, achou que era muito jovem ou muito idosa para conseguir, ou simplesmente não conseguiu trabalho.

E aqui está o detalhe que muda tudo:

O desalentado não é contado como desempregado.

Na metodologia oficial, para ser desempregado é preciso ter procurado trabalho ativamente. Quem parou de procurar sai da força de trabalho e some da taxa de desemprego.

É por isso que a taxa de desemprego pode cair enquanto a situação piora. Se as pessoas desistem em vez de continuar procurando, o denominador diminui e o indicador melhora sem que nada de bom tenha acontecido.

O número que a taxa de desemprego esconde

Existe um dado piauiense que quase não circulou e que dá a medida real do problema.

O nível de ocupação do Piauí no primeiro trimestre de 2026 foi de 48,7%, o sétimo menor do país. A média nacional é de 58,2%.

Isso quer dizer que, de cada 100 piauienses com idade para trabalhar, cerca de 49 estão trabalhando ou procurando trabalho.

Os outros 51 estão fora da força de trabalho.

Nesse grupo há gente legitimamente fora do mercado: estudantes, aposentados, pessoas em tratamento de saúde, pessoas dedicadas integralmente ao cuidado da casa e da família. Mas há também, e a taxa de desalento é a prova disso, um contingente que gostaria de trabalhar e concluiu que não adianta tentar.

A distância de quase dez pontos percentuais para a média brasileira não é composta só de estudantes e aposentados.

O que produz desalento

É avaliação desta redação que os três indicadores desta série se explicam mutuamente.

Como já mostrado nas reportagens anteriores, cerca de 61% de todo o emprego formal do Piauí está em Teresina, e nos outros 223 municípios a média é de menos de setecentos vínculos com carteira assinada por cidade.

Numa cidade do interior piauiense com poucos milhares de habitantes, em que os empregadores formais se contam nos dedos e o maior deles é a prefeitura, a pessoa que procura emprego e não encontra não está sendo pessimista quando desiste. Está lendo corretamente o mercado à sua volta.

Desalento, nesse contexto, não é um estado de espírito. É uma avaliação realista de oportunidade.

Como esta reportagem foi feita

Os dados de desalento e de nível de ocupação vêm da PNAD Contínua do IBGE, divulgação trimestral referente ao primeiro trimestre de 2026, e da retrospectiva anual de 2025.

A definição de desalento reproduzida nesta reportagem é a metodologia do próprio IBGE.

Os dados de concentração do emprego formal vêm do balanço do Novo Caged de 2025 e foram detalhados na segunda reportagem desta série.

Contraditório

A Rádio Calçada procura a Secretaria de Estado do Trabalho e Empreendedorismo para que informe quantas unidades do Sistema Nacional de Emprego estão em funcionamento no Piauí, em quais municípios, quantas vagas foram captadas junto a empregadores nos exercícios de 2024 e 2025 e quantos trabalhadores foram efetivamente encaminhados e contratados.

A Rádio Calçada procura a Secretaria de Estado do Planejamento do Piauí para que informe se o nível de ocupação e a taxa de desalento integram o conjunto de indicadores monitorados pelo governo estadual.

As respostas serão publicadas na íntegra, sem edição, no momento em que chegarem.

Fiscalização

A Rádio Calçada solicita ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí que informe se a rede estadual de intermediação de mão de obra foi objeto de auditoria operacional quanto à cobertura territorial e à efetividade de encaminhamento.

Nesta série

A próxima e última reportagem trata da taxa de desemprego, o número mais citado e, como esta série procurou demonstrar, o menos revelador.

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