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agosto 11, 2026 17:44

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Mais da metade de quem trabalha no Piauí está na informalidade

A taxa piauiense é de 52,7%, uma das três maiores do Brasil, contra média nacional de 37,8%. Trabalho informal não gera contribuição, e quem não contribui hoje vai depender do Estado depois

Trabulo Neto (0002880/PI) e Trabulo Júnior (0014965/DF)

Reportagem da série “O trabalho que o Piauí tem”. Cada texto da série explica um indicador oficial do mercado de trabalho piauiense, o que ele mede, o que ele esconde e o que ele significa na vida de quem trabalha.

O número

No terceiro trimestre de 2025, a taxa de informalidade da população ocupada do Piauí foi de 52,7%. É a terceira maior do país, atrás apenas do Maranhão, com 57,0%, e do Pará, com 56,5%.

A média brasileira no mesmo período foi de 37,8%.

Na outra ponta, Santa Catarina registrou 24,9%, o Distrito Federal 26,9% e São Paulo 29,3%.

Traduzindo: mais da metade dos piauienses que trabalham não tem vínculo formal de nenhum tipo.

O que o IBGE chama de informalidade

Este é um dos indicadores mais mal explicados do noticiário econômico, então vale abrir.

A taxa de informalidade do IBGE soma cinco grupos de pessoas:

  1. Empregados do setor privado sem carteira de trabalho assinada.
  2. Trabalhadores domésticos sem carteira assinada.
  3. Empregadores sem registro no CNPJ.
  4. Trabalhadores por conta própria sem registro no CNPJ.
  5. Trabalhadores familiares auxiliares, que é quem trabalha no negócio da família sem remuneração própria.

Repare que o indicador não é sobre trabalho ilegal, nem sobre economia clandestina, nem sobre sonegação. É sobre ausência de vínculo registrado. O motorista de aplicativo, a manicure que atende em casa, o pedreiro que trabalha por empreitada e a diarista sem registro estão todos aqui.

São pessoas que trabalham. Muitas delas trabalham mais horas do que quem tem carteira assinada.

A parte que ninguém quer discutir: a conta previdenciária

Trabalho informal não gera contribuição previdenciária.

Isso tem uma consequência que não aparece este ano nem no ano que vem, e que por isso raramente entra no debate público. Quem trabalha a vida inteira sem contribuir não se aposenta por tempo de contribuição. Vai depender do Benefício de Prestação Continuada, o BPC, ou de uma aposentadoria rural, ou de nada.

O BPC é pago pelo governo federal a quem tem 65 anos ou mais e renda familiar por pessoa abaixo do limite legal. Não exige contribuição prévia. É um benefício assistencial, não previdenciário.

É avaliação desta redação que o Piauí está, hoje, produzindo a demanda por benefício assistencial de 2045. Cada ano em que metade da força de trabalho do estado permanece sem contribuir é um ano acrescentado a esse passivo.

E há um efeito de segunda ordem que atinge diretamente o orçamento do estado. Trabalho informal não gera folha de pagamento declarada. Folha declarada é base de arrecadação. Um estado com informalidade acima de 50% arrecada proporcionalmente menos por trabalhador e depende mais de tributo sobre consumo, que pesa mais sobre quem ganha menos.

Ou seja: a informalidade empobrece o trabalhador hoje, compromete a aposentadoria dele amanhã e reduz a capacidade do estado de financiar serviços no meio do caminho.

Um alerta contra a leitura preguiçosa

Existe uma leitura fácil desses números que a Rádio Calçada rejeita.

A leitura fácil diz que o piauiense é informal por escolha, por preferir não ter patrão, ou por acomodação. Os dados não sustentam isso.

O que os dados mostram é um estado onde a economia formal privada é pequena e concentrada. Como esta série já demonstrou em reportagem anterior, cerca de 61% de todo o emprego com carteira assinada do Piauí está em Teresina. Nos outros 223 municípios, o emprego formal privado é residual.

Informalidade, nesse contexto, não é preferência. É o que sobra.

Como esta reportagem foi feita

Os dados de informalidade vêm da PNAD Contínua do IBGE, divulgação trimestral referente ao terceiro trimestre de 2025, e da retrospectiva anual de 2025, que traz a definição metodológica do indicador reproduzida acima.

Os dados sobre concentração do emprego formal vêm do balanço do Novo Caged de 2025 e foram detalhados na segunda reportagem desta série.

Contraditório

A Rádio Calçada procura a Secretaria de Estado do Planejamento do Piauí para que informe se o governo estadual trabalha com meta oficial de redução da taxa de informalidade, qual o percentual perseguido, qual o prazo e qual o indicador usado para aferição.

A Rádio Calçada procura a Secretaria de Estado do Trabalho e Empreendedorismo para que informe quais programas estaduais em execução têm a formalização como objetivo declarado e quantos trabalhadores foram formalizados por meio deles nos exercícios de 2023, 2024 e 2025.

As respostas serão publicadas na íntegra, sem edição, no momento em que chegarem.

Fiscalização

A Rádio Calçada solicita ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí que informe se os programas estaduais de qualificação profissional e de estímulo ao empreendedorismo foram objeto de auditoria operacional, e se há aferição de resultado que relacione o recurso aplicado ao número de trabalhadores efetivamente formalizados.

Nesta série

A próxima reportagem trata do maior grupo isolado do mercado de trabalho piauiense: os 305 mil trabalhadores por conta própria sem CNPJ.

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