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agosto 11, 2026 17:44

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O navio que levaria o minério do Piauí à China deixou a costa com destino declarado a Belém sem o minério

O MARINE VICTORY passou quarenta dias fundeado à espera da primeira exportação do Porto Piauí. Neste sábado ele levantou ferro e navegou para Belém com 7,4 metros de calado, medida de navio em lastro.  O governo do estado, que anunciou a operação como marco histórico, não se pronuncia sobre a partida.

Por Trabulo Neto (0002880/PI) 

O navio que deveria levar o minério do Piauí para a China foi embora sem minério.

O MARINE VICTORY deixou a área de fundeio na costa de Luís Correia e navega na direção contrária à Ásia. Às 10h29 deste sábado (8), o rastreamento por satélite registrou a embarcação na posição 1,25623° de latitude sul e 43,18654° de longitude oeste, a 250 quilômetros a noroeste de Luís Correia, na altura do litoral do Maranhão, a 12 nós, em rumo 303,7 graus. O destino declarado é BR ICOARACI, ancoradouro de Belém, no Pará, com chegada prevista para 10 de agosto.

O calado informado é de 7,4 metros.

Duas evidências independentes sustentam a conclusão desta reportagem, e elas apontam para o mesmo lugar.

Primeira evidência: o calado

Calado é a profundidade que a parte submersa do navio alcança na água. Quanto mais peso a bordo, mais fundo o casco afunda. É a régua mais direta que existe para saber se um navio está carregado.

O MARINE VICTORY tem 250 metros de comprimento, cerca de 42 metros de largura e capacidade para 114.091 toneladas. Carregado com as 110 mil toneladas anunciadas, ele navegaria vários metros mais fundo. Os 7,4 metros informados são a medida de um navio em lastro, condição em que a embarcação segue praticamente vazia, com água nos tanques apenas para manter a estabilidade.

Os dados de identificação são os seguintes: número IMO 9455533, MMSI 636021647, indicativo de chamada 5LEZ6, bandeira da Libéria, ano de construção 2011, arqueação bruta de 61.682 e porte bruto de 114.091 toneladas.

Segunda  evidência: não existe registro de embarque

Uma exportação de minério de ferro deixa rastro documental. Gera declaração aduaneira, conhecimento de embarque e registro de saída. Nenhum desses documentos foi apresentado. Nenhuma autoridade estadual, nenhum órgão do governo e nenhuma das empresas envolvidas confirmou publicamente o embarque de qualquer quantidade de minério no MARINE VICTORY.

A cronologia

29 de junho de 2026: o KONTA II atraca no berço 401 do Terminal de Uso Privado, em Luís Correia. O MARINE VICTORY fundeia na costa piauiense à espera da carga.

5 de agosto de 2026: o KONTA II deixa o cais por volta das 9h com 9 mil toneladas, segundo a Companhia Porto Piauí. Foram trinta e oito dias de carregamento para a primeira das doze viagens necessárias.

7 de agosto de 2026: portais divulgam o início do transbordo em alto-mar e informam que a etapa final será a partida do MARINE VICTORY com 110 mil toneladas rumo à China.

8 de agosto de 2026: o MARINE VICTORY está a 250 quilômetros da costa piauiense, com calado de navio vazio, navegando para Belém.

O que isso significa

É avaliação desta redação que a primeira exportação do Porto Piauí não se completou, e que o modelo de transbordo apresentado como solução inédita no Brasil não passou no seu primeiro teste real.

É avaliação desta redação que a conta que desmonta o anúncio cabe em uma linha e usa apenas números divulgados pelo próprio governo: doze viagens necessárias, trinta e oito dias para a primeira, um navio oceânico esperando quarenta dias por uma carga que não subiu a bordo.

É avaliação desta redação que a mesma estrutura de comunicação que produziu material oficial para anunciar a saída do minério do cais tem o dever de informar ao público, com o mesmo empenho, que o navio foi embora sem ele.

O que permanece em aberto

Esta reportagem registra o limite do que está verificado. Os campos de destino e de calado nos sistemas de rastreamento são preenchidos pela tripulação da embarcação, e esta redação os apresenta como declarações do navio, com registro em captura de tela datada. Não há informação pública sobre os custos de espera acumulados pelos quarenta dias de fundeio, nem sobre quem os paga. Não há informação pública sobre a situação atual do KONTA II e do navio pulmão VENTURE.

Contraditório

A Rádio Calçada procura a Companhia Porto Piauí para saber se o MARINE VICTORY recebeu qualquer quantidade de minério, qual o volume efetivamente embarcado, qual o motivo da saída da área de fundeio, se a exportação para a China está mantida, quais os custos de espera acumulados e quem os paga.

A Rádio Calçada procura a Secretaria de Comunicação do Governo do Estado, a Lion Mining e o agente marítimo da operação para as mesmas questões.

O espaço permanece aberto. As respostas serão publicadas na íntegra, sem cortes, assim que enviadas. Havendo apresentação de documento de embarque que comprove carregamento, esta reportagem será corrigida com o mesmo destaque.

Fiscalização

A Rádio Calçada solicita ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí informações sobre o acompanhamento da operação do Terminal de Uso Privado de Luís Correia, sobre os custos públicos envolvidos e sobre a existência de contratos, aportes ou garantias estaduais vinculados à operação de transbordo.

A Rádio Calçada solicita ao Ministério Público de Contas do Estado do Piauí e ao Ministério Público do Estado do Piauí manifestação sobre a veracidade e a completude das informações divulgadas oficialmente a respeito da primeira exportação.

Metodologia

Os dados de posição, rumo, velocidade, calado e destino declarado foram obtidos por rastreamento de sinal AIS, sistema de identificação automática que os navios comerciais são obrigados a transmitir, e registrados em captura de tela com data e hora. As informações de identificação da embarcação foram conferidas por número IMO em bases públicas de rastreamento marítimo. As informações sobre cronograma, volumes e empresas participantes foram divulgadas pela Companhia Porto Piauí e estão atribuídas à companhia ao longo do texto.

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