Após gastar R$ 1,8 milhão em show do Alok sem licitação, Rafael Fonteles lança enquete nas redes sociais e confirma novas atrações pagas com dinheiro público; quase 1 milhão de pessoas no campo piauiense vivem sem esgotamento sanitário
A sequência é difícil de ignorar. Em menos de duas semanas, o governador Rafael Fonteles (PT) patrocinou com R$ 1,8 milhão de dinheiro público um show do DJ Alok e abriu enquete nas redes sociais para o público escolher mais artistas nacionais, e no dia 1º de maio anunciou a Calcinha Preta como primeira atração confirmada do São João de Teresina. Enquanto isso, os dados oficiais mostram que aproximadamente 500 mil piauienses que vivem no campo não têm acesso à água pela rede de abastecimento, e quase 1 milhão não contam com qualquer forma de esgotamento sanitário.
Do Alok à Calcinha Preta: a lógica dos shows
O show do DJ Alok em Teresina foi financiado com R$ 1,8 milhão do Governo do Piauí, sem licitação. A contratação foi feita pela Secretaria de Estado do Turismo (SETUR) por meio de inexigibilidade, com base no artigo 74 da Lei nº 14.133/2021. Os recursos utilizados são da Fonte 500 — recursos não vinculados de impostos, ou seja, dinheiro do orçamento geral do estado.
No domingo 26 de abril, Fonteles utilizou as redes sociais para lançar uma enquete para que a população escolhesse duas atrações nacionais do Festival de Folguedos, previsto para ocorrer entre os dias 11 e 14 de junho no Parque Potycabana. Os artistas colocados à votação foram Calcinha Preta, Xand Avião, Gusttavo Lima e Zé Vaqueiro.
O anúncio da Calcinha Preta como primeira atração confirmada foi feito por meio das redes sociais na sexta-feira, 1º de maio, após a repercussão do show do Alok na capital. Os valores dos contratos para o São João ainda não foram publicados no Diário Oficial no momento da publicação desta matéria. A Rádio Calçada aguarda a divulgação dos documentos.
A outra realidade
No mesmo período, a reportagem do Ocorre Diário publicada em 30 de abril de 2026 sistematizou o que os dados oficiais mostram sobre a zona rural do Piauí. Segundo o SINISA — Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico, apenas 51,32% da população rural piauiense tem acesso à rede de abastecimento de água, o equivalente a cerca de 526 mil pessoas num universo de mais de 1 milhão de moradores no campo. Isso significa que cerca de 500 mil pessoas ainda vivem sem esse serviço básico.
No esgotamento sanitário, o quadro é ainda mais severo. Apenas 3,36% da população rural do Piauí tem acesso à rede de coleta de esgoto — ou seja, na prática, quase a totalidade de quem vive no campo piauiense não conta com esse serviço. O Piauí fica abaixo até da média nacional de 4,75% nas áreas rurais.
Esses números têm nomes e endereços. Na Comunidade Caldeirão, em Piripiri, às margens de um dos 15 maiores reservatórios do estado — o açude Caldeirão, com mais de 54 milhões de metros cúbicos de água —, um estudo conduzido pela farmacêutica Adriana Honorato, em 2020, identificou que 80% das amostras de água coletadas estavam contaminadas com coliformes totais e Escherichia coli e impróprias para consumo humano. A moradora Maria da Paz, de 80 anos, resume o absurdo numa frase: “Água boa aqui pra beber, a gente tem que comprar.”
No Assentamento Lagoa do Prado, em Parnaíba, entregue às famílias em 2003 pelo INCRA, mais de duas décadas depois a água potável ainda não chegou às torneiras. Para beber, os moradores dependem de carros-pipa enviados pela prefeitura, que muitas vezes passam dias sem aparecer.
O que R$ 1,8 milhão representa nesse contexto
O valor do contrato com a Kalor para o show do Alok é o mesmo que o estado investiu. Para situar a magnitude: de acordo com especialistas do setor, esse montante seria suficiente para perfurar e equipar dezenas de poços artesianos comunitários, ou para implantar sistemas básicos de tratamento de água em múltiplos assentamentos rurais sem cobertura. O governo, porém, optou por estampar a logomarca do estado em painéis de LED.
Segundo a presidente-executiva do Instituto Trata Brasil, Luana Pretto, saneamento não é apenas uma questão de obra ou estrutura. É saúde, dignidade e qualidade de vida. Ela aponta que é nas áreas rurais que frequentemente se localizam as nascentes dos rios, o que torna o saneamento nessas regiões ainda mais urgente também do ponto de vista ambiental.
O cenário estadual é preocupante: apenas dez artistas faturaram mais de R$ 32 milhões com prefeituras do Piauí nos últimos 12 meses, por meio de contratos de inexigibilidade. Em muitos casos, os valores pagos por um único show ultrapassam R$ 300 mil, podendo chegar a mais de R$ 1 milhão. Com o São João em vista, o governo estadual engrossa essa fila conforme divulgou site Lupa1.
A concessão e o prazo longo
O governo tem uma resposta para o problema do saneamento rural: a concessão à Águas do Piauí, firmada em dezembro de 2024. O contrato é apresentado pela concessionária como o primeiro no Brasil a incluir, no mesmo projeto, o atendimento das zonas urbanas e das áreas rurais. A meta é chegar a 99% de cobertura de água até 2033 e 90% de esgoto até 2040.
O problema é que 2033 e 2040 são datas distantes para quem compra água para beber às margens de um açude com 54 milhões de metros cúbicos. E enquanto o prazo não chega, os shows se sucedem.
Posicionamento
A Rádio Calçada questiona à Secretaria de Estado do Turismo (SETUR) e ao Governo do Estado do Piauí solicitando esclarecimentos sobre os critérios de prioridade que orientam o uso de recursos públicos em eventos de entretenimento diante do déficit histórico de água e saneamento nas áreas rurais do Piauí, e sobre os valores e modalidades de contratação previstos para o São João de Teresina. O espaço para resposta permanece aberto. Manifestações podem ser enviadas para redacao@radiocalcada.com.br.
Fontes: Ocorre Diário (30/04/2026); SINISA – Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (2024); Diário Oficial do Estado do Piauí – Contrato nº 084/2026 (SETUR/Kalor); Portal AZ; Meio News; Portal O Dia; Portal ClubeNews; Instituto Trata Brasil.