Em 30 de setembro de 2025, a Polícia Federal, a Controladoria-Geral da União e o Tribunal de Contas do Estado do Piauí publicaram notas oficiais com uma conclusão comum: os chamamentos públicos realizados pela Secretaria de Saúde do Piauí para contratar Organizações Sociais de Saúde responsáveis pela gestão de hospitais estaduais apresentavam “claras restrições à participação de possíveis interessados” e “indícios de direcionamento e de conluio entre as OSS participantes”. A investigação resultou em prisões, 22 mandados de busca e apreensão em sete estados, bloqueio de R$ 66 milhões e suspensão de contratos. O que a Rádio Calçada reporta aqui é exclusivamente o que os órgãos de controle do governo federal declararam em suas notas oficiais.
Por Rádio Calçada | Investigação e denúncias por Trabulo Neto e Trabulo Júnior.
O que disse a Polícia Federal — fonte primária oficial
A Polícia Federal publicou nota oficial em seu site institucional (gov.br/pf) em 30 de setembro de 2025. O texto oficial da PF afirma:
“As investigações apontam indícios de direcionamento e conluio em chamamento público da Secretaria de Estado da Saúde do Piauí (SESAPI) para contratação da Organização Social de Saúde (OSS) responsável pela gestão de hospitais estaduais, em especial do Hospital Estadual Dirceu Arcoverde (HEDA), em Parnaíba/PI. Há suspeitas de superfaturamento, lavagem de dinheiro, conflito de interesses e falsidade ideológica em contratos milionários, incluindo o fornecimento de software de gestão em saúde.”
Fonte: Polícia Federal — https://www.gov.br/pf/pt-br/assuntos/noticias/2025/09/pf-cgu-e-tce-deflagram-operacoes-omni-e-difusao-para-desarticular-esquemas-criminosos-milionarios-em-contratos-da-saude-no-piaui
O que disse a CGU — fonte primária oficial
A Controladoria-Geral da União publicou nota oficial em seu site institucional (gov.br/cgu) na mesma data. O texto da CGU acrescenta detalhes sobre a origem das investigações:
“As investigações foram iniciadas em razão de análises realizadas pela CGU/PI no chamamento público conduzido pela SESAPI para a contratação de OSSs responsáveis pela gestão de hospitais estaduais, em especial do HEDA, em Parnaíba, no litoral do Estado, na qual foram identificadas restrições à participação de possíveis interessados na prestação dos serviços, bem como indícios de direcionamento e de conluio entre as OSS participantes.”
A nota da CGU acrescenta: “Serão cumpridas medidas de afastamento da função pública e de suspensão do contrato firmado pela SESAPI para o fornecimento de solução integrada para implantação de software de gestão de saúde, atualmente no valor de R$ 108 milhões.”
O que disse o TCE-PI — fonte primária oficial
O Tribunal de Contas do Estado do Piauí publicou nota em seu site institucional (tcepi.tc.br) com os detalhes mais completos de todos os três órgãos. O TCE-PI afirmou:
“As investigações foram iniciadas em razão de análises realizadas pela CGU/PI no chamamento público realizado pela SESAPI para a contratação de OSS responsável pela gestão de hospitais estaduais, em especial do HEDA, em Parnaíba/PI, na qual foram identificadas claras restrições à participação de possíveis interessados na prestação dos serviços, bem como indícios de direcionamento e de conluio entre as OSS participantes.”
O TCE-PI acrescenta um elemento grave, ausente nas notas da PF e da CGU: “Identificou-se, ainda, o conflito de interesses envolvendo agentes públicos que se vinculavam concomitantemente à SESAPI e às pessoas jurídicas contratadas pela OSS para prestarem serviço no HEDA.”
E conclui com uma advertência de alcance sistêmico: “Os fatos investigados têm impacto direto e materialmente relevante na gestão da saúde pelo Governo do Estado do Piauí, já que o HEDA é um dos grandes hospitais públicos do estado. Destaca-se que os problemas identificados têm impacto na SESAPI como um todo, tendo em vista a prática adotada pelo Governo do Estado de repassar às OSS a gestão da maioria dos hospitais estaduais, o que pode repercutir negativamente na grande parte da população piauiense que se utiliza de hospitais estaduais para cuidarem de sua saúde.”
Fonte: TCE-PI — https://www.tcepi.tc.br/cgu-pf-e-tce-pi-investigam-possiveis-crimes-envolvendo-a-atuacao-de-organizacao-social-de-saude/
O que a CGU declarou em coletiva de imprensa
Além das notas escritas, o superintendente da CGU no Piauí, Hélio Benvindo, concedeu declarações à imprensa durante coletiva realizada em 30 de setembro de 2025. Segundo o portal A10+, Hélio Benvindo afirmou:
“Organizações usavam de estrutura de empresas para beneficiarem financeiramente algumas pessoas físicas, ligadas a organizações que tinham contrato relacionado à área de saúde.”
E sobre a natureza da investigação: “A investigação envolve licitação e empresas laranjas para beneficiar pessoas.”
O delegado responsável pela operação
O delegado Murilo Matos, da Polícia Federal, responsável pela operação, declarou à imprensa em 30 de setembro de 2025:
“Os contratos investigados ainda estão em andamento, dando contemporaneidade, que é um dos principais requisitos para a prisão hoje em dia.”
Sobre o esquema investigado: “Principalmente na ocultação do capital ali que estava sendo desviado e a reiteração criminosa.”
O que as operações resultaram — fatos verificados
Com base nas notas oficiais dos três órgãos e nas coberturas jornalísticas do dia 30 de setembro de 2025, os resultados concretos das Operações OMNI e Difusão foram:
Operação OMNI: — 2 mandados de prisão temporária cumpridos (ambos em Teresina) — 22 mandados de busca e apreensão em Teresina (PI), Timon (MA), Araguaína (TO), Brasília (DF), Goiânia (GO), São Paulo (SP) e Curitiba (PR) — Bloqueio de R$ 66 milhões dos investigados, determinado pela 3ª Vara Federal da Seção Judiciária do Piauí — Afastamento de um servidor público da SESAPI — Suspensão de contrato de software de gestão em saúde, de R$ 108 milhões — Apreensão de aproximadamente R$ 1 milhão em espécie, joias e automóveis de luxo
Operação Difusão (simultânea, foco em hemodiálise): — 7 mandados de busca e apreensão em Teresina (PI), Imperatriz (MA) e Marco (CE) — Afastamento cautelar de uma servidora pública — Prejuízo estimado de R$ 900 mil identificado e parcialmente recuperado com as apreensões — Investigação iniciada por denúncias à CGU e ao MPF sobre contratação de serviços de hemodiálise e diálise peritoneal à beira leito
O que a SESAPI declarou
Em nota oficial divulgada no dia da operação, a SESAPI declarou:
“A Secretaria de Estado da Saúde do Piauí (Sesapi) informa que tomou conhecimento das operações realizadas pela Polícia Federal nesta terça-feira, dia 30. A Sesapi esclarece que está à disposição dos órgãos competentes para prestar quaisquer informações ou esclarecimentos que se façam necessários. A secretaria reafirma que todas as suas ações são pautadas na transparência e na legalidade, seguindo rigorosamente os ritos legais e as normas estabelecidas pelos órgãos de controle.”
A SESAPI informou que tomou conhecimento da operação por meio da imprensa — não havia sido notificada formalmente antes do início das buscas.
O impacto sistêmico — o que o TCE-PI alertou
O ponto mais relevante da nota do TCE-PI não é o caso específico do HEDA. É a advertência sobre o modelo de gestão adotado pelo governo do Piauí como um todo. O TCE afirmou que “a prática adotada pelo Governo do Estado de repassar às OSS a gestão da maioria dos hospitais estaduais” pode repercutir “negativamente na grande parte da população piauiense que se utiliza de hospitais estaduais”.
Em outras palavras: os órgãos de controle não estão investigando apenas um contrato ou uma OSS. Estão questionando o modelo pelo qual o governo do Piauí administra sua rede hospitalar pública — um modelo que, segundo o próprio TCE-PI, tem problemas que “têm impacto na SESAPI como um todo”.
A Rádio Calçada identificou, a partir dos dados do Portal da Transparência do Estado do Piauí (exportação de 16 de maio de 2026), que o governo do Piauí possui contratos de gestão hospitalar com ao menos quatro grandes OSSs além da investigada: ISAC — Instituto Saúde e Cidadania (R$ 526 mi em 2024–2026), SBCD — Sociedade Brasileira Caminho de Damasco (R$ 433 mi), AFNE — Associação Filantrópica Nova Esperança (R$ 219 mi) e Integra Saúde Digital Telemedicina (R$ 224 mi). O alerta do TCE-PI sobre o impacto sistêmico do modelo aplica-se a todos esses contratos.
Presunção de inocência
Esta reportagem reproduz exclusivamente declarações oficiais de órgãos de controle do governo federal — PF, CGU e TCE-PI — publicadas em seus sites institucionais. As investigações estão em andamento e não resultaram, até a data desta publicação, em condenação judicial de qualquer pessoa. Todos os investigados têm direito à presunção de inocência garantida pelo art. 5º, LVII, da Constituição Federal. A Rádio Calçada não imputa crime a qualquer pessoa — apenas reporta o que os órgãos de controle afirmaram oficialmente.
Fontes primárias oficiais utilizadas nesta reportagem:
- Polícia Federal (gov.br/pf): https://www.gov.br/pf/pt-br/assuntos/noticias/2025/09/pf-cgu-e-tce-deflagram-operacoes-omni-e-difusao-para-desarticular-esquemas-criminosos-milionarios-em-contratos-da-saude-no-piaui
- Controladoria-Geral da União (gov.br/cgu): https://www.gov.br/cgu/pt-br/assuntos/noticias/2025/09/cgu-pf-e-tce-do-piaui-investigam-possiveis-crimes-envolvendo-organizacao-social-de-saude-no-estado
- Tribunal de Contas do Estado do Piauí (tcepi.tc.br): https://www.tcepi.tc.br/cgu-pf-e-tce-pi-investigam-possiveis-crimes-envolvendo-a-atuacao-de-organizacao-social-de-saude/
- A10+ — coletiva de imprensa com delegado Murilo Matos e superintendente da CGU Hélio Benvindo (30/09/2025): https://a10mais.com/noticias/policia/presos-servidores-afastados-e-apreensao-de-mais-de-r-900-mil-tudo-sobre-as-operacoes-da-pf-e-cgu-contra-a-sesapi-e-fms-35172.html
- Portal da Transparência do Estado do Piauí — exportação 16/05/2026 (dados sobre OSSs contratadas pela SESAPI).
A Rádio Calçada é um veículo independente de jornalismo investigativo. Não recebe recursos do governo do estado do Piauí.